Parque nacional de Durmitor (parte I)

Conteúdo desta página

  1. Chegada à segunda metade da viagem
  2. Primeiras impressões de Žabljak
  3. Apartamento Duke
  4. Restaurante O’ro
  5. Pequeno-almoço em Žabljak
  6. Crno Jezero ou Lago Negro
  7. O que mais no marcou em Durmitor
  8. Próximo post

Chegada à segunda metade da viagem

Nas últimas semanas tenho descrevido a primeira metade da nossa road trip em Montenegro, desde a chegada a Podgorica até ao mosteiro de Ostrog. Durante esses dias visitámos Perast, Kotor, Sveti Stefan, Budva, Stari Bar e muitos outros locais que adorámos ficar a conhecer. Vamos agora entrar na segunda metade da viagem que incluiu dois parques nacionais, Durmitor e Prokletije. Ao contrário dos primeiros dias que foram mais à volta da costa, nesta parte da viagem tivemos direito a paisagens montanhosas, trilhos em florestas e experiências rurais. Este post em particular vai ser sobre a nossa chegada a Žabljak, o apartamento onde ficámos, o restaurante onde jantámos e o primeiro trilho no parque nacional de Durmitor.

Primeiras impressões de Žabljak

Chegámos a Žabljak ao cair da tarde ainda com luz do dia suficiente para ficarmos com uma ideia da cidade. Žabljak é a cidade principal do parque nacional de Durmitor e com uma localização perfeita para os locais que queríamos visitar nos próximos dois dias. Do que vimos gostámos muito, uma cidade que é grande em tamanho, mas rural na sua essência.

Žabljak

A primeira coisa que reparámos foi no grande número de edifícios que estavam em construção principalmente agrupamentos de pequenos chalets de madeira. Devido ao aumento do interesse turístico que está a crescer a cada ano em Montenegro, Žabljak prepara-se para receber mais visitantes.

Apartamento Duke

A primeira paragem foi no apartamento que tínhamos alugado para duas noites, o apartamento Duke que ficava bastante perto da estrada principal, de restaurantes e supermercados. E também bastante perto do lago negro (Crno Jezero) que era o local que iríamos visitar no dia seguinte de manhã. Não foi muito difícil de descobrir o apartamento, o piso inferior de uma vivenda com parque de estacionamento mesmo à entrada. Fomos recebidos pela mãe da dona do apartamento que foi supersimpática, mas não falava inglês. Ainda tentámos comunicar-nos usando o google tradutor, mas a senhora acabou por ligar à filha quando perguntámos sobre o city tax que ainda tínhamos de pagar. Ao telefone foi-nos explicado o processo do check-in e check-out e disponibilizou-nos o número para a contactarmos para aquilo que fosse preciso. Quanto ao apartamento, foi sem dúvida o meu preferido. Bastante acolhedor e acima de tudo com lareira. Basta uma lareira para ficar perdida de amores. A mãe da dona do apartamento tinha-nos deixado a lareira acesa e explicou-nos por linguagem gestual (a linguagem internacional) onde podíamos ir buscar mais lenha. E este conselho tinha razão de ser porque a temperatura em Durmitor nada tinha a ver com a de Perast. Aqui sim estava frio com temperaturas negative durante a noite. Para além da lareira também ligamos o aquecedor de parede que havia no nosso quarto para estarmos mais confortáveis quando fôssemos mais tarde para a cama.

Aproveitámos que tínhamos o número da dona do apartamento que, entretanto, tinha enviado mais instruções para lhe pedir sugestões de onde jantar. Foi-nos dito que muitos dos restaurantes fechavam durante a época baixa, e isso incluía novembro, mas que aconselhava o restaurante O’ro que estava aberto. E foi aí mesmo que fomos jantar. E mais, acabámos por voltar na noite seguinte, não por falta de escolha, mas por termos gostado bastante da refeição da primeira noite.

Para reservar ou obter mais informações sobre o apartamento Duke vejam a seguinte página do booking.com: Apartament Duke

Restaurante O’ro

O restaurante O’ro ficava na estrada principal a mais ou menos 10 minutos a pé do apartamento Duke. Durante a pequena caminhada ainda tivemos direito a ficar a conhecer um gato muito meigo que nos seguiu por uns minutos. Deitava-se no chão, esfregava-se nas nossas pernas, e nós claro que lhe demos festas. Quem conseguiria resistir? Depois dos dois dias em Durmitor sabemos agora que o mais provável é que o gato fosse abandonado, um dos grandes desgostos com que se fica em visitar não só de Durmitor, mas Montenegro em geral.

Chegámos pouco depois ao restaurante e felizmente àquela hora, seis e meia, havia várias mesas livres. O restaurante tinha um aspecto bastante acolhedor, aquele rústico chique, e o menu era exactamente o que procurávamos, focado em pratos tradicionais de Montenegro. Para entrada pedimos uma sopa, mais um caldo, eu de carne de veado o meu marido de vegetais. A única diferença entre as sopas era a adição da carne, que fez toda a diferença, pois a minha era muito mais saborosa. E na verdade, a sopa foi um dos melhores, senão o melhor, prato que experimentei neste restaurante.

Sopa de carne do restaurante Or’o

Pedimos dois pratos principais para dividir, o meu marido pediu a truta, um dos pratos de peixe mais tradicionais de Montenegro, que veio acompanhada por vegetais grelhados e salada. Para ele este foi o melhor prato de toda a viagem. Eu pedi Kačamak que era algo que eu queria muito experimentar. Este prato é um dos mais tradicionais de Montenegro e eu descrevê-lo-ia como uma espécie de puré espesso feito de farinha de milho, batatas, queijo e manteiga. Ou seja, tudo para ser um prato bastante pesado, mas delicioso especialmente para pessoas como eu que adoram queijo. Neste restaurante, como em muitos outros, o Kačamak leva algum tempo a ser cozinhado, tendo o menu neste restaurante um aviso de que demora 40 minutos. Como pedimos as entradas estávamos à vontade para esperar. E o que chegou à mesa foi uma dose enorme que dava bem para duas pessoas, acho que até para três. É realmente um prato para aqueles que procuram uma refeição substancial pois eu com 2/3 da dose já estava cheia. E apesar de ser uma pessoa que adora queijo chegou uma altura que já estava o estava a achar enjoativo. Não me interpretei mal pois adorei o sabor, mas este é daqueles pratos que para se gostar tem de se comer em moderação. Mas contudo fiquei feliz por ter tido a oportunidade de experimentar mais um dos pratos que tinha em mente para esta viagem.

Prato de truta do restaurante Or’o
Kačamak do restaurante Or’o

Depois das entradas e dos pratos principais (ainda bem que o prato de truta era bastante mais leve), já não havia espaço para sobremesa, o que deixámos para o jantar do dia seguinte. Como devem ter pressuposto nós gostámos imenso do restaurante, do ambiente, da comida, do serviço, para voltarmos no dia seguinte.

Ainda antes de irmos para casa fizemos uma breve paragem no supermercado em frente ao restaurante onde comprámos uma ou duas cervejas artesanais que bebemos em frente à lareira aconchegados no nosso apartamento.

Página oficial do restaurante O’ro: https://restaurantoro.me/

Pequeno-almoço em Žabljak

O sexto dia da road trip em Montenegro foi dedicado ao parque nacional de Durmitor. E começámos este dia bem cedo. Primeiro iríamos ao lago mais conhecido de Durmitor, o lago negro (Crno Jezero) mas ainda antes precisávamos de tomar o pequeno-almoço. Tínhamos reparado no dia anterior numa Pekara (padaria) que abria às 7 da manhã perto do supermercado.

Burek da Pekara em Žabljak

Quando chegámos à padaria ainda pensámos em comer numa das mesas, mas como não vendiam café comprámos os burek que tinham a forma de uma roda cortados em 4 fatias (tipo pizza) e trouxemo-los para o apartamento onde fizemos o mandatário café. Acabou por ser um dos melhores burek de Montenegro com um recheio de carne que sabia a pizza de fiambre ou de carne picada. Ainda bem que os bureks eram bons, já que a rapariga que nos atendeu não era muita dada a sorrisos. Não que tivesse sido rude, apenas carrancuda.

Esta é a morada da tal Pekara:  Njegoševa, Žabljak 84220, Montenegro

Crno Jezero ou Lago Negro

O dia tinha acordado com um céu azul, mas o frio fazia-se sentir e apesar de pudermos ter ido a pé até ao Crzno Jezero num passeio de meia hora decidimos levar o carro. Pensávamos que estávamos a ser espertos em deixar o carro num parque de estacionamento afastado do lago, mas ao chegarmos vimos que também aqui havia uma pequena cabana onde o guarda já lá estava a cobrar a entrada para o parque nacional, a qual nos custou 5 euros por pessoa. Vendo o lado positivo tivemos assim oportunidade de entrar dentro da floresta durante o caminho até ao lago.

Crno Jezero no parque nacional de Durmitor

E o lago àquela hora matinal (9 e meia) era como um espelho reflectindo a montanha de Durmitor nas suas águas azuis brilhantes. Por aquela altura não havia muitas pessoas por ali, apenas mais uma pessoa, contudo havia imensos cães abandonados. E quando digo imensos estou a falar de cerca de 15 a 20 cães alguns de grande porte. E pouco depois de chegarmos ouvimos vários cães a ladrar à distância e um homem a correr e a mandar pedras aos cães. No momento pareceu-nos que ele estava a defender-se dos cães que corriam e saltavam para cima dele (impressão que temos até hoje).

Quanto a nós, a ideia era percorrer o trilho circular à volta dos dois lagos que fazem parte do Crno Jezero (lago negro), o Veliko Jezero (grande lago) e o Malo Jezero (pequeno lago). Descobrimos o trilho e logo no início os cães vieram ter connosco, altura em que reparámos que os cães pertenciam a duas matilhas que se fixavam numa atitude pouca amistosa. Felizmente não se atacaram e a certa altura dispersaram enquanto avançávamos pelo trilho bem marcado. Acabámos por ser quase sempre acompanhados por um ou dois cães de uma das matilhas. A certa altura encontrámos uma pequena tira de terra que separava os dois lagos.

Lago Malo (pequeno) no Crno Jezero

Ainda tentámos seguir pelo trilho continuando pela margem do Malo Jezero mas pouco depois encontrámos um sinal de aviso a indicar que o caminho em frente era escorregadio com grande perigo de queda. Até o cão que vinha connosco começava a ganir sempre que fazíamos algum movimento de intenção de seguir em frente. Interpretámos o ganir como sinal para não seguirmos em frente e voltámos à tira de terra que ligava ambos os lagos para fazer um corta-mato e voltar a apanhar o trilho que seguiria até ao ponto onde tínhamos começado. Fizemos várias tentativas, mas não conseguimos encontrar o trilho. Numa destas tentativas já estávamos a caminhar por rochas que desciam a pique para dentro de água. Acabámos por desistir e regressar pelo mesmo caminho de onde tínhamos vindo, mas com um certo sentimento de frustração porque tínhamos a certeza de que havia um trilho que seguia pelo outro lado da margem, já que este trilho era supostamente circular.

Um dos cães que nos acompanhou no trilho à volta de Crno Jezero

É preciso notar que ao contrário de outros países onde já fizemos vários trilhos como nos Dolomitas ou em Inglaterra, e mesmo em Portugal, aqui não havia qualquer sinalização sobre os trilhos disponíveis na área ou placas com direcções.  

Em relação ao Lago Negro, este é o maior e mais profundo dos 18 lagos glaciais em Durmitor. O lago é alimentado por águas de inúmeros poços que fluem por um riacho, Otoka, e por rios subterrâneos. A água do lago grande, Veliko, segue para o Rio Tara, enquanto o do lago pequeno, Malo, para o rio Komarnica através de uma bifurcação subterrânea. 

Quando voltámos ao ponto de partida tentámos visitar um outro lago, o lago Barno. Como disse não havia nenhuma placa com direcções, mas reparámos num trilho que subia a colina e que parecia ir na direcção deste lago. Embrenhámo-nos por dentro da floresta até que chegámos a uma vedação que nos proibia seguir para onde supostamente queríamos ir. Estávamos por esta altura ao pé de uma pequena aldeia, Ivan Do, da qual já avistávamos umas casas. Foi aqui que aceitámos a derrota e voltámos para trás. Aproveitámos o passeio para tirar fotografias porque mesmo sem lago o interior da floresta merecia ser admirado.

E foi assim a nossa experiência um pouco falhada no Crno Jezero. Alguns podem chamá-la de frustrante, eu mesmo assim digo que valeu a pena vir aqui.

O que mais no marcou em Durmitor

Apesar da beleza deslumbrante do Crno Jezero o que mais nos marcou não foi algo de belo, bem pelo contrário. O que ainda não contei foi que quando estávamos a ir do carro para o lago houve um cão abandonado que veio ter connosco. Um cão a pedir festas, meio maluco, a saltar para cima de nós e a tentar morder-nos na brincadeira. Depois durante o percurso o cão acabou por desaparecer, mas quando estávamos a regressar ao carro voltou a aparecer e continuou a acompanhar-nos. Pois quando estávamos a entrar para o carro o cão começa a ganir, a saltar para o colo e a agarrar-nos nos braços com as patas. O cão estava a pedir para vir connosco, estava a pedir para lhe darmos um lar. E quando acabámos por ir embora o cão ali ficou de cauda caída. Posso dizer que desiludir uma pessoa é mau, mas desiludir um cão é muito, mas muito pior. E nós adoramos animais e sempre quisemos ter um cão. Termos a dádiva de sermos escolhidos por um cão para sermos a sua família e não podermos retribuir despedaçou-nos o coração. Foi um dos episódios que me fez vir no avião de volta para casa com lágrimas a correr-me pela cara. E mesmo agora sei que sempre me arrependerei de ter virado as costas, por mais razões lógicas que possa dizer, eu sei que é algo que nunca me perdoarei. E sim, não foi só este episódio que me traumatizou, mas foi aqui que começou. E é por isso que desde que voltei de Montenegro que todos os meses envio uma quantia a uma das organizações que ajudam animais abandonados em Montenegro: Stray Aid Montenegro.

Página no patreon da organização Stray Aid Montenegro para doações: https://www.patreon.com/c/strayaidmontenegro/posts

Próximo post

No próximo post vamos continuar o nosso dia por Durmitor focando-nos na rota cénica que atravessa o parque nacional. Foram 70km de inúmeras inacreditáveis paisagens, intensas experiências e inesquecíveis memórias.

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