Pádua ao final da tarde e um adeus a Itália

Vale a pena visitar Pádua? (cont…)

No post anterior falámos de várias razões para visitar Pádua, uma cidade com vários locais de cultura únicos com uma impressionante arquitectura, que até nós que planeámos visitar a cidade não esperávamos encontrar. Basilia de Sant’ Antonio di Padua e Cappella degli Scrovegni foram apenas alguns dos sítios mencionados no último post, que podem aceder aqui.

Continuando este nosso dia a explorar Pádua estávamos então a meio da tarde depois de um aperol spritz. Voltámos ao sul da cidade depois de um pequeno desvio para visitar a Cappela degli Scrovegni. Pádua é uma cidade de arquitectura simples, mas onde também se encontram paisagens que aparecem assim de repente enquanto se passeia pela cidade, como a da figura abaixo. De repente um canal, uma paisagem que lembra Veneza, mas ao estilo de Pádua. A arquitectura dos edifícios da cidade é muito focada em arcos e isso revela-se nas fotografias que tirámos das ruas da cidade.


Prato della Valle

Começámos a segunda parte, ou melhor o último terço do dia a passear por um parque rodeado por 78 estátuas representando vários residentes históricos da cidade como por exemplo Galileu Galilei. Junto à ponte a sul do parque as estátuas foram reservadas ao clérigo e é onde se encontram os papas Paolo II, Alessandro VII, Clemente XIII e Eugenio IV.

Prato della Valle é um parque público e fica em frente ao jardim botânico. O jardim botânico foi fundado em 1545 e suponho que nesta altura em que escrevo este post faça sentido e valha a pena visitá-lo. Não tanto quando visitei Pádua, no final de Janeiro.


Abbazia di Santa Giustina

Entrámos em seguida na Abbazia di Santa Giustina. Santa Giustina foi sepultada no local onde hoje fica o Prato della Valle, a 7 de outubro do ano de 304, depois de ter sido condenada à morte por practicar a religião cristã. Hoje esta igreja ergue-se em seu nome e é a sétima maior igreja cristã do mundo. Em 1177, um terramoto destruiu quase por completo a igreja, tendo sido reconstruída nos anos seguintes, reaproveitando o que remanescia da igreja de origem. O interior da igreja tem a forma da cruz e contém 20 diferentes capelas, 10 de cada lado. Em todas as capelas podem-se ver pinturas e estátuas com traços de arquitectura renascentista. A entrada para esta igreja é gratuita.

Quando saímos da Abbazia di Santa Giustina já estávamos na chamada ‘Golden Hour’ com um maravilhoso pôr do sol. Como quisemos voltar ao nosso quarto, na casa Battisti, antes de irmos jantar tivemos a oportunidade de passear por outras ruas da cidade e ainda voltar a passar junto da Basilica di Sant’Antonio di Padua.


Pastasuta

Para jantar estivemos indecisos. Acho que por esta altura depois de Bassano del Grappa e Veneza o cansaço começava a fazer-se sentir. Mesmo assim quisemos voltar ao centro de Pádua como tínhamos pensado no início do dia. Como estávamos virados para pratos de massa, algo que afinal ainda não tínhamos comido durante a viagem, e o meu marido estava especialmente curioso em experimentar lasanha em Itália, acabámos por ir à Pastasuta. Este restaurante é bastante central localizando-se entre a Piazza della Fruta e a Piazza delle Erbe. Os pratos de massa custam entre 8 e 11 euros, dependendo da escolha. Este preço é bastante em conta quando comparado com outros restaurantes da zona. No entanto, Pastasuta pareceu-nos uma espécie de restaurante de comida rápida especializado em massas. Aliás deve mesmo ser uma vez que no menu consta que a massa está cozida em 5 minutos.

Eu pedi massa com molho ragù alla bolognese e burrata, o meu marido a tal lasanha. Não foi uma refeição que tenha ficado para a história, mas foi barato, rápido e saboroso. Apenas nada de especial. Ainda quisemos experimentar o tiramisu caseiro, sobremesa que fazem no local, mas foi uma desilusão, talvez tenha sido uma das piorzitas que já comi. Infelizmente nem a lasanha nem a sobremesa foram de encontro às altas expectativas que se tinha.

No entanto ao escrever este post voltei a fazer uma rápida pesquisa sobre restaurantes em Pádua e a maior parte deles tem a mesma avaliação ou ainda pior do que a Pastasuta, tendo atenção que estávamos à procura de restaurantes de comida mais tradicional. Por isso esta pesquisa e a que fizemos na altura não inclui restaurantes com outras cozinhas disponíveis em Pádua. Alguns dos restaurantes que estão melhor avaliados são bastante menos em conta do que aquilo que procurávamos financeiramente. E será que são mesmo melhores? Fica aqui a questão. Por todas estas razões talvez esteja a ser demasiado dura com o restaurante Pastasuta. Até porque a comida era boa e recomendo irem lá se procurarem uma refeição rápida e barata. Simplesmente não vai mudar o vosso mundo. E não peçam o tiramisu.


Birrolandia

Depois do jantar fomos a um local que quisemos experimentar pela imensa quantidade de diferentes cervejas, a Birrolandia. O que há mais aqui são cervejas para escolher, e isso sabe-se logo pelo grande menu (aka bíblia) de cervejas que o empregado vos dará. Também servem aqui comida, mas é mais do género para petiscar ou partilhar. A Birrolandia não fica no centro da cidade, mas isso não impede de se puder passar por aqui para aproveitar beber uma cerveja ou duas.

No final do dia estávamos completamente esgotados e voltámos para a Casa Battisti não muito tarde. Tinham sido vários dias a explorar 3 cidades italianas diferentes, todas elas com características próprias levando a experiências distintas. Todas elas muito bem-vindas. Se visitarem Itália o meu maior conselho é que não se deixem ficar pelas grandes cidades. Sim, estas têm muito para oferecer e às vezes dois ou três dias não são suficientes, mas é mais comum encontrar as verdadeiras surpresas nas cidades e vilas menos conhecidas, onde se vive uma experiência mais verdadeira sobre a cultura do país. Visitar Veneza? Não é preciso pensar, mas é claro que sim! No entanto, tentem incluir sítios como Bassano del Grappa e Pádua. Acreditem que não se vão arrepender.


Uma última sugestão…

Para acabar este post vou deixar uma dica que pode agradar a alguém. Depois de voltar da viagem encontrei na internet várias vezes mencionado este café – Pedrocchi Café – onde pelos vistos a menta é a especialidade da casa. Café com menta ou bolo de menta, chocolate e café são algumas das especialidades. Pedrocchi Café é um dos cafés históricos da cidade, possivelmente o mais famoso, e por isso se estiverem interessados é altura de anotar este local no vosso itinerário a Pádua.

Pádua, Itália

Pádua é por vezes uma cidade negligenciada pelos turistas, uma cidade que não entra nas listas de paragens, especialmente quando se compara com grandes cidades italianas como Roma, Milão e Veneza. No entanto, Pádua é uma óptima cidade para visitar num dia. Ainda na região de Veneto, Pádua ou Padova em italiano, fica a meia hora de comboio de Veneza. E foi Pádua a nossa terceira e última cidade desta viagem. Começámos em Bassano del Grappa parámos em Veneza e agora Pádua.


Como chegar

Saímos de Veneza bastante cedo para apanhar o comboio para Pádua em Venezia Mestre. Comboios partem a partir de Veneza a cada 10 a 15 minutos para Pádua, mas atenção quando comprarem os bilhetes que enquanto o bilhete nos comboios regionais fica a 4.80 euros, há outras companhias como a Frecciarossa em que os bilhetes custam 20 euros. Verifiquem no website da trenitália os vários horários e preços para os diferentes comboios: https://www.trenitalia.com/en.html. Acho que a diferença de preço está relacionada com o tipo de bilhete, por exemplo se quiserem viagens ilimitadas durante o dia, o que pode ser aquilo que vos dê mais jeito. Nós nunca fizemos mais do que duas viagens de comboio no mesmo dia e fomos sempre pelos comboios regionais que têm o meu completo apreço. Também já tinha dito que os bilhetes de comboio podem ser comprados com antecedência, mas têm que comprar para uma determinada hora para a qual o bilhete é válido. Ou seja, se perderem o comboio precisam de comprar novos bilhetes. E se comprarem online não se esqueçam que têm de validar os bilhetes ou podem apanhar multa. Nós sempre comprámos nas máquinas porque preferimos evitar esse nível de stress acrescido por estarmos atrasados ou termos medo de perder o comboio.

A viagem entre Veneza e Pádua demorou cerca de 30 minutos e era pouco mais das 9 e meia quando saímos na estação de Pádua. Para quem vem com os olhos cheios de Veneza, com as suas milhentas paisagens pitorescas, Pádua pode parecer uma cidade pouco interessante, mas não se deixem enganar pelas aparências. Foi em Pádua que visitámos alguns dos mais impressionantes lugares da viagem.


Onde ficar

Já sabíamos que íamos chegar bastante cedo a Pádua e como não queríamos passar metade do dia com as malas às costas, tínhamos contactado a Casa Battisti, o local onde íamos passar a noite, para perguntar se podíamos deixar as nossas malas mesmo sabendo que seria muito mais cedo do que a hora do check-in. Mas acreditem que a recepção foi ainda melhor do que esperávamos. A senhora tinha-nos dito que não havia problema nenhum em deixar as malas e quando lá chegámos como o quarto já estava arranjado deixou-nos logo fazer o check-in. E isto eram apenas 10 da manhã. O atendimento foi mesmo 5 estrelas. O quarto era grande (a fotografia não faz justiça ao quanto espaçoso era) estava arrumado e limpo. A maneira como a senhora nos recebeu fez-nos logo querer gostar de Pádua.

Uma das particularidades deste alojamento, apesar de não ser talvez importante para os turistas, mas é o de ficar bastante perto do hospital, o Ospedale Giustinianeo. Para aqueles que tem familiares ou amigos internados no hospital e não vivam perto de Pádua podem ficar na Casa Battisti por alguns dias a valores mais reduzidos. Afinal tudo conta quando se fala em ajudar.


Centro de Pádua

Mais leves sem as malas, saímos da Casa Battisti e dirigimo-nos primeiro para o centro da cidade. Quando começámos a percorrer as ruas apercebemo-nos que Pádua era uma cidade bastante mais pacata comparada com Veneza, mas com a sua própria beleza. Um dos locais que eu gostava de ter visitado era a universidade de Pádua, a Università degli Studi di Padova. Esta é uma das universidades mais antigas do mundo, fundada em 1222. Grandes nomes constam da lista de estudantes e/ou professores que passaram nesta universidade como Galileu Galilei, Nicolau Copérnico e Cristovão Colombo. Palazzo Bo é o nome da sede da universidade e é possível visitá-la com um guia. Infelizmente naquele dia por alguma razão, provavelmente relacionada com alguma actividade universitária, não estavam a decorrer as tours. Passeámos pelas zonas públicas dentro da universidade mas acabámos por não visitar o seu interior.

Fomos então passear pelas 3 praças principais que são marcos históricos da cidade, adjacentes umas às outras. Piazza della frutta e Piazza delle Erbe (praça da fruta e praça das ervas) são duas praças conhecidas por terem sido antigamente (e ainda hoje) o foco principal de comércio. Eram nestas duas praças que se encontravam os mercados mais importantes da cidade. O mais giro é que ainda hoje ali se fazem mercados com bancas de frutas, vegetais, comida, roupas e joalheria. A particularidade são as próprias bancas de madeira, as chamadas de “scariolanti”.

Passando por estas praças, chega-se à Piazza dei Signori onde o monumento mais notável é a Torre dell’Orologio (torre do relógio). A torre foi construída durante o século XIV e o primeiro relógio foi coloado em 1344. Neste relógio podia-se ver as horas, os meses, as fases da lua e os signos do zodíaco. Infelizmente a torre foi destruída quando os exércitos veneziano e milanês invadiram a cidade em 1390, para impedir o rápido crescimento de Pádua. Resultado destas invasões Pádua tornou-se uma cidade do domínio veneziano e em 1428 a torre foi reconstruída, tendo-lhe sido adicionada símbolos da República de Veneza tal como o famoso leão alado, o leão de San Marcos. O relógio astronómico tem várias parecenças com o de Veneza, apesar de o Pádua ter sido construído 70 anos antes. Não deixem de reparar nos bonitos pormenores deste relógio astronômico.

É também em redor destas três praças que se encontram vários restaurantes e por isso decidimos voltar aqui no final do dia para jantar.


Basilica di Sant’Antonio di Padova

Saímos do centro da cidade para explorar a parte mais a sul. A primeira paragem foi na Basilica di Sant’Antonio di Padova. Em vez de entrarmos directamente na basílica entrámos por um dos claustros, o chiostro della Magnolia. Entrámos por aqui devido a necessidades biológicas. Ainda passeámos em redor do claustro para ver o que podíamos visitar para além da basílica, mas os vários museus que fazem parte do complexo com a basílica encontram-se encerrados à segunda-feira. A basílica felizmente estava aberta e melhor ainda era de entrada gratuita. Logo à entrada e depois ao longo do seu interior há vários sinais a indicar que é proibido tirar fotografias, mas claro que as pessoas quando se tornam turistas ganham um novo estatuto de trogloditas e eram só telemóveis no ar a fazerem aquilo que lhes pediam para não fazer. Não pensem que isto mostra um comportamento corajoso, mas sim de desrespeitoso e rude. Esta ideia enraizada de que se não tiver uma fotografia da visita esta não aconteceu torna-se um bocado triste.

Chiostro della Magnolia

Mas a basílica é realmente qualquer coisa de especial. Foi um dos lugares mais espectaculares que tive oportunidade de visitar. Até há o risco de se ganhar um torcicolo a olhar para cima e para os lados e para o chão e outra vez para cima. Esta basílica é lindíssima.

Engraçado que esta basílica construída entre 1232 e 1310 tenha sido dedicada a Santo António de Pádua, o mesmo santo que é hoje o padroeiro de Lisboa. Santo António nasceu em 1195 em Lisboa, mas morreu em Pádua em 1231. O estilo artístico desta basílica foi altamente influenciado pelo da basílica de San Marcos em Veneza com uma arquitetura característica do Bizâncio, cidade que posteriormente se chamou Constantinopla e hoje chama-se Istambul. No entanto, esta basílica junta os estilos do meio oriente com o gótico. É completamente assombrante a beleza desta basílica. E foi uma completa surpresa em Pádua.

Basilica di Sant’Antonio di Padova

Cappella degli Scrovegni

Ainda tínhamos bastante para explorar nesta parte de Pádua, no entanto tivemos de voltar mais tarde. Isto porque tínhamos comprado os bilhetes no dia anterior para o local mais conhecido de Pádua, a Cappella degli Scrovegni. Em vários websites tínhamos lido que a compra antecipada dos bilhetes era recomendada. Mas nós decidimos só os marcar no dia anterior uma vez que quando verificámos pela primeira vez havia imensa disponibilidade para aquele dia. Talvez tenha sido porque visitámos Pádua no final de janeiro e como tal época baixa. Pelo menos para Pádua, não diria o mesmo para Veneza por exemplo, com o Carnaval a chegar rapidamente. Podíamos até ter comprado os bilhetes na altura, mas também não quisemos arriscar. O bilhete que comprámos dava acesso tanto para visitar a capela como os museus cívicos (Musei Civici degli Eremitani). O bilhete custou-nos 12 euros porque era segunda-feira e o Palazzo Zuckermann encontra-se fechado às segundas. Nos outros dia da semana incluindo também este Palazzo o bilhete fica a 16 euros. Pareceu-nos que segunda-feira é o dia errado da semana para visitar Pádua, mas também não ficámos muito chateados, uma vez que visitámos o que queríamos. Quando se compra os bilhetes para a visita à capela não só tem de se escolher a data, mas também a hora, uma vez que o número de pessoas que podem entrar por grupo dentro da capela é limitado (25 pessoas no máximo).

A capela é famosa porque é um dos trabalhos mais conhecidos e impressionantes de Giotto, famoso pintor e arquitecto italiano que viveu entre 1267 e 1337. Giotto é considerado como o percursor da pintura renascentista, o elo entre o renascimento e a pintura bizantina e quem introduziu a perspectiva na pintura. No entanto, a característica mais conhecida do seu trabalho é a representação de santos como pessoas de aparência comum.

Desde 2021 que esta capela faz parte do Património Mundial da UNESCO conhecida como ‘os ciclos de frescos do século XIV de Pádua’.

Há um processo bastante específico para visitar a sala dos frescos como forma de preservação dos mesmos. Primeiro entra-se para uma pequena sala fechada onde é mostrado um filme sobre a história e o significado dos frescos que se vai ver de seguida. Isto demora cerca de 15 minutos para estabilizar as condições de temperatura e humidade dentro da sala dos frescos, após a saída do grupo anterior. Depois dos 15 minutos visita-se a sala dos frescos por mais 15 minutos. Entre as passagens as portas automáticas fecham-se impedindo o mínimo de trocas de microclimas entre as salas. Dentro da sala dos frescos aproveitem bem aqueles 15 minutos. Tirem fotografias, sim tirem muitas, mas não se esqueçam de olhar, olhar com olhos de ver, e apreciem este lugar único com um valor incalculável. Não o vejam apenas através do ecrã do telemóvel ou da lente da câmara.

Quando a visita à capela termina entra-se para a zona dos museus cívicos incluindo o museu arqueológico e o museu de arte medieval e moderna. No total demora-se mais ou menos entre hora e meia a 2 horas a explorar tudo.


Uma paragem para o aperol spritz

Depois desta visita voltámos então para o sul da cidade, para o pé da basílica di Sant’Antonio. No entanto, a meio fizemos uma paragem para um aperol spritz. Fomos ao Fly Bar Pizzeria onde o aperol spritz custava 3 euros (a razão da escolha). A comida não era nada de especial, mas foi uma paragem bem merecida para recarregar as energias para o resto do dia. Mas para dizer a verdade não provámos as pizzas que eram o principal deste local, como sugerido pelo nome do restaurante. Este local é bastante procurado pelos estudantes exactamente pelos preços baixos.

A meu ver tanto a Basilica di Sant’Antonio di Padova como a Cappella dei Scrovegni são razões suficientes para valer a pena visitar Pádua. Locais únicos com um enorme valor histório.

No entanto o dia ainda não tinha acabado e para a semana será a vez de publicar o último post desta viagem com mais ideias e razões para explorar Pádua.

Cortejo de abertura do Carnaval de Veneza

Carnaval, a celebração

Para o nosso segundo dia a explorar Veneza estava marcado um evento muito especial relacionado com o Carnaval. Mas primeiro vamos ao porquê de o Carnaval calhar sempre em datas diferentes. O porquê de a data mudar todos os anos. Porque o Carnaval ou melhor a sua origem está relacionada com a Páscoa e com ela a Quaresma, e por isso o dia de Carnaval, a terça-feira gorda, muda de acordo com a data da Páscoa, exatamente 47 dias antes da Páscoa. A data da Páscoa também muda não é verdade? Isto porque a Páscoa é dependente da lua – a Páscoa calha sempre no primeiro domingo depois do equinócio que dá início à Primavera.

O Carnaval sendo um símbolo de liberdade, de festa e celebração faz sentido que aconteça mesmo antes de se dar início à Quaresma, período com as suas muitas restrições que incluem o não comer carne à sexta-feira. Lembro-me bem desta regra visto que isto era seguido em casa dos meus pais e por isso bastante presente na minha infância.

O Carnaval em Veneza não acontece em apenas um dia, mas em 10. Começa 10 dias antes da terça-feira gorda. Em 2024 o período carnavalesco decorreu entre o 3 e o 13 de fevereiro. Durante estes dias há vários eventos diários como competições de máscaras, procissões, teatros de ruas, enfim um leque diverso de celebrações por toda a cidade de Veneza.

Claro que esta época é bastante procurada pelos turistas e como tal bastante mais cara principalmente quando falamos em acomodação. No entanto depois de uma pesquisa descobrimos que o cortejo aquático que abre o Carnaval acontece no fim-de-semana (Domingo) anterior ao início do período oficial. Mas atenção que as celebrações só decorrem no fim-de-semana, durante a semana volta tudo à normalidade até ao começo dos 10 dias de Carnaval. Como os preços eram bastante mais acessíveis neste fim-de-semana acabámos por escolher visitar Veneza de 27 a 28 de janeiro.

Se quiserem visitar Veneza no Carnaval do próximo ano, deixo-vos este website que nos ajudou imenso a organizar a nossa viagem: https://www.visit-venice-italy.com/carnival-venice-italy-programme.html


E eis que o Carnaval começa

O cortejo normalmente começa às 11 da manhã e parte de Punta della Dogana subindo o Canal Grande até à Ponte Rialto, onde a Pantegana acontece – o momento especial em que o rato enorme feito em papel se abre libertando um imenso número de balões coloridos pelo ar.

Não é difícil de adivinhar que a zona ao pé da ponte Rialto fica a abarrotar de pessoas para assistir ao espetáculo e por isso ou terão de vir umas horas mais cedo para estarem mesmo ao pé da ponte ou então têm de desbravar a multidão para encontrarem um cantinho onde consigam ver o desfile.

O momento da Pantegana

Neste nosso dia como o desfile começava às 11, depois do pequeno-almoço fomos passear pela cidade. Finalmente se via céu azul depois de dois dias de nevoeiro. Fomos até à ponte Rialto só para ver o que se passava por lá e claro que encontrámos um mar de gente mesmo aquela hora. Mas aproveitámos para ver a ponte. A ponte Rialto é a ponte mais famosa de Veneza tendo sido construída entre 1588 e 1591. A ponte Rialto é conhecida pela sua arquitectura e localização central no Canal Grande, o canal que atravessa a cidade. Como ainda era cedo e não quisemos estar à espera do cortejo que só chegaria aqui por volta das 11:20 fomos passear pela Piazza San Marco, que com sol, ganhou um outro brilho.

Fomos ainda até à zona da cidade onde ia começar o cortejo, apenas para espreitar, mas rapidamente chegava a hora de irmos para a ponte Rialto. Afinal nós também queríamos ver a Pantegana. Lá conseguimos um cantinho mais abaixo no canal ainda com vista para a ponte apesar das muitas estacas de madeira que nos tiraram a maior parte da vista. Mas conseguimos ver o cortejo e o grande diálogo daquele que fazia de Marco Polo, o grande navegador italiano. Também conseguimos ver os balões, apesar de terem sido bem menos do que esperava. Mas realmente o Carnaval segue as mesmas normas em todo o lado, apesar de todo o lado místico em Veneza, há também muita palhaçada e isso reflectiu-se neste cortejo (não é de forma alguma uma crítica, apenas uma contestação).


Museo Correr

Quando o cortejo acabou voltámos para a piazza San Marco para visitar o Museo Correr. Não nos tínhamos dado conta no dia anterior, mas o bilhete para entrar no Palazzo Ducale também dava acesso a este museu. No bilhete dizia que era válido para o dia da compra mas perguntámos à entrada e disseram-nos que podíamos entrar uma vez que o bilhete tinha sido comprado nas últimas 24 horas.

O Museu Correr é o museu da cidade, também conhecido como o museu cívico de Veneza, onde é contada a história da cidade desde a sua fundação até se tornar parte de Itália no século XIX. Ligado a este museu encontram-se o museu arqueológico e a biblioteca Marciana, também estes disponíveis para visita.


Tramezzini & Frittelle

Saímos do museu eram quase duas da tarde e foi quando começámos a explorar as bonitas e pitorescas paisagens do distrito de Dorsoduro. Fomos descendo em direcção à Ponte dell’ Accademia para aproveitar o bom tempo e assim puder apreciar a paisagem. Enquanto íamos andando decidimos comer qualquer coisa. Começámos pelo Bar alla Toletta para provarmos os Tramezzini; escolhemos quatro com recheios diferentes e claro está acompanhados por um aperol spritz. Os valores deste cocktail são bem mais elevados em Veneza do que os que encontrámos em Nápoles, que chegavam a custar entre 2 a 2.5 euros, mas a qualidade não tem comparação. Em geral o aperol spritz em Veneza fica entre os 4 e 4.5 euros. Mas repito, o preço compensa. Claro que a seguir entrámos na loja ao lado, Pasticceria Toletta, para mais uma virada de frittelle, os doces de Carnaval dos quais falei no post anterior.


Ponte dell’Accademia & Fondamenta Zattere

Quando saímos da pastelaria fomos em direcção à ponte dell’Accademia, mas o tempo tinha começado a mudar, o céu tinha-se tornado cinzento e não demorou muito a ser acompanhado pelo nevoeiro, este já nosso conhecido. E foi assim que quando finalmente chegámos à ponte, não tivemos a sorte de apreciar toda a paisagem. Mas a cidade é tão bonita que mesmo com nevoeiro a beleza perdura.

Uma das coisas mais famosas para se fazer em Veneza é andar de gôndola. Quando visitámos a cidade um passeio de gôndola custava 80 euros por 30 minutos. Confesso que não vejo muito o interesse, mas sei que o problema sou eu, pois este negócio é concorrido de tal forma que até chegámos a presenciar um engarrafamento de gôndolas. Se gostavam de fazer algo assim mas acham que o preço é ridículo podem apanhar as chamadas gôndolas traghetto que custam 2 euros. Estas gôndolas são serviços públicos mais para ajudar os moradores da cidade que têm de atravessar de uma margem para a outra do canal. Estas gôndolas não fazem viagens longas, apenas conectam as margens opostas já que a pé pode-se demorar mais de meia hora. As traghetto são uma boa opção se querem fazer um ‘certo’ nas viagens de gôndola em Veneza.

Um dos locais que estava na nossa lista para ver o pôr do sol era a Fondamenta Zattere Ai Saloni. Mas nunca nos calhou a sorte de conseguirmos ver o sol ao fim do dia. Ainda viemos aqui passear, mas o nevoeiro estava cerrado. No entanto percorremos a rua até ao pico e aproveitámos para visitar a Basilica di Santa Maria della Salute, que para nossa surpresa, era de entrada gratuita. Esta famosa basílica faz parte da paisagem mais conhecida de Veneza. A basílica foi construída como celebração e agradecimento à Virgem Maria pelo fim da peste no século XVII. A primeira pedra foi colocada a 1 de abril de 1631 e 50 anos depois foi solenemente consagrada pelo patriarca. A dupla cúpula da basílica é a sua particularidade arquitectónica mais conhecida onde no topo da maior encontra-se a estátua da Virgem Santa Maria com o bastão de capitana do mar.


Ospedale Ss. Giovanni e Paolo

Como o nevoeiro por esta altura não nos deixava ver grande coisa acabámos por ir jantar bastante cedo. Fomos primeiro ao hotel, o que nos levou mais de 40 minutos, já que fomos a passo de turista. Ainda entrámos num hospital, sim eu sei que parece estranho, mas à entrada do Hospital Civil Ss. Giovanni e Paolo encontram-se bonitas colunas de mármore apoiando um tecto de madeira. Estes são os restos da Scuola Grande di San Marco que ali existia antes de se tomar um hospital em 1815. A Scuola Grande di San Marco fazia de sede para várias instituições de caridade e religião que durante o século XIII tiveram um papel fundamental na história e desenvolvimento da música.


Pizzeria da Zorma

Para jantar não quisemos ir a nenhum restaurante propriamente dito, mas sim experimentar uma pizzeria que ficava ao pé do nosso hotel e que estava muito bem avaliada. A ideia era depois de comermos fazer uma espécie de rally tascas na zona de Cannaregio mas focada em aperol e campari spritz. A pizzeria só faz serviço de takeaway, mas tal como no Fried Land encontrámos um balcão com uns bancos que serviram de mesa. O nome deste local é Pizzeria da Zorma e está avaliado em 4.8 no Google. As pizzas são feitas na hora, mas não em forno de carvão pois esses são proibidos em Veneza. Mas os preços são realmente atrativos. Tal como as pizzas deliciosas. Escolhemos duas pizzas diferentes para dividirmos e depois de alguma indecisão pedimos a carbonara e a giulia. No entanto, ficou-se com alguma curiosidade em relação à pizza tedesca com salsicha e batata frita. Pode parecer estranho, mas a tedesca e a carbonara foram as pizzas que tiveram mais saída enquanto aqui estivemos. Claro que a maior parte dos clientes estavam a usar o serviço de takeaway estando sempre a entrar e a sair pessoas. Ao contrário do que se possa pensar Veneza não é o local aclamado pelas melhores pizzas, mas estas foram uma ótima surpresa. O preço de uma pizza de tamanho normal fica entre os 5 e os 8 euros.


Aperol & Campari Spritz em Cannaregio

Para começarmos a noite fomos primeiro à Birreria Zanon já que as reviews eram bastante boas em relação tanto à bebida como à comida. Mas ficámos bastante desanimados, foi um dos piores aperol spritz que já bebi. E nem era por ter pouco álcool, estou-me mesmo a referir à fraca qualidade da bebida.

Em seguida voltámos ao bar da primeira noite, Bacaro Pub da Aldo, para mais um aperol mas este sim com muito mais qualidade. Mas não nos ficámos por aqui. Na verdade, nesta rua existem imensos bares, alguns deles sempre cheíssimos tal como um bar de vinhos e um café com um conceito giro que junta livraria e bistro. Foi no terceiro bar que acabámos por ficar onde a música e o ambiente nos agarraram. O bar chamava-se Bacaro ae Bricoe. Aqui também se vende as famosas cicchetti, como aliás na maior parte dos bares. Aperol spritz e campari spritz à sua vez foram chegando à nossa mesa. Boa música, boa conversa, boa bebida. O que mais se quer na última noite numa das cidades mais bonitas não só de Itália, mas do mundo?

E foi num manto de nevoeiro que voltámos para o nosso hotel para uma última noite em Veneza. Uma vez na vida, uma memória para sempre.

Carnaval de Veneza

O carnaval de Veneza é para muitos uma daquelas experiênica do bucklist, uma experiência de uma vida. E há razões para o ser, é como presenciar um espectáculo ao ar livre. O carnaval em Veneza foi mencionado pela primeira vez em 1094, o mesmo ano em que o corpo de San Marco, o padroeiro da cidade, foi encontrado. O carnaval foi permitido pelo Doge Falier (o chefe do estado) para ser celebrado nos dias anteriores à Quaresma, o que significa que o carnival também tem uma conotação religiosa. E ainda o é hoje, por isso é que a terça-feira gorda começa antes da quarta-feira de cinzas quando se inicia a Quaresma. Mas em 1094, o carnaval estava nos seus primórdios. Foi só no século XIV que começou a tomar forma do que é hoje com o aparecimento da terça-feira gorda, por muitos conhecida como a terça-feira de carnaval, depois da guerra de Chioggia que acabou em 1381.

Até 1797, altura da dissolução da República de Veneza, as máscaras eram usadas muito mais frequentemente e fora da altura do Carnaval com o objectivo de manter o anonimato e a liberdade. pessoal. Hoje o Carnaval de Veneza é um acontecimento conhecido mundialmente com o uso de máscaras restrito ao Carnaval.

E o melhor é que qualquer um pode participar neste espectáculo. Com uma máscara, uma capa e luvas, foi assim que fomos experimentar o que é fazer parte deste evento. Andando pelas ruas muitas fotografias nos foram tiradas, pessoas a fingir que não o estavam a fazer (a fingir muito mal diga-se de passagem), pessoas a pedir para tirar fotografias conosco e até crianças a olharem e a apontarem para nós de olhos arregalados. E o melhor da experiência? O completo anonimato.

Continuámos a avançar na nossa lista de locais a explorar. Um detalhe que vou mencionar é que em muitos locais tais como igrejas e museus há restrições de entrada a mascarados, sendo como mínimo requisito entrar sem a máscara. Assim recomendo que se se quiserem mascarar que o façam durante a parte do dia em que não pensem visitar muitos lugares.

Scala Contarini del Bovolo

O primeiro lugar que fomos visitar foi a Scala Contarini del Bovolo, uma escadaria que faz parte de um palazzo do século XV. Pode-se subir esta escadaria por 8 euros, mas nós ficámo-nos pelo exterior. Uma das coisas interessantes deste local é que a escadaria foi adicionada ao edifício, uma vez que o dono, Pietro Contarini, queria embelezar a sua propriedade. E realmente não podemos discordar que a escadaria com os seus muitos arcos adiciona requinte aquele local.

Museo della Musica

Em seguida fomos até ao Museo della Musica onde encontrámos a primeira indicação sobre a restrição de entrada de máscaras, como mencionei acima. O museu encontra-se dentro da igreja de San Maurizio e em exposição existem vários instrumentos musicais com uma grande prominência nos instrumentos de cordas como os violinos. Existe até uma parte da coleção que pertenceu a Antonio Vivaldi. Neste museu poderão encontrar 300 anos de fabricação italiana de violinos com alguns dos mais magníficos instrumentos.

Squero di San Trovaso

Depois de voltarmos a pôr as nossas máscaras fomos até Squero di San Trovaso, ou melhor à Fondamenta Nani, a rua que fica do outro lado do canal em frente ao estaleiro histórico de San Trovaso. Este é um dos estaleiros ainda em operação onde são construídas e reparadas gôndolas, pequeno barcas e barcaças. Como fomos no Domingo não havia actividade naquele dia, mas é sempre valioso visitar um local que existe desde o século XVII e que continua a ter um papel importante nos dias de hoje.

Bar alla Toletta e Pasticceria Toletta

Por esta altura chegava as 4 da tarde e depois de um dia com tanta actividade eis que era a hora de nos virarmos para a cozinha local. Depois de uma breve discussão decidimo-nos pelo distrito Dorsoduro. Na verdade, esta zona era a seguinte da lista pela ponte dell’Accademia de onde se tem uma das melhores vistas sobre o canal. Mas o maldito nevoeiro não se tinha levantado e sabíamos que continuaria connosco pela tarde e noite adentro. Resignados, entrámos dentro do Bar alla Toletta, um dos locais de renome para os tramezzini, as sandes locais tradicionais. Já tínhamos experimentado os tramezzini em Bassano del Grapa e como a fome já apertava acabámos por pedir umas baguettes acompanhadas pelo famoso aperol spritz. Foi em Veneza que descobri que os aperol spritz, os cocktails famosos de Itália, são mais bem servidos com uma azeitona verde dentro. O café estava cheíssimo, mas viemos cá duas vezes (neste e no dia seguinte) e conseguimos sempre encontrar mesa. É incrível como a fome pode começar a ‘matar’ o dia, mesmo que seja um dia em viagem. Depois de comer a vontade de explorar a cidade já era outra.

No entanto ainda quisemos parar na pastelaria do lado, com o mesmo nome do café, Pasticceria Toletta, onde comemos o melhor de toda a viagem, as frittelle, que são bolinhas de massa frita recheadas. As frittelle são doces tradicionais da altura do Carnaval e por isso não só eram deliciosas como ainda tinham um valor cultural enorme. Como recheio existem vários cremes, experimentámos as frittelle com creme de pistacchio, com creme Zabaione e com creme veneziane. O de zabaione venceu, mas todos eles eram muito bons. Não é por acaso que no dia seguinte não só viemos aos tramezzini mas também a mais uma rodada de frittelle. A pastelaria não tem sítio para se sentar, só assim um balcãozito, mas vale imensa a pena visitar.

Frittelle na pastelaria Toletta

E foi assim que muito mais satisfeitos fomos andando pelas ruas de Veneza, tirando fotografias com as nossas máscaras postas, passando pela piazza San Marco e aproveitando para tirar fotografias não só aos recantos lindíssimos da cidade mas também a outros mascarados.

Quando começou a anoitecer fomos até ao nosso hotel, afinal para jantar as máscaras e capas acabariam por não dar muito jeito.

Arcicchetti Bakaro

Para jantar quisemos experimentar outra iguaria local as cicchetti, que são pequenas tostas de pão com os mais variados condimentos. E foi assim que acabámos em Arcicchetti Bakaro. Há várias razões pelas quais se deve visitar este lugar. Primeiro porque as cicchetti custam 1 euro cada. Na maioria dos locais e atenção que se encontram por todo o lado, cada cicchetti custa de 2 euros a 3,5 euros. Por isso 1 euro é mesmo um óptimo valor. Existem várias variedades de cicchetti, com carne, com peixe, com os mais variados legumes e misturas. Nós quisemos experimentar pelo menos um de cada. Foi também aqui que encontrámos o melhor aperol spritz da viagem. De negativo só tenho a apontar duas coisas: não sendo um restaurante, não dá para sentar no interior, só há umas mesas de café espalhadas na parte exterior e claro se tiver frio como estava na altura que fomos, não se consegue ficar muito tempo sentado. Outra coisa é como não aceitam reservas (e com estes preços) a fila é enorme. De tal maneira que não pedimos mais exactamente para não estarmos na fila. O meu conselho é que peçam logo a mais quando forem atendidos. Como podem ver nas fotografias abaixo, pedimos 10 cicchetti, 5 para cada um, mas acho que teríamos comido um prato cada, se pudéssemos. No entanto não posso deixar de mencionar a qualidade dos cicchetti, houve alguns que gostámos mais do que outros, como por exemplo o de bacalhau e o dos tomates, mas todos eram muito bons. Tal como os outros locais que tenho mencionado neste post não se deixem intimidar pela fila que vale mesmo a pena a espera.

Ca’Macana Atelier

Para finalizar o dia, ou mellhor a noite, entrámos dentro de uma loja muito especial, principalmente nesta altura do ano – Ca’Macana Atelier, onde se fazem as mais bonitas máscaras de Carnaval (e outros afins) desde 1984. As máscaras são feitas à mão com uma perícia incrível. Este atelier faz também workshops para quem queira aprender ou melhor experienciar esta práctica. Porque para aprender é preciso muito tempo e muito treino. Explorar esta loja foi como entrar num mundo de fantasia, um mundo recheado de máscaras venezianas.

Montra do atelier Ca’Macana, com Marco Polo em destaque (o tema do Carnaval de Veneza 2024)

Veneza

Neste post vamos começar a explorar a cidade a começar de manhãzinha. Não vai ser o único post sobre Veneza pois tivemos 2 dias e meio para conhecer esta maravilhosa cidade. No post da semana passada, o primeiro sobre Veneza, falámos de como chegar à cidade, de onde ficar, e as primeiras impressões. Nos próximos posts sobre Veneza preparem-se para os constantes ‘e aqui parámos para tirar uma fotografia‘ e ‘é claro que tivemos que parar para uma fotografia‘ seguidas pelo ‘o cenário merecia uma fotografia’ e acabando com ‘e foi ainda melhor do que esperávamos’. E são estas frases que resumem a nossa viagem a Veneza, uma cidade muito melhor do que esperávamos com recantos pitorescos a cada esquina onde era impossível não parar e não tirar uma fotografia.

Pequeno-almoço

Depois da primeira noite passada no hotel Vecellio chegava a hora de tomar o pequeno-almoço. A sala de pequeno-almoços não é muito grande e é por isso que é preciso combinar uma hora na altura do check-in, senão há o perigo de não haver mesas para toda a gente. As sandes e as bebidas quentes são feitas na hora, mas o serviço é bastante rápido. Depois de comermos as nossas sandes, folhados, saladas de fruta acompanhados por cafés, chás e sumos eis que chegava a hora de sair e começar o nosso dia. Como tinha dito no último post, enquanto estivemos em Veneza o nevoeiro foi praticamente sempre uma constante e o dia de hoje não foi excepção, bem pelo contrário, foi desde manhã à noite, o que alterou alguns dos nossos planos de que falarei mais à frente.

Monumento a Vittoria Emanuele II

A primeira paragem da nossa lista era a igreja de São Zacarias (Chiesa di San Zaccaria) e logo aqui encontrámos o primeiro problema com o GPS, pois este indicava-nos que a igreja se encontrava ao pé da estação de vaporetto de San Zaccaria, mas quando chegámos ao tal ponto, de igreja nada, ou pelo menos não esta igreja. Vejam só que estava tanto nevoeiro que até ponderei se a igreja não estaria a entrar pelo rio adentro e assim escondida pelo nevoeiro. O ponto que o GPS indicava era em frente a uma estátua de ferro, o Monumento a Vittorio Emanuele II, onde no topo se encontra o rei Emanuele II montado num cavalo. Ao seu sopé na parte posterior do monumento encontra-se uma estátua de uma mulher derrotada ao lado de um leão, representando a perda da cidade de Veneza para a Áustria no período entre 1848 e 1849 (fotografia acima à direita).

Leão Alado

O leão alado (leão com asas) é o símbolo da cidade de Veneza e por isso encontrado em imensos lugares espalhados pela cidade em forma de escultura, pintura e em painéis. O leão alado representa San Marco, o padroeiro da cidade. Este leão pode ter um livro debaixo da pata onde se lê as palavras ‘Pax tibi Marce, evangelista meus, hic requiescat corpus tuum ” que significa algo como “Paz para ti Marcos, meu Evangelista, aqui descansa o teu corpo”. A lenda diz que este leão alado apareceu a San Marco quando este estava a chegar à cidade e que naquele momento San Marco soube que era este o seu lugar.

Chiesa de San Zaccaria

Em relação à igreja, para a encontrar é preciso entrar por uma ruazinha estreita perpendicular, a Campo San Zaccaria, e seguir por essa rua por uns minutinhos. A visita à igreja é gratuita. No século VII foi a primeira igreja construída naquele local, no entanto a igreja de hoje remonta ao século XV. Pensa-se que na mesma altura da primeira igreja, no século VII, também um convento beneditino foi construído formando um complexo juntamente com a igreja. O convento foi mais tarde fechado por Napoleão e hoje é um dos quartéis dos Carabinieri, o equivalente à GNR em Portugal. Dentro da igreja existem três capelas, a capella di Sant’Antanasio, a Cappella di San Tarasio e a Capella dell’Addolorata. Uma das particularidades desta igreja e a maior razão para ela visar na nossa lista de locais para visitar é a cripta românica cuja visita custa 3 euros. Esta cripta do século X encontra-se permanentemente submersa em água.

Librearia Acqua Alta

A nossa segunda paragem foi uma livraria, mas uma livraria pouco comum. Tal como foi demonstrado pela nossa visita à cripta, Veneza é uma pequena ilha cuja cidade é facilmente inundada com a subida das águas dos canais. Apesar do nevoeiro não apanhámos chuva e por isso não vimos, mas pela cidade há painéis que se levantam do chão para criar passagens pedonais quando as inundações acontecem. Em certas situações nem isso safa de ficar com os pés dentro de água. Para combater as inundações e impedir que os livros se estraguem, os livros na Libreria Acqua Alta, estão protegidos ao serem mantidos dentro de gôndolas, barcos e banheiras onde estão dispostos ao invés das tradicionais prateleiras. De forma mais original foram usados os livros que tinham como destino o lixo. Estes foram empilhados formando corredores de livros e até uma escada ao fundo da livraria, a qual podem subir para uma bonita paisagem do canal. E claro que visitar a livraria não custa nada, para além de que quem sabe, se não encontram um livro que vos agrade para ler durante a viagem?

Ponte dei Sospiri

A praça de San Marco é a praça principal de Veneza e onde se encontram os mais imponentes monumentos. É também onde se encontra o maior número de pessoas por metro quadrado. Como disse acima San Marco é o padroeiro da cidade e é nesta praça com o seu nome que se encontra a basílica di San Marco, um dos locais que visitámos. Mas já lá vamos. Primeiro para chegarmos à praça tivemos de passar por uma ponte, a Ponte della Paglia, que fica defronte a uma das mais conhecidas pontes de Veneza, a ponte dos suspiros (Ponte dei Sospiri). Alguns acreditam que esta é a ponte mais romântica da cidade, mas não se enganem pelo nome que a história que lhe é associada não tem nada de romântico. A ponte liga dois edifícios, a prisão, Prigioni Nuove, e o Palazzo Ducale. O nome ‘suspiros’ tem origem do que se ouviam dos prisioneiros que passavam da prisão para o tribunal dentro do palácio onde iam ser julgados. Os prisioneiros davam suspiros ao verem a última vez o exterior ao passarem por esta ponte, uma vez que julgados dentro do tribunal a morte certa os esperaria.

Palazzo Ducale

Ao contrário da nossa intenção desta viagem, o de ser uma viagem a baixo custo, acabámos por decidir visitar o Palazzo Ducale (palácio Ducal), também conhecido por palácio do Doge. E foi o nevoeiro que teve o seu papel nesta escolha, porque todos os locais que tínhamos para visitar eram ao ar livre e com o nevoeiro não íamos ver grande coisa. Assim, demos 30 euros para visitar o palácio (eu sei, até dói). Se comprarem o bilhete online com 30 dias de antecedência, fica a 25 euros (fica aqui a dica). Outra coisa que tivemos de fazer ainda antes de pagar bilhete foi estar na fila. Felizmente a fila não era muito grande e esperámos cerca de meia hora, o que pelo que ouvi dizer não é nada mau. E pelo que vi acredito que em alturas mais turísticas, a espera deva ser de horas. Mas apesar de tudo a espera não custou nada! Nesta altura foi quando começaram a aparecer mascarados a passar ao pé do palácio e sendo este o motivo da nossa visita, claro que a espera passou num ápice.

Agora sobre a nossa visita ao Palácio Ducal – Se doeu aqueles 30 euros? Sim. Mas vale a pena? Eu diria que sim. Passámos mais ou menos uma hora a vaguear pelas muitas salas com o risco de apanharmos um torcicolo, a olhar para os frescos magníficos nos tectos e nas várias paredes. Não só os frescos, os trabalhados, o relógio astrológico (fotografia abaixo à direita), um complexo de arte belíssima. Talvez a parte menos faustosa terá sido a parte da visita à prisão (fotografia mais abaixo à direita). O Palazzo Ducale foi construído entre 1309 e 1424 e foi palco da antiga sede do Doge de Veneza. Quem era o Doge? Era o título de chefe de estado vitalício eleito pela nobreza veneziana. Só vos digo que pela riqueza magnífica que se encontra dentro deste Palazzo, pode-se dizer com grande certeza que o Doge era uma pessoa de grande poder.

Basilica di San Marco

Depois de sairmos do Palazzo Ducale era altura de visitarmos a Basílica di San Marco, outro monumento importante de Veneza, e digo-vos que foi muito diferente do que esperávamos. Pela positiva, claro. Depois da espera para entrar no Palazzo Ducale estavámos com menos paciência para estarmos na fila para entrar dentro na basílica. E a fila ainda era bem maior do que para entrar no palácio. Assim sendo fomos ao website oficial e comprámos os bilhetes que nos ficou a 6 euros cada. O mau? É que se tiverem na fila à espera a visita à basílica é gratuita. O bom? É que por 6 euros entram logo e escusam de perder horas de vida. Apesar de tudo, acho que os 6 euros foram bem dados.

Entre os bilhetes disponíveis, se forem comprados online tem-se a escolha de visita à basílica que custa 6 euros, ou então à basílica e Pala d’Ouro que custa 12 euros ou à basílica, Pala d’Ouro e museu Loggia Cavalli que custa 20 euros. Nós só visitámos a basílica por isso não sei se vale a pena visitar os outros sítios, mas sei que a basílica deve ser um dos locais a constar na lista obrigatória de visita. Como disse acima a basílica foi uma surpresa, pois ao contrário da arquitectura gótica encontrámos uma basílica de arquitectura com traços do Bizâncio, o nome da cidade antiga onde hoje é Istambul. Também aqui dentro a cor dourada do ouro prevalece como no Palazzo Ducale, mas de tal forma diferente que quase nos transporta para o meio oriente, mesmo ali no centro da Europa.

Como era indicado pelas filas para entrar em ambos os locais, havia imensas pessoas, principalmente na basílica, de tal maneira que era difícil movimentarmo-nos pelos corredores. E assim acabámos no meio da praça de San Marco em frente à basílica. Edifícios importantes de notar conta com a Torre dell’Orologio (Torre do Relógio) onde na fachada principal encontra-se um grande e bonito relógio vigiado pelo famoso leão alado. No topo da torre ao bater da hora as duas estátuas de bronze, chamadas de mouros, devido à sua cor, torcem o torço para ‘bater’ no sino. A torre do relógio pode ser visitada com um guia, custando 14 euros o bilhete.Outro edifício importante e este ainda mais difícil de passar despercebido é o Campanário, Campanile di San Marco, medindo 99 metros de altura e que se pensa ter sido construído inicialmente para efeitos de torre de vigia no século XII. A torre foi destruída, reconstruída e remodelada, muitas vezes pela acção de raios, e hoje pode-se subir até ao topo para uma maravilhosa vista da cidade. Claro que para nós, o nevoeiro impedia que esta subida fosse atraente. E aqui também vos deixo uma alternativa mais barata. O centro comercial Fondaco dei Tedeschi tem um terraço no topo que é possível visitar gratuitamente. Apenas têm de reservar os vossos 15 minutos com alguma antecedência através do link: https://www.dfs.com/en/venice/service/rooftop-terrace. Eu soube deste lugar 1 semana e meia antes da viagem e já não fui a tempo para reservar bilhetes, estando tudo já esgotado. E vi os bilhetes agora e já só há para dia 10 de abril, por isso aconselho a que seja uma das primeiras coisas a fazer mal decidam visitar a cidade.

Enquanto caminhávamos pela praça de San Marco mais e mais mascarados apareciam e assim chegava a altura de irmos até ao nosso quarto pôr as nossas máscaras, luvas e capas e juntarmo-nos à festa. E é aqui, a avançar pelas ruas de Cannaregio para o nosso hotel que acabo este post. No próximo falarei da experiência que é ‘fazer parte’ do Carnaval de Veneza e onde explorámos a comida local, em alguns dos melhores restaurantes da viagem.

Veneza, Itália

O nome ‘Veneza’ evoca várias emoções – para os amantes de viagens, de fotografias, poetas, sonhadores e pintores. Em cada esquina, em cada canto, há um bocadinho para descobrir, para olhar, para respirar cada paisagem. Quando comecei a ver o que fazer em Veneza o primeiro aviso foi ‘preparem-se para se perderem, mas rapidamente voltarão a encontrar-se’, neste pedaço de paraíso onde nem sequer o Google Maps tem lugar. E sim, perdemo-nos, encontrámo-nos, explorámos, aventurámo-nos e encantámo-nos naquela que é a cidade mais pitoresca de Itália.

Mas por ser uma cidade tão adorada, procurada, amada, está a sofrer com o turismo. Milhões de pessoas a percorrer as ruas de uma ilha que está aos poucos a afundar-se, que um dia deixará de existir se não se criar uma acção de protecção. E está a começar essa mesma acção, a partir de Abril de 2024, os turistas começam a pagar 5 euros cada vez que queiram entrar na cidade. Muitos são os que dizem que 5 euros não vai parar o turismo alarmante, mas suponho que se tenha de começar por algum lado. Aliás é imperativo começar agora se queremos que Veneza continue presente no mundo futuro.

Ao invés de tudo o que eu acabei de escrever, o meu sonho não passava por visitar Veneza, mas há algo especial em conhecer esta cidade na altura do Carnaval, mesmo que seja só uma vez na vida. E foi essa a razão de termos vindo a Itália no final de janeiro. O Carnaval decorreria entre 3 e 13 de fevereiro, mas os preços da acomodação já estavam a preços alarmantes para estas datas. Mesmo na parte de Veneza dentro de Itália continental (duvido que seja este o termo correto), onde a acomodação costuma ser mais económica. Por isso fomos no fim-de-semana antes, 27 e 28 de janeiro, o fim-de-semana do chamado pré-carnaval, altura em que se começam a ver mascarados a vaguear pelas ruas e quando decorre o cortejo de início da época carnavalesca, concebida pela grande frota de barcos que parte de uma ponta do Grande Canal passando pela ponte Rialto. Este ano durante o fim-de-semana também haveria espetáculos de rua. O tema do Carnaval muda todos os anos, este ano, em 2024, o tema era ‘A incrível jornada de Marco Polo’, o grande explorar dos mares de origem italiana numa homenagem ao 700º aniversário da sua morte.


Chegar a Veneza

O aeroporto mais perto de Veneza é o aeroporto internacional Marco Polo. Podem chegar a Veneza de autocarro apanhando-o no aeroporto até Venezia Mestre, a estação que fica na parte continental de Veneza, e depois o comboio para Venezia St Lucia, a estação que fica na ilha de Veneza (esta é a tradicional parte da cidade, e da qual me estarei a referir neste post). Em Veneza não é permitida a circulação de carros, onde a forma mais cómoda e fácil de transporte é o aquático. Os ‘autocarros aquáticos’, os chamados Vaporetto, ligam as várias partes da cidade, percorrendo os diversos canais, sendo possível apanhar um Vaporetto do aeroporto para Veneza. Se por outro lado é possível visitar Veneza a pé? Sim é, aliás foi o que fizemos, mas lembrem-se de que para ir de A a B tem que se passar por C, D, E,… e por isso se tiverem o tempo contado os vaporetto serão a melhor opção. Neste momento cada viagem de Vaporetto fica a 7 euros mas há vários passes que podem comprar e que permitem andar as vezes que quiserem de Vaporetto durante um determinado período de dias (dependendo do pass que comprarem): https://www.veneziaunica.it/en.


Onde ficar

Há duas opções, uma é mais económica, mas a outra para além de mais cómoda, permite ter uma melhor experiência da cidade. Ficar em Veneza Mestre invés de em Veneza central normalmente fica mais em conta financeiramente e é onde muitos decidem ficar, pois a viagem de comboio entre Venezia Mestre e Venezia St. Lucia é rapidíssima, apesar de não saber bem as regras que vão entrar em vigor agora com a taxa de entrada adicionada. Não sei se para aqueles que ficam em Venezia Mestre terão de pagar 5 euros todos os dias que quiserem entrar em Veneza, ou se haverá alguma espécie de acordo. Nós arranjámos um hotel dentro da ilha de Veneza, no distrito de Cannaregio, mesmo em frente ao rio; o hotel Vecellio, um hotel de 3 estrelas com pequeno-almoço incluído. Marcámos um quarto com vista para o rio e apesar do quarto gritar por umas obras de restauro, o hotel (e o quarto) conseguiram ir de encontro às nossas expectativas, até mais, porque sendo uma cidade rodeada por canais, aliás as estradas são os canais de água, as fundações das estão constantemente imersas por água. Tínhamos lido muitas histórias de pessoas que encontraram camas com percevejos ou madeira carujada, ou quartos com níveis de limpeza a deixar muito a desejar.

Vista do nosso quarto com uma paragem de vaporetto mesmo àa frente do hotel

Foi com algum alívio que o nosso quarto não sofria de tais males. Cada noite custou-nos cerca de 100 euros mais a taxa da cidade. O nosso quarto devia ser a ‘preciosidade’ do hotel, porque a rececionista perguntou-nos umas quantas vezes se gostávamos do quarto como se esperasse que ficássemos completamente impressionados. Não ficámos, mas como disse sentiu-se algum alívio, especialmente depois de puxar os lençóis para trás e não ver bichinhos a rastejar (claro, isto depois da rececionista já ter saído do quarto). O sistema de pequeno-almoço incluía uma lista que todos os dias preenchíamos escolhendo o que queríamos para a manhã seguinte. A escolha incluía entre croissants, sandes, cereais, iogurtes, cafés, chás e chocolate quente. Podia-se pedir a quantidade que se quisesse de cada item da lista.

Uma das minhas sugestões, e de muitos viajantes que passaram pela cidade, é que tentem ficar alojados na ilha de Veneza, conhecer Veneza durante a noite, já sem as ondas de turistas a percorrer as ruas foi uma das melhores experiências que tivemos.


As primeiras impressões

Durante os 2 dias e meio passados em Veneza, o nevoeiro pouco nos largou, o que podia ter sido chato, mas para dizer a verdade acho que até adicionou um ar mais misterioso a Veneza. Talvez porque tinha visto há pouco tempo ‘Haunting in Venice’ este tempo adequava-se a essa vibe de mistérios. Até chegámos a comentar a certa altura que se alguém caísse à água durante a noite, ninguém o encontraria até o dia seguinte.

Mal começámos a percorrer as ruas da cidade rapidamente nos apercebemos o porquê dos avisos sobre as pessoas perderem-se e não haver um GPS que os levasse pelas ruas certas. É que ias ruas são tão estreitinhas, de tal forma que em algumas mal dá para passar duas pessoas ao mesmo tempo. Esqueçam lá a ideia de carros, realmente era impossível. O que há muito são pontes, pontes à esquerda, à direita, ao centro, pontes que servem de entrada para casas e prédios. Quem nunca desejou ter uma ponte privativa como entrada de casa? Bem, em Veneza é bastante fácil de se arranjar! Outra coisa que há muito são pessoas, mas por todo o lado até chegar a um ponto de ser maçador. Dos 6 distritos que Veneza está dividida os mais desafiadores são o de San Polo e San Marco, que ficam mais no centro. Nas zonas de Cannaregio e Dorsoduro, zonas um bocadinho menos turísticas, é mais fácil respirar e apreciar a cidade sem ter de ter o cuidado constante de não pisar os calos a alguém. E foi mais na zona de Cannaregio que ficámos nesta primeira noite. Depois de instalados no nosso (maravilhoso, de acordo com a rececionista) quarto e de uma inspeção de conclusão favorável às condições sanitárias e biológicas deste, eis que saímos, já na mira da comida. Mas primeiro, porque havia ainda uma réstia de luz decidimos passar no bairro judeu, conhecido como o Ghetto.

Praça principal do bairro judeu

O Ghetto existe desde 1516 e é hoje considerado o bairro judeu mais antigo do mundo. Infelizmente já nesta altura os judeus sofriam com a discriminação tendo sido confinados a esta zona de Veneza pela República Veneziana. No entanto em 1797 quando o exército francês comandado por Napoleão Bonaparte ocupou a cidade, a separação do Ghetto com o resto da cidade dissolveu-se. Fomos até à praça principal, mas afinal os restaurantes já estavam fechados tal como as sinagogas, sendo que uma delas até estava em obras. Acabámos por não voltar a esta zona por falta de tempo, mas fica aqui a dica de um local cheio de história.  Se vierem durante o dia encontrarão certamente padarias aberta que valerão a pena experimentar como a chamada Panificio Giovanni Volpe.

Eu tinha esta padaria apontada para experimentarmos, mas afinal não aconteceu. Aliás tinha muitos locais apontados, todos eles locais que não nos levariam um braço ou um rim. Digo isto porque Veneza é conhecida por ser extremamente cara e é preciso atenção principalmente nos restaurantes e cafés nas zonas mais turísticas. Por exemplo, restaurantes com menus sem preços são um grande NÃO, porque no final pode chegar-vos uma conta com um valor exorbitante para pagar. E para nós, tal como tinha dito no post sobre Bassano del Grappa, esta era uma viagem de baixo custo, pelo menos o quanto possível. Durante a nossa estadia em Veneza, acabámos por realmente nunca jantar num restaurante, mas não foi por isso que a nossa experiência culinária não foi boa. Neste primeiro dia, quisemos experimentar um dos locais mais recomendados, o Fried Land, onde acabámos por provar duas iguarias locais; o cone de mar (fritto di mare) com camarões, peixinhos e lulas fritos na hora, que acabou por ser ainda melhor que o cone que tínhamos provado em Nápoles, e a massa com choco de tinta (pasta al nero di sepia), que apesar de ter uma aparência, pode-se dizer que estranha, tinha um sabor delicioso. A massa também feita na hora. O cone custou-nos 8 euros e a massa 7. O local é pequeno, não tem mesas, mas tem um pequeníssimo balcão com três bancos altos, que por sorte ficaram livres quando estávamos à espera da comida. Confesso que foi mais confortável comermos o nosso jantar sentados, do que comer no exterior ao frio. Se comerem ao ar livre, cuidado com as gaivotas, elas são predadoras de comida humana e não têm medo de tirar um olho a alguém para conseguirem surripiar uma argola de lula.

O Fried Land pareceu-nos ser um local bastante popular, apesar de não ser propriamente um restaurante. Isto porque durante o tempo que aqui estivemos não deixou de chegar mais e mais pessoas. Para acabar a noite fomos beber qualquer coisa e para ficarmos na zona, pois apesar de tudo, tínhamos acordado bastante cedo para aproveitar o dia em Bassano del Grappa (ver último post) fomos ao Bacaro Pub da Aldo (Bacaro Pub da Aldo Birre Da Tutto Il Mundo) onde há uma grande selecção de cervejas. Mas o que nos chamou à atenção foi o aperol spritz XL por 5 euros. Pelo mesmo preço também se pode pedir o campari spritz. Ambas são bebidas tradicionais de Itália, o campari com um sabor mais intenso, parecido digamos com o da água tónica, enquanto o aperol tem um sabor mais docinho. Como estava frio sentámo-nos numa das mesas dentro do café onde encontrámos vários jogos de tabuleiro. Decidimos jogar damas, ou melhor, eu decidi levar uma abada nas damas, e para lamber as feridas não só fui para mais um campari spritz como ainda pedi um frito de bacalhau com mozzarella.

Por volta das 10 horas da noite decidimos voltar para o hotel. Percorrer aquelas ruas durante a noite sem pessoas, apenas o silêncio a rodear-nos deu-nos a conhecer outro lado de Veneza.

E assim acabo este post com o resto a ser relevado nos próximos capítulos!

Bassano del Grappa, Itália

Chegou a vez de falar de Itália. Durante muitos anos quis visitar esta país, mas a oportunidade nunca surgia. Foi só em inícios de 2023 que pela primeira vez comecei a conhecer Itália, começando pela cidade de Milão, com uma escapadinha de um dia ao Lago Como. E depois desta viagem, tal como uma viciada, visitei Itália mais duas vezes, sempre a zonas diferentes do país. Até comecei a aprender italiano com o Duolingo, vejam só o empenho! Mas dá sempre um valor especial à viagem, quando se tenta falar a língua local, sendo que tentar é aqui a palavra de ordem. Em inícios de 2024 voltámos a Itália para visitar mais 3 cidades, começando por Bassano del Grappa.

Bassano del Grappa não é uma cidade muito conhecida, mas a sua beleza é indiscritível. Bassano fica na parte noroeste de Itália, na zona de Veneto, a cerca de uma hora de comboio de Veneza, já a tocar nos pés dos Alpes. Podia-se pensar que o nome se atribuía à bebida italiana, a Grappa, que talvez em Portugal seja a aguardente a bebida mais parecida, mas na verdade o nome da cidade vem do monte Grappa que serve de sopé a Bassano.

Esta cidade teve um papel importante tanto na primeira como na segunda guerra mundial e se vierem a Bassano del Grappa procurem esta estátua do escultor local Severino Morlin dedicada aos alpini, as tropas de montanha pertencentes ao exército italiano. A estátua representa dois amantes a despedir-se porque ele, alpino, vai partir para a guerra.

Nós só passámos um dia em Bassano del Grappa, apenas para conhecer a cidade, mas podem estender a vossa estadia se quiserem e visitar o monte Grappa e percorrer os muitos trilhos que partem ou passam por Bassano del Grappa. Nós não o fizemos porque tínhamos outros planos para a viagem, mas é algo que vale a pena considerar.

O aeroporto internacional Marco Polo é o aeroporto que fica mais próximo. Nós apanhámos o autocarro para Venezia Mestre (a paragem que querem é em Venezia Mestre não Venezia St Lucia, que é a paragem na ilha de Veneza) e depois o comboio para Bassano del Grappa. O bilhete de comboio ficou-nos em 6.35 euros cada um e a viagem demorou cerca de 50 minutos. Já tinha falado em outros posts sobre Itália, que os comboios são o meio de transporte mais bem organizado e confiável que encontrámos nas nossas viagens, normalmente os comboios chegam e partem dentro dos horários e as ligações para os vários pontos do país decorrem com bastante frequência durante o dia. Tal como aconteceu entre Milão e Lago Como e entre Pompeia e Nápoles, também o comboio de Venezia Mestre para Bassano del Grappa chegou e partiu a horas. Há comboios a fazer esta ligação a cada meia hora. A companhia de comboios em Itália chama-se Trenitália e podem adquirir os bilhetes através da aplicação ou comprar nas estações de comboios, o que temos feito. Não temos marcado on-line porque muitas vezes não sabemos ao certo as horas em que vamos apanhar o comboio, mas se forem mais organizados será talvez a melhor das opções, e escusam de estar a ouvir repetidamente a voz monótona das máquinas a avisar-vos que podem ser roubados e para terem atenção às vossas malas, bolsos, etc.

Nós não marcámos a acomodação com muita antecedência e por isso os preços em alguns dos locais já eram proibitivos. Mesmo em Bassano del Grappa em finais de janeiro. Marcámos a nossa noite com a Bacaria Bed & Breakfast, já fora do centro de Bassano. Mas também assim nos ‘obrigou’ a explorar mais a cidade e a não nos cingirmos apenas ao centro. Os donos da Bacaria tem um restaurante que fica mesmo em frente à acomodação, chamado de Bacaria da Dante, onde se toma o pequeno-almoço. O quarto era simples, limpo e numa zona super calma.

O pequeno-almoço do dia seguinte foi também simples, mas chegou para o que queríamos (nada vai bater o pequeno-almoço que tivemos em Pompeia). O pequeno-almoço incluiu café, chá, sumos, uma seleção de cereais e um croissant a cada um. Da minha experiência em Itália normalmente os croissants são muito doces e assim se tem logo pela manhã o chamado de sugar rush. Como agora é habitual em qualquer cidade que se visite é preciso pagar taxa da cidade (city tax). O quarto ficou-nos por volta de 90 euros, já com a tal taxa incluída. Aqui faço só o aviso que esta taxa, de valor diferente dependendo da cidade, é normalmente cobrada na altura da estadia. O conselho que tenho para vos dar é que tenham dinheiro para pagar esta taxa, pois por vezes o local não aceita pagamentos com cartão.


Chegámos a Bassano del Grappa quase às 8 da noite e por isso chegar e não chegar ao nosso quarto já eram quase 9 horas. Infelizmente na Bacaria da Dante (o restaurante) deixam de servir comida a partir das 9 e assim este local ficou fora de questão. Depois de uma pesquisa rápida de restaurantes abertos àquela hora fomos parar à Pizzeria Salernitana. E ainda bem que o fizemos…foi uma das melhores refeições da viagem, pelos preços e pela comida. Cada pizza ficou-nos a cerca de 6 euros, o que não é comparado com os preços nas cidades mais conhecidas, e as pizzas foram das melhores que já comemos em Itália.


Depois da refeição fomos explorar o centro de Bassano. O ponto mais alto, e o mais conhecido, é a Ponte Vecchio (Ponte degli Alpini) e a maravilhosa vista sobre as montanhas, o rio Brenta e a arquitetura da cidade. O mais incrível é que a vista não tem pessoas, uma paisagem aberta para adoradores e até não adoradores da natureza. A ponte feita de madeira já foi destruída e construída múltiplas vezes, algumas destruída devido a cheias, outras por mão humana e isto desde 1124! Em 1567, Andrea Palladio, um famoso arquiteto da época construiu a ponte tal como ela hoje se apresenta. Apesar de ter sido destruída e construída depois de 1567 foi sempre reconstruída seguindo a arquitetura original de Andrea. O seu nome ‘degli Alpini’ é uma homenagem aos Alpini, as tropas da montanha, que em 1948 reconstruiram esta ponte depois de ser destruída por uma bomba durante a segunda guerra mundial. As últimas obras de restauração aconteceram em 2021.

Depois da visita à ponte, passámos pela estátua que mencionei acima, a do escultor Severino Morlin, seguindo pelo centro histórico onde alguns cafés ainda cheios espalhavam música e animação pelas ruas. Durante este passeio e quando saímos da parte histórica não vimos quase ninguém até chegarmos à Bacaria Bed & Breakfast mas a sensação que tivemos foi a de segurança (às vezes ignorância tem as suas vantagens) mas pareceu-nos que Bassano é uma cidade pacata.


No dia seguinte levantamo-nos bastante cedo para poder visitar a cidade durante o dia antes de avançarmos com a nossa viagem. A nossa ideia era apanhar o comboio em Bassano por volta das 3-4 da tarde para a segunda cidade da lista. Assim tomámos o nosso pequeno-almoço, deixámos as malas na Bacaria, que nos deixou à vontade mesmo depois de termos feito o check-out para deixar as malas na acomodação sem ter nenhum valor acrescido.

Esta foi uma viagem de low budget, ou o mais possível, e por isso só fomos visitar os locais com entrada gratuita. Começámos pelo Tempio Ossario, um edifício pelo qual passámos várias vezes e qual imponência não passa despercebida a ninguém. A igreja foi concebida como catedral em 1934 mas tornou-se um ossário dos militares que morreram durante a primeira guerra mundial. A parte de cima, a igreja em si, contém uma exposição sobre a primeira guerra mundial e o papel do exército italiano, formando uma homenagem significativa àqueles que lutaram pelo país. A visita é gratuita, mas tem um significado cultura enorme como podem imaginar.

Em seguida passámos pela ponte nova a chamada de Ponte della Vittoria para uma paisagem que ainda achei melhor do que da ponte velha. É que aliás da ponte nova tem-se a paisagem das montanhas incluindo a ponte velha (vejam a primeira fotografia deste post). Fizemos o percurso junto ao rio entre as duas pontes até chegarmos ao centro histórico de Bassano.

Uma das margens do rio Brenta

Depois de mais umas fotografias tiradas da ponte velha, fomos para o Poli Museo della Grappa, um museu também ele de entrada gratuita, onde se dá a conhecer a história da Grappa, como ela é produzida, e as várias variedades que existem. Este museu, tal como o nome indica, é específica para a marca Poli Grappa que produz esta bebida desde 1898. A Grappa faz parte da cultura italiana, aliás não só apreciada nos tempos modernos mas já no Renascimento altura em que era usada para efeitos terapêuticos, quando a grappa era chamada de ‘água da vida’.

Se pedirem podem fazer uma degustação de grappa, eu ainda antes da viagem li no site oficial que a degustação custava 3,5 euros por 5 diferentes tipos de grappa, mas nós experimentámos duas e não nos foi cobrado nada. Provámos a grappa com sabor a mel e com sabor a mirtilos. A de mirtilos ficou a ganhar e agora olhando para trás devíamos ter arranjado um espacinho para trazer umas garrafinhas. Se virem Poli Grappa à venda em Portugal não deixem de escrever um comentário neste post.

Para passarmos o resto do nosso tempo fomos passeando pelas ruas de Bassano, primeiro pelo castelo, o castelo degli Ezzelini, que agora é basicamente as suas muralhas, pela piazza Garibaldi ao pé da torre cívica e pela piazza Libertà, que marca o centro de Bassano. No final fomos ao jardim (Giardino) Parolini e ainda à livraria Palazzo Roberti, uma das livrarias mais bonitas onde já entrei. Na livraria há um salão para eventos e palestras, onde nas paredes se encontram vários frescos, mas é preciso pedir para puder entrar na sala. Não pedimos mais por vergonha, mas mesmo assim valeu a pena passear pelas várias salas desta livraria.


Quisemos almoçar antes de deixar Bassano e aproveitámos a oportunidade para experimentar a Bacaria da Dante onde comemos os nossos primeiros tramezzini, sanduíches tradicionais italianas feitas de pão branco sem côdea, recheadas e enroladas. Existem vários recheios com carne, peixe, legumes e ovos – cada tramezzino custa cerca de 1,5 a 3 euros, dependendo da loja que os vende e do recheio do tramezzino. Já não sei ao certo, mas acho que aqui cada um custava ou 2,5 ou 3 euros. Para acompanhar os tramezzini pedimos também um apperol spritz, o cocktail mais conhecido de Itália. Cada um custou 3 euros, o que foi um valor muito bom para a qualidade do cocktail.

Apperol spritz e tramezzini

Depois de um descanso a saborear a comida tradicional da zona de Veneto lá pegámos nas nossas malas e fomos de novo apanhar o comboio. Já agora nós fizemos o percurso a pé e ficou mais ou menos 30 minutos, mas também há a opção de apanhar um autocarro. Bassano del Grappa foi uma visita rápida, mas adorámos puder conhecer esta cidade, e de coração e estômagos cheios partimos para a nossa próxima paragem, Veneza.

Numa última nota sobre Bassano del Grappa:

Outros locais que talvez gostaria de ter visitado em Bassano, estes de entrada paga, seriam o museu cívico de Bassano e o museu Sturm. Mas como disse no início do post, se prolongarem a visita, não deixem de visitar o monte Grappa e percorrer um dos muitos trilhos da zona como por exemplo passear pelo Sentiero del Brenta.

Um taster dos North York Moors e um ‘até breve’ a York

O nosso terceiro dia a visitar o norte de Inglaterra, mais especificamente a zona de York, foi um bocadinho diferente. Deixámos a cidade, desviámo-nos para Este e fomos até North York Moors, um dos parques nacionais de Inglaterra. O parque é enorme, com uma área de 2.2 Km2, com imensos trilhos, onde se pode perder horas a andar sempre acompanhados por paisagens magníficas, vivendo uma experiência à volta da natureza. Como nós estávamos em York decidimos que não iríamos até à zona mais a norte do parque nacional, uma vez que a zona sul (a mais perto de York) ficava a uma hora de distância. E como era uma viagem de um dia só, não queríamos perder muito tempo útil dentro do carro. Ainda pensámos que visitar o Castle Howard seria uma boa opção, pois incluiria uma visita à casa e aos seus jardins, mas o castelo encontrava-se encerrado durante esta altura do ano, e foi assim que escolhemos o trilho circular de Rosadale.

Na verdade, agora procurando bem na net, acabo de me aperceber que fizemos um trilho diferente do que tínhamos planeado, fizemos o trilho em Rosadale mas acabámos por fazer um caminho mais longo que nos deu problemas, mas já lá vamos. Então o trilho circular de Rosadale é cerca de milha e meia (2.4Km) e demora mais ou menos 50 minutos a percorrer (figura em baixo à esquerda), mas nós fizemos o chamado de Rosadale Abbey, Blakey Ridge and Ironstone railway que percorre 16.4Km e que leva 4 horas e meia a percorrer (imagem em baixo à direita), o que foi mais ou menos o quanto levámos. Eu acho que o primeiro trilho também era pouco tempo, mas o segundo foi demais. Deixámos o carro perto Rosadale Abbey, num dia solarengo, numa rua onde não se pagava estacionamento. O primeiro problema foi que não sabíamos onde começava o trilho, porque surpresa das surpresas não tínhamos acesso à internet, sim, nem mesmo à de dados e. E o que somos hoje nós sem acesso ao Google Maps? Humanos perdidos à deriva!

Fomos ao salão de chá da pequena vila de Rosadale perguntar onde começava o trilho. A senhora lá nos deu as direções mas também perguntou ironicamente se eram aqueles os sapatos que íamos levar? Devíamos ter aqui suspeitado que o caminho não devia estar famoso. Mas com a mania que somos caminhantes fanáticos, seguimos as instruções e primeiro foi subir e subir e subir. Para agora, aqui sentada, descobrir que se tivéssemos feito o nosso trilho, o que tínhamos inicialmente planeado, tínhamos encontrado um parque de estacionamento no topo da subida e que não era preciso termos começado o trilho a suar como estivesse dentro de uma sauna. O que mais odeio é subir desalmadamente especialmente se desnecessário…se quiserem confirmação basta perguntarem ao meu marido como o meu humor fica depois de uma subida ou melhor quando ainda vou na subida. Mas lá finalmente descobrimos onde começava o ‘bom’ caminho onde ficava o primeiro ponto de interesse do trilho; as ruínas dos fornos de calcinação em Bank Top. Se calhar convém situar o valor histórico deste trilho.

Hoje em dia Rosadale oferece vistas deslumbrantes do vale, onde a natureza perdura e onde se encontra uma pequena e sossegada vila com a sua pequena Abadia, a Rosadale Abbey. No entanto, há 160 anos a história era outra. Há 160 anos devido à fervorosa ‘corrida ao ferro’ o ar ali seria descrito como uma mistura de fuligem e vapor. A mineração em Rosadale começou em 1856, com o minério a ser retirado das minas de Hollins e transportado por uma máquina a vapor até estes fornos por uma via férrea, em Bank Top (fotografia em baixo). Mais de 300.000 toneladas por ano de minério eram retiradas destas minas e depois processadas nos fornos gigantes. Em Bank Top encontravam-se também depósitos de carvão, as casas onde moravam os trabalhadores e um barracão para as máquinas. As minas foram abandonadas 29 anos depois quando as reservas de ferro nas minas se terem esgotado. E é aos ‘restos’ desta época que este trilho nos leva.

O que resta dos fornos em Bank Top

Depois de passarmos pelas ruínas continuámos em frente, agora num caminho sempre a direito e de bom pavimento. Era aqui que passava a antiga linha férrea, apesar de ser difícil imaginar o actual trilho com a linha férrea de há 160 anos. Outros sinais permanecem desta era como o Sheriff’s Pit que começou em 1857 como uma mina flutuante para fechar passado dois anos e reabrir em 1875 como um poço de mineração (fotografia em baixo à esquerda). Os restos do poço são acompanhados por um canto da casa do gerente da minha que resistiu ao tempo. Uma nota; a mineração começou em 1857, mas só em 1861 a linha férrea foi construída, sendo inicialmente feito o percurso entre as minas e os fornos com o recurso de animais, o que tornava o percurso muito longo e não rentável. Daí que Sheriff’s Pit abriu, fechou e reabriu depois da linha férrea já estar a ser usada por vários anos.

A diferença dos dois percursos, o nosso que queríamos fazer e o que fizemos, é que no mais curto a certa altura volta-se para trás para depois apanhar um caminho mais a norte que leva de volta ao parque de estacionamento de Chimney Bank (aquele que fica no cimo da montanha). No entanto, nós continuámos pela antiga linha férrea de Ferndale até descermos para apanhar o percurso de volta em direção a Rosadale Abbey mas agora pelo sopé da montanha. Foi um erro, não seria um erro se tivéssemos vindo no verão ou não tivesse chovido há tipo duas semanas, mas um dia de sol não foi o suficiente para secar o terreno. E quanto mais andávamos mais lama encontrávamos, e cada vez mais era preciso ter atenção aonde púnhamos os pés. E claro que passado uns metros já estava com os sapatos todos enlameados, já era mais lama do que sapato. É que já nem houve mais fotografias até quase ao final do percurso quando já estávamos a chegar ao carro. agora em estrada alcatroada. Como podem ver o sol estava a desaparecer e acreditem que a esta altura já só queríamos era chegar ao carro. Principalmente depois de passar por um bocado tão mau que tivemos de fazer de acrobatas e passar por cima de um muro rústico e, no mínimo instável, para não ficarmos atolados na lama. No final de tudo o nosso percurso ainda foi mais que os 16.4Km porque a certa altura depois de já estarmos em estrada alcatroada o percurso indicava de novo seguirmos em direcção à lama. Nem pensámos duas vezes, continuámos pela estrada. Podia ser mais longe mas pelo menos não haveria mais aventuras indesejadas.

Vejam só que tínhamos planeado sair dos North Moors por volta das 3 no máximo, para ainda irmos comer ao mercado das Shambles que fecha às 4 e meia, mas já chegámos a York por volta das 6 e tal. Basicamente uma das nossas típicas caminhadas!

Para jantar acabámos por ir ao Fat Hippo York, um local de hambúrgueres. Os preços são os normais da atualidade, onde se paga 13 libras por um hambúrguer. Eu gostei do meu, pedi o ‘Swiss Tony’ com bacon, cogumelos e cebola. O meu marido, no entanto, pediu o ‘Fat Hippo’ e achou-o muito gorduroso. Achamos que foram os aros de cebola que estando afogados em óleo estragaram o hambúrguer, mas também pelo nome não se podia esperar uma coisa saudável. O que foi a grande surpresa foram os acompanhamentos, os Tater Tots, eu tinha pedido as batatas fritas normais, mas devia ter ido para os Tater Tots como o meu marido.

Para acabar o dia e para não destoar acabámos por experimentar mais uns pubs e bares. Fomos primeiro ao Ye Old Shambles Tavern, que nos tinha sido aconselhado por locais, por terem uma boa seleção de cervejas não só locais, mas também internacionais. Não ficámos muito tempo porque havia uma atuação na parte exterior e o abrir e fechar constante das portas tinha feito descer consideralvemente a temperatura no seu interior.

Depois fomos a um local para cocktails, Evil Eye, onde há uma ennnnooooorrrrrmmmeeee seleção de cocktails, o difícil é mesmo escolher – é que tivemos mais de 10 minutos para escolhermos o que queríamos. O meu marido foi para um com absinto e depois admirou-se que era forte (rolar de olhos), enquanto eu fui para – eu acho que foi para o que se chama ‘Meet your maker‘ – mas para dizer a verdade eu estava indecisa entre tantos que já nem sei bem o que acabei por escolher. Eu podia ter experimentado uns 10 cocktails diferentes (mas na boa), no entanto a 10 libras cada tive de me conter e como ainda estava meio com frio do pub anterior pedi um Black Forest, um chocolate quente alcoólico que me fez muito feliz (é a velha dentro de mim a falar). No final, já se sabe, Valhalla, afinal era a nossa última noite em York. E claro que os hidroméis não faltaram na nossa mesa. No final da noite, demos uma voltinha rápida pela cidade até ao nosso hotel. A volta foi rapidíssima porque durante os dias que tivemos em York as temperaturas foram baixando rapidamente a cada dia que passava e na última noite já se faziam sentir temperaturas negativas.

Neste post vou também incluir as últimas horas em York já no dia seguinte. Depois do nosso terceiro pequeno-almoço inglês, fomos explorar a parte final das muralhas que acabámos por não fazer no sábado, depois da visita ao museu do castelo. Entrámos pelo portão, Bootham Bar, e não é que é desta secção das muralhas que se tem a paisagem mais bonita sobre York?

Depois de percorrida a última parte das muralhas que nos faltava, fomos andando sem destino pelas ruas da cidade, passeando pelo caminho junto ao rio, acabando por visitar a igreja de St Martin’s Le Grand. Tal como a igreja de St Olave, esta também se encontrava vazia até que numa certa zona ouviu-se uns baques…eu desta vez digo que eram ratos.


Para acabar a viagem fomos finalmente experimentar a comida do Shambles Market! Uma pequena, mas deliciosa food tour. E no momento em que experimentámos a comida soubemos logo ali que devíamos ter aproveitado e vindo aqui todos os dias! O mercado em si abre às 9 da manhã, mas o food court, os balcões de comida abrem pelas 11. Há várias escolhas e se fosse por nós tínhamos dobrado o volume do estômago para poder provar de tudo. Como não deu e também depois de termos comido um grande pequeno-almoço escolhemos dois sítios – primeiro o Ambrosia Greek Street Food York para um souvlaki; com pão super macio e mistura de carne com salada e molho tzatziki, completamente delicioso. Só foi mesmo por não haver mais espaço que não pedimos mais um, mas já tínhamos dividido este a meias para dar oportunidade a outras experiências culinárias. Um dos locais que queria ir, já um pouco desviado do mercado, mas ainda nas Shambles era a Shambles Kitchen para provar uma das sandes deles. Fui para a sandes de beef barbacoa chamada de ‘Guy Fawkes’ que se quiserem levam uma pequena vela, não sei como se chama, é daquelas velas que fazem faíscas quando se acende. Cada sandes ficou a 8 euros, o que é muito bom, especialmente comparado com a qualidade da comida.

Ficaram dois locais por experimentar, o NaNa noodles bar e o Smokehouse Burrito. Apesar de não saber quando voltarei a esta zona de Inglaterra (não é se, é uma questão de quando) já tenho uma lista de coisas para fazer. E a lista inclui também uma visita a Whitby, uma cidade costeira ao pé dos North York Moors, onde se diz encontrar o melhor fish and chips do país (o prato tradicional britânico de peixe frito com batatas fritas).

No mercado as mesas são ao ar livre, mas cobertas, no entanto, o frio era tanto que chegou a uma altura que nem conseguia sentir os dedos para agarrar na sandes. De forma a nos aquecermos antes de deixarmos esta cidade fantástica fomos então dizer adeus ao Cocoa Joe’s onde pedimos um chocolate quente com o chocolate negro da Tanzânia.

E assim fica a nossa primeira viagem de 2024 e a primeira visita a York. Já tenho dito, Inglaterra é muito mais que Londres, é um país de contrastes com aldeias, vilas e cidades onde se encontram os mais diversos tesourinhos escondidos. Se tiverem oportunidade de virem a York venham e sairão daqui de coração cheio.


Um dia intenso a explorar York (parte II)

York foi uma agradável surpresa. Talvez uma surpresa não seja a palavra certa uma vez que todos os que já tinham visitado a cidade me garantiram que a cidade era lindíssima e inesquecível. E a verdade é que os percebo, amor à primeira vista é uma expressão que se adequa bastante a York. Não é uma cidade enorme, mas o que tem para oferecer, oferece com todas as suas forças. Já tive oportunidade de explorar algumas cidades no Reino Unido, não apenas em Inglaterra mas também na Escócia e Irlanda do Norte. Só está a faltar o País de Gales. Para breve, meus caros. Isto para dizer que York está no top três!

Um fim-de-semana é suficiente para conhecer York ou pelo menos os pontos mais turísticos, mas é uma cidade que vai connosco quando partimos. Na primeira parte do dia tínhamos visitado os Museum Gardens, onde se encontram as ruínas de um mosteiro, de um hospital, o museu de Yorkshire e mesmo lado a igreja de St Olave, o padroeiro da Noruega, numa homenagem à ancestralidade Viking de York. Passámos depois pela bonita catedral, a York Minster e acabámos a passear pelas muralhas da cidade, ou aquilo que restam delas.

Clifford’s Tower

Quando passávamos pela parte sul das muralhas, depois de entrar no portão Walmgate, conhecido por ‘Bar’ Walmgate, e vimos o castelo, decidimos descer aqui e depois mais tarde visitar o resto das muralhas. Até porque a ideia era visitar dois locais, o York Castle Museum e a Clifford’s Tower, que ficam ao lado um do outro. Acabámos por não visitar a torre, tirámos só a fotografia ao seu exterior. O ponto alto de subir à torre é a vista sobre a cidade, mas não achámos que valia a pena, principalmente depois de andarmos pelas muralhas de onde a vista é diversa e abrangente sobre a cidade de York. Para subir à torre é preciso comprar um bilhete de 8.50 libras. Esta torre teve vários propósitos e foi palco de vários cenários, mas talvez o mais conhecido, ou o mais trágico, foi o de 1190 quando ocorreu um massacre anti-semita contra os judeus. Durante o século XII havia-se criado um clima de tensão entre cristãos e judeus, agravado pelo facto de muitas pessoas se terem endividado com agiotas judeus e devido a uma propaganda disseminada contra muçulmanos e judeus. Quando o rei Richard I foi coroado, espalharam-se rapidamente rumores, falsos que se diga, que o rei tinha ordenado morte aos judeus. Em York em 1190 a comunidade judaica foi sitiada e atacada. Cerca de 150 judeus procuraram proteção na torre Clifford. Infelizmente os judeus ao perceberam que estavam encurralados dentro da torre, procederam a um suicídio em massa. No final, antes de se mataram, os judeus atearam fogo à torre. Há relatos que alguns judeus que não participaram no suicídio ao saírem da torre foram imediatamente assassinados. Em 1978 na base do monte foi colocada uma placa para lembrar este acontecimento.

York Castle Museum

Não indo à torre fomos ao museu do castelo (York Castle museum), um dos locais que queria mesmo visitar, depois de ler que aqui existe uma representação de uma rua de York na época vitoriana. A entrada para o castelo é paga, 16 libras por pessoa se comprarem os bilhetes no local, ou 14.50 libras se comprarem o bilhete on-line. O museu está dividido em duas partes, a rua vitoriana e a parte mais tradicional de museu com coleções sobre a primeira guerra mundial e sobre os anos 60. O bilhete também dá acesso às celas da prisão do castelo que estiveram ativas durante o século XVIII. Nesta exibição aprende-se como era a vida na prisão e alguns dos seus mais famosos ‘residentes’ de forma mais interativa do que o tradicional. Gostei imenso de visitar o museu, sendo que o ponto mais marcante foi a rua vitoriana, onde até o cheiro (a urina) característico da altura estava retratado. A recriação da rua vitoriana é uma das mais antigas do mundo e representando o período histórico entre 1870 e 1901. Pela rua encontram-se várias lojas como de doces, de roupa e sapatos, a farmácia, todas elas com nomes de lojas que existiam na época em York. A retratação da rua é uma experiência que nos leva para outros tempos. Não é de espantar que esta rua seja um dos pontos que atraem mais visitantes à cidade de York. Deixei um vídeo da rua vitoriana no final do post, para terem uma ideia de como é a visita.

Cocoa Joe’s

Depois do museu precisávamos de descanso, estávamos a andar sem parar desde manhã e com o sol a pôr-se também se começava a sentir o frio. E nada melhor para combater o frio do que um chocolate quente. Foi assim que nos vimos no Cocoa Joe’s, um dos locais especializado em chocolates de todo o mundo. O difícil é escolher que chocolate é que vão escolher. Nós estávamos meio perdidos no menu, mas o empregado ajudou-nos a fazer as nossas escolhas. E acreditem que aqui não há lugar para chocolate em pó, o chocolate quente e as bebidas frias com base de chocolate são feitas a partir de bocados de chocolate, os chamados buttons (butões). Primeiro escolhe-se o chocolate, este branco, preto ou de leite e entre cada secção a percentagem de cacau e sabor que gostavam de experimentar. Depois pode-se escolher entre outros sabores como avelã, framboesa, etc. Nós na primeira vez, sim porque viemos cá outra vez antes de deixarmos York, escolhemos o chocolate da Colômbia, com 46% cacau, o meu com chantilly e marshmallows em cima, o do meu marido misturado com avelã. Na segunda vez, já no último dia, quisemos experimentar o chocolate negro e acabámos por experimentar o chocolate da Tanzânia com 75% cacau. Ficou a vontade de experimentar o chocolate de Madagáscar com uma surpreendente percentagem de 100% cacau. Talvez para a próxima vez. No Cocoa Joe’s também vendem os botões de chocolate para que se possa fazer o chocolate quente em casa, um miminho para os dias frios de Inverno.

Shambles

Depois de mais quentes e aconchegados, atacámos o frio e fomos passear pelas Shambles. As Shambles é um dos locais mais conhecidos da cidade de York, uma das ruas comerciais da era medieval mais bem preservadas em toda a Europa. Acredita-se que as Shambles foram a inspiração para o Diagon Alley nos filmes de Harry Potter. Nas Shambles ainda se podem encontrar vestígios dos tempos medievais tais como os ganchos para pendurar a carne para venda por cima das portas de algumas lojas. Atualmente existem imensas lojinhas de doces, de vestuário, de poções (sim, poções), sendo as mais famosas, a loja do Harry Potter e o The York Ghost Merchant’s. E isso vê-se pelas grandes filas à espera para entrar nestas duas lojas, chegando a demorar horas em certas alturas do ano. Como havia imensa gente pelas ruazinhas estreitas, acabámos por dar um volta rápida, antes de irmos para o quarto, arranjarmo-nos para jantar.

The House of Trembling Madness

E acabámos por ir jantar ao mesmo local da noite anterior, The House of Trembling Madness. Para o jantar houve várias discussões, se íamos a outro sítio para comer ou acabar no mesmo. Eu queria experimentar a Yorkshire pie, a famosa tarte de York. Tivemos indecisos entre dois restaurantes, mas depois da boa experiência do dia anterior, acabámos por ir ao mesmo bar. Como disse num primeiro post sobre York, este local não aceita reservas e o bar estava bastante mais cheio do que na noite anterior. Ainda estivemos para desistir, apenas beber qualquer coisa e ir a outro restaurante, quando uma mesa ficou disponível. E assim acabámos por experimentar aqui as tais pies. O prato pode não parecer o mais apetitoso visualmente, mas de sabor era delicioso. Não sei como teria sido a nossa experiência se tivéssemos ido ao outro restaurante, mas tal como a noite anterior, a comida era muito boa. E grandes porções pelo preço. Acabámos também por experimentar mais umas cervejas, já que ali estávamos. Mas nenhuma bate a primeira que experimentei, a chocolate fudge brownie stout – se aqui vierem e se estiver no menu, não percam a oportunidade de a experimentar

Pivní York

Durante a noite quisemos experimentar outro pub, também este bastante recomendado, o Pivní York, onde existe uma boa seleção internacional de cervejas. Houve uma que quis experimentar, uma cerveja preta com sabor a profiteroles – Choco Profiterole French Vanilla Oat Cream Stout era o seu nome, mas mudei de ideias quando quem nos atendeu nos disse que cada pinta custava 10 libra. Assim não experimentei essa, mas uma mais em conta. Vou só aqui agradecer a quem nos atendeu e nos alertou para o preço. Tenho a certeza que já tiveram problemas e por isso o fizeram. Fiz agora uma rápida pesquisa na internet e consegue-se comprar esta cerveja online por um preço mais baixo, no entanto todos os sites a que fui (para aí uns cinco) esta cerveja em particular está esgotada. Agora ainda estou mais curiosa…se alguém já a tiver experimentado ou for experimentar que me diga se vale a pena voltar a York ou procurar por aqui um sítio que a venda!

O pub tem 3 andares, por isso não fiquem desapontados se quando chegarem o pub parecer cheíssimo. Nós tivemos de ir para o terceiro andar e acabámos numa mesa com dois locais que nos disseram o quanto é bom viver na zona e para deixarmos Londres, que as pessoas aqui são mais simpáticas, preços mais baratos e melhor qualidade de vida. Até podiam ter razão, mas também estavam de tal forma que acredito que na manhã seguinte nem se devam ter lembrado desta conversa, mesmo que quisessem.

Valhalla

Para acabar a noite fomos para Valhalla, que fica mesmo em frente ao Pivní York, por isso foi sair de um bar e entrar logo de seguida no outro. Como também aqui estava mais abarrotado do que na noite anterior fomos para o segundo andar. Penso que no total também sejam 3 andares. Para alguns talvez a decoração não seja a gosto, com os seus crânios de animais alinhados numa das paredes. Mas tudo vale para dar um ar mais ‘Viking’ ao espaço. Ainda não nos tínhamos sentado e já sabíamos o que queríamos – hidromel. Acho que foi durante esta noite que experimentámos a maior parte dos sabores – ficando a ganhar o hidromel de saber a ruibarbo. Mais uma noite acabada em Valhalla, o paraíso dos Vikings, no meio de uma cidade pitoresca e com uma cultura incrível, York.

Nos próximos ‘episódios’ vamos para um dos trilhos nos North York Moors, com uma aventura de lama e de subidas de muros, para a comida fantástica no mercado das Shambles e mais locais para beber. Próxima semana à mesma hora (mais coisa menos coisa).

Agora fica aqui o pequeno vídeo:

A rua vitoriana onde sons, cheiros e lojas não são reais, mas podiam ser

Um dia intenso a explorar York (parte 1)

Sábado foi o dia para explorar a cidade em pleno. É aquele dia numa viagem que vale tudo ou nada, um dia para conhecer uma cidade, para juntar mil e uma experiências numa caixa que tem menos de 24 horas. É sempre muita pressão para apenas um dia. Será que esse dia quando nasce sabe a pressão que se espera dele? Ou isso não acontece convosco? Planificarem uma viagem, imaginarem como vai ser e depois chega o dia e as expectativas para aquele dia, para aquela viagem, são tantas que já passam o impossível, onde já nem o perfeito é suficiente. Pelo menos é assim comigo, mas estou a trabalhar nisso, a dar tempo à agenda para as coisas correrem mal, para dar lugar e aceitação quando acontece o inesperado. Um trabalho em progresso.

E o frio naquele dia em York não impediu as pessoas de saírem à rua. Em Inglaterra é sempre assim quando está frio, mas o sol espreita, já que o sol não aparece assim tanta vez, especialmente durante o Inverno. Depois de tomarmos o pequeno-almoço que incluiu uma luta de faca e garfo com o bacon (vejam post anterior) lá saímos bem agasalhados e prontos para andar. A cidade de York não é muito grande, especialmente a zona centro que fica dentro das muralhas, um dos locais explorados mais tarde.

Um dos primeiros locais a que fomos foram as ruínas da abadia de Santa Maria (St Mary’s Abbey) que ficam nos chamados jardins do museu (Museum Gardens). A abadia foi construída em 1088 e a sua história está ligada a dois eventos importantes para Inglaterra; começou com o William the Conqueror (o conquistador) a reforçar o seu domínio sobre o norte e terminou com Henry VIII e a sua influência na Reforma da Igreja, cuja história podem encontrar na página deste blog Hampton Court Palace. Lá podem encontrar o como e porquê da formação da igreja Anglicana (não esperem nenhum romance, apenas um inglês bruto, gordo e com mania). Antes da dissolução da igreja cristã St Mary’s Abbey fazia parte de um dos mais ricos e poderosos mosteiros beneditinos de Inglaterra, onde vivam vários monges que se dedicavam a tarefas diversas desde à administração do mosteiro, a criar e manter relações com comerciantes até à cópia de livros. As paredes de pedra que rodeavam a abadia foram construídas em 1260 e continuam hoje a ser a parte mais resistente do complexo. As ruínas atuais já não suportam um edifício interior mas mesmo assim representam um ponto de relevo na história cultural de York.

Ainda antes de virmos até as estas ruínas entrámos numa igreja, a igreja de St Olave. A porta da igreja estava aberta, mas completamente vazia, ou assim pensámos. Digamos que tivemos uma experiência meio bizarra no seu interior, talvez sugeridos pela fama da cidade, mas a verdade é que ouvimos passos, primeiro devagar como se a andar, seguidos por passos de corrida. E ninguém estava naquele momento a percorrer os corredores da igreja. Nunca saberemos o que aquilo foi, mas nunca se sabe, se calhar a fama de York tem alguma razão de ser.

A igreja de St Olave foi construída em 1055 em homenagem ao santo padroeiro da Noruega (a ancestralidade Viking a deixar a sua marca na cidade). A igreja foi reconstruída no século XV e ainda nos dias de hoje mantem a sua aparência exterior da de um castelo, com a sua torre quadrada ao centro a erguer-se mais alto do que que as torres dos cantos. Há uma história de fantasmas ligada a esta igreja, apesar de não refletir a nossa experiência. Conta-se que se vêem sentados ao fundo da igreja uma mulher e um menino ambos vestidos de preto. Não foi o que vimos, aliás não vimos nada, no entanto: ‘Será que foi este o menino que ouvimos a correr pelos corredores?? Parece-me que nunca saberemos (e ainda bem, que eu gostava de conseguir dormir nos próximos 20 anos).

Nos Museum Gardens encontra-se o museu de Yorkshire cujo bilhete de entrada custa 8 euros. Como decidimos organizar esta viagem de maneira a ficar de baixo budget apenas pagámos para visitar os lugares que não queríamos mesmo perder, e mesmo assim houve algumas dúvidas em relação à catedral, a York Minster, que é o edifício principal da cidade. E foi mesmo este o nosso ponto seguinte de visita, depois de decidirmos não visitar o museu. Ainda antes passámos pelas ruínas do hospital medieval St Leonard’s, ainda no Museum Gardens. Este hospital foi na sua altura o maior hospital do norte de Inglaterra. Este hospital tinha uma ligação forte com a catedral e por isso também sofreu com a reforma da igreja acabando por fechar e deixar York sem hospital até 1740.

Agora sobre a catedral, a York Minster, o que tenho primeiro a dizer é que o bilhete é um bocado caro, custando 18 libras por pessoa. É que doi a alma dar esse dinheiro para visitar o que no fundo é uma igreja (e assim tenho uma multidão de homens de Yorkshire a vir em debanda do Norte com tochas na mão, com tal heresia!). Ou não que isto está em português para além que o Google tradutor não é muito bom. É verdade que o bilhete é válido por 12 meses e pode-se visitar a catedral as vezes que se quiser durante esse período, mas a não ser alguém que more ali perto e seja fanático por vitrais ou santos, quem é que vai visitar a catedral milhares de vezes num ano? Só se for para fazer valer o preço do bilhete. Com muita relutância lá demos as 18 libras cada um e entrámos. Agora era a altura de dizer que a nossa reação foi meio à americano e que mal entrámos exclamámos ‘Uau, mas que catedral’ ‘Oh my God, look at that!’ – enquanto rodopiávamos sobre nós mesmo. Mas não, não foi de todo o que aconteceu. É uma igreja grande dou-lhe isso, mas não vale as 18 libras (e isto vai fica aqui a remoer, talvez só com a venda dos bilhetes no ebay isto passe).

Se formos a olhar para o início da história da catedral teremos de voltar a 627 quando rei Edwin se casou com a princesa cristã, Ethelburga. O rei voltando-se para a religião da mulher foi baptizado numa pequena igreja de madeira (e onde era essa igreja de madeira? Onde? Exactamente onde hoje fica a catedral! Bolas, que reviravolta!

Julga-se que por volta de 633 (ou melhor os historiadores julgam) que neste mesmo local construiu-se uma igreja de pedra para substituir a de madeira onde o rei tinha sido baptizado. O rei depois de morrer em batalha foi enterrado nesta igreja de pedra. Passando rapidamente para o ano de 1080, uma nova catedral foi construída depois do edifício que aqui se encontrava ter ardido por completo. E desde 1154 a igreja tem-se expandido e demorou mais coisa menos coisa 250 anos até se tornar no edifício que é hoje. Mas esta catedral já passou por muito, não julguem que não, sofreu incêndios em 1753, 1829, 1840 e 1984. Na altura da primeira guerra mundial os vitrais foram retirados para segurança, o que também aconteceu durante a segunda guerra mundial quando 80 janelas foram retiradas também para proteção das mesmas. Entre 1967 e 1972 um grande projeto de conservação que custou uns meros 2 milhões de libras foi avante com o objetivo de reforçar as fundações da torre e reparar os danos nos trabalhados de pedra. E hoje ali está imponente, a levar 18 libras a quem a quer visitar – suponho que alguém tenha que pagar aqueles 2 milhões

Vamos lá ver, não me interpretem mal, mesmo que fosse a York agora ia na mesma visitar a York Minster que é um, senão o, ‘monumento’ principal da cidade e que faz parte de York. Por isso independente do preço de entrada a York Minster edeve ser visitada. E de qualquer das formas talvez o preço não seja assim tão exagerado pois com ele visitam a catedral, a cripta e o museu undercroft onde se encontram restos romanos, e descobertas arqueológicas encontradas ao longo dos séculos. Para aqueles que são residentes em York ou estudam em York a entrada é gratuita pois não nos esqueçamos que no fundo estamos a falar de uma igreja e como tal um local de reza e de prática à religião anglicana. Mas esqueçam os meus desabafos, a igreja é bonita, vale a pena visitá-la, pelos vitrais, pelos trabalhados e pelo seu peso na história da cidade. Podem também subir ao topo da torre mas existem vários avisos sobre esta subida uma vez que as escadas medievais são muito estreitas contando com 275 degraus que demoram mais ou menos 10 minutos a subir. Se também quiserem subir à torre o bilhete fica a 24 libras (é que nem sequer vou comentar).

Depois da visita à catedral, museu e cripta decidimos ir apanhar ar fresco e explorar as muralhas da cidade. Andar por todos os ‘segmentos’ das City Walls dar-vos-á diferentes perspetivas da cidade, algumas mais bonitas do que outras é verdade, mas todas merecem o nosso tempo. O caminho, pode-se este chamar de caminho circular mesmo não formando um círculo, compreende as muralhas medievais mais bem conservadas de Inglaterra. As muralhas de pedra foram construídas pelos Vikings nos séculos XIII e XIV substituindo assim as estacas de madeira que formavam antes uma muralha rústica. As muralhas originais de pedra incluíam 4 portões principais, também conhecidos como ‘Bars’ – Botham Bar, Monk Bar, Walmgate Bar e Micklegate Bar – e é através destes ‘bares’ que se entra para cada caminho na muralha, que ainda hoje têm condições seguras para se caminhar sobre elas, a menos que esteja mau tempo. Quando saem de cada ‘bocado’ de muralha encontram um mapa a indicar-vos o próximo local de entrada para o seguinte segmento até se completar o caminho à volta de York.

E acabo aqui a primeira parte deste dia do ‘tudo ou nada’. No próximo post vou incluir uma rua victoriana (cheiro e tudo), comida, bebida e um chocolate quente que nos levou a voltar ao sítio duas vezes antes de deixarmos a cidade.