Viajar em Itália em Novembro – Nápoles (1ª Parte)

Hoje vamos falar de Nápoles – que cidade! que vibe! que gente! que atmosfera!

Nápoles será para sempre uma das cidades que nos marcou, chocou no início mas com tempo passou a ser vista com outros olhos e com um enorme respeito. Talvez tenha sido das muitas explicações sobre as origens e a cultura da cidade que fomos ouvindo durante os dias que aqui estivemos, mas se foi então conseguiram o seu propósito, o de explicar e fazer da confusão aceitação daquilo que é hoje a cidade de Nápoles.

A nossa visita a Nápoles foi meia que desfasada, visitámos a cidade depois de virmos do Monte Vesúvio já à tarde e no dia seguinte enquanto esperávamos para saber se o ferry partia ou não para a ilha de Capri. Depois de voltarmos de Capri foi acabar o dia em Nápoles e aproveitar uma parte do dia seguinte, o último, antes do nosso voo para visitar o restante. Acho que conseguimos ver os pontos principais mesmo que no final pareça que tenhamos visitado a cidade só de passagem.


Primeiro dia em Nápoles

Apanhámos o comboio para Nápoles (estação Napoli Centrale) de Pompeia e chegámos no início da tarde à cidade. Primeiro quisemos ir meter a tralha que trazíamos às costas no local onde tínhamos marcado a nossa primeira noite, o B&B FReBI’s Home. Enquanto andávamos em direcção à morada pretendida, Via Casanova, tivemos as primeiras impressões da cidade. E foi do tipo, ‘Mas onde é que viemos parar?!’. As ruas cheias de lixo, os prédios com mais aspecto de estarem prontos para a demolição do que parar albergar alguém e a confusão de trânsito, foi o choque total. Estávamos mesmo em Nápoles? O que se tinha ali passado? Tinha a cidade acabado de sair de uma guerra?

Aparentemente esta zona à volta da estação Napoli Centrale é uma das zonas menos seguras da cidade e onde a pobreza é mais evidente. E sim estas foram as nossas primeiras impressões, mas não melhoraram muito quando chegámos ao prédio do B&B. Subimos as escadas até ao último andar, um prédio a precisar de sérias remodelações. O proprietário tinha mandado já instruções por mail de como abrir a caixa-cofre onde estavam as chaves tanto para abrir a porta do prédio como a do apartamento. Encontraríamos a chave do quarto na porta deste. Já conhecíamos este tipo de sistema em que as chaves são colocadas num ‘cofre’ que fica na parede ao lado da porta do apartamento e o código é mudado ou todos os dias ou com regularidade suficiente para que os antigos hóspedes não possam reentrar no apartamento. O apartamento tinha sido renovado e o nosso quarto era de tamanho razoável, limpo e com as condições necessárias. Não reflectia de todo as instalações do prédio. Mal posámos as nossas malas fomos para o coração da cidade. Ainda não tínhamos saído da Via Casanova e já tínhamos reparado no barulho…em cada segundo havia pelos três a quatro buzinadelas das várias scootters, carros e carrinhas. Os condutores naquela cidade nunca devem ter as duas mãos no volante, mas NUNCA. Imagino na aula de condução em Nápoles o instrutor a dizer ‘colocas uma mão no volante e outra em cima da buzina e vais carregando a cada 5 segundos’. E isto acontece em qualquer ponto da cidade. É um barulho contínuo. E nas ruas estreitas da parte histórica por exemplo na Via dei Tribunali aprende-se a ser assertivo…é que não interessa se uma scootter vem em direcção a ti, tens de te meter à frente, seguir e nunca parar. O erro é parar. Há ali um acordo entre scootters e pedestres em que ambos circulam ao mesmo tempo e cada um se desvia apenas o suficiente para não ir parar com o focinho ao chão.

Porta Capuana (lado direto) e igreja de Santa Caterina a Formiello (edifício frontal)

É que até para o carro da polícia apitam! Na Via Casanova o carro da polícia não estava a circular o rápido o suficiente (aparentemente) e foi uma cacofonia imediata de várias buzinas. Ficámos logo ali avisados, se apitam assim para os carros da polícia é porque ninguém está livre da ira dos condutores. O primeiro sítio que queríamos visitar chamava-se Napoli Sotterranea – ou em português, Nápoles subterrânea. Não tínhamos bilhetes pré-marcados, mas mesmo assim entrámos na tour seguinte. No entanto, acho que os bilhetes comprados com antecedência são mais baratos. Para visitar é obrigatório a presença de um guia e compreende-se pois há túneis e zonas que ainda não foram explorados e são de acesso negado ao visitante. E já se sabe se não há controlo é exactamente para aí que as pessoas se vão meter. Não é uma crítica, simplesmente uma característica inerente ao ser humano.

Adorei a tour, no início estava com algum receio pois há uma parte da visita em que o túnel estreita bastante e é necessário primeiro agachar e depois andar de lado (tipo egípcio). Também é preciso lanterna, o que actualmente qualquer telemóvel tem. Mas mesmo sendo claustrofóbica não foi assim muito mau, a parte agachada é por uma questão de segundos e mesmo tendo de andar de lado o tecto é imensamente alto e isso ajuda imenso.

Este foi um dos pontos altos da viagem, o nosso guia era estudante de arqueologia e começou por explicar a origem daqueles túneis, como antes se encontrava ali lençóis de água e para aceder à água tinham-se aberto vários poços à superfície da cidade. Também explicou os problemas de saneamento numa altura em a água foi contaminada por fezes. Também que houve homens que vinham limpar os túneis e aproveitavam para assaltar as casas privadas entrando através destes tais poços. Que ainda hoje há casas na cidade que são de difícil venda porque se dizem ‘assombradas’ devido às visitas destes homens a quem as pessoas davam à sua presença um significado sobrenatural uma vez que desapareciam de repente (através dos poços). Incrível como a fama se prolongou ao longo do tempo. Também nos foi explicado que aqueles túneis, quando já sem água, se tornaram numa lixeira. No entanto, na segunda guerra mundial para servirem de bunkers todo o lixo foi removido. Há muito mais que é explicado durante a tour e foi aqui que entrámos chocados com o que tínhamos visto de Nápoles e saímos com um novo respeito pela cidade. Basicamente a cidade foi sendo construída por cima da cidade que antes ali se encontrava. As casas de hoje estão em cima de ruínas da cidade romana e da cidade que foi construída depois da cidade romana. A tour também inclui visita a uma casa onde a actual cave era antigamente parte de um teatro romano. Compra-se uma casa e ganha-se 3! Ou pelo menos ruínas de 2 e talvez um fantasma.

Símbolo do papel que túneis tiveram na segunda guerra mundial

Achámos isto incrível e não quero deixar de reforçar que a nossa ideia sobre a cidade mudou imenso. Aconselho mesmo a não perderem esta tour. Em seguida fomos à catedral (Duomo di Napoli) e é uma das igrejas mais bonitas que já tive o prazer de visitar. Os frescos são espetaculares – as fotografias não lhe fazem justiça. A construção deste edifício sagrado iniciou-se no século XIII e hoje tem o nome oficial de catedral metropolitana de Santa Maria Assunta.

Esta catedral tem três naves com duas capelas laterais, a basílica di Santa Restitua e a Capella di San Gennaro. A entrada é gratuita, sendo apenas paga a entrada para o museu do tesouro de San Gennaro. Também é possível visitar a cripta onde no tecto se encontram trabalhados incríveis.

Depois destes dois fantásticos locais fomos ao Aperol Spritz, uma bebida muito apreciada em Itália e em Nápoles os preços eram mais apetecíveis como por exemplo 2 a 2,5 euros o copo. Um pouco por toda a parte da cidade encontram esta bebida.

Para continuar na prova da cozinha italiana quisemos experimentar um dos bolos mais conhecidos, a sfogliatella. Antes de irmos jantar quisemos ir ainda ao hotel e passámos por uma pastelaria que nos chamou a atenção chamada de Sorella (Antica Pasticceria Sorella dal 1920), onde escolhemos uma sfogliatella de pistacchio e ainda um bolo de tiramisu. De caixa na mão fomos para o quarto. Podíamos ter ficado na pastelaria, mas quisemos carregar os telemóveis e encontrar um local para jantar. Gostei bastante da sfogliatella com a sua casquinha crocante, mas mais ainda do bolo tiramisu.

Para jantar fomos outra vez para o centro histórico de Nápoles. Depois de um grande debate, decidimos experimentar um dos restaurantes mais conhecidos da cidade, o Gino Sorbillo. E era essa a intenção, mas afinal acabámos num restaurante com o mesmo nome ‘Sorbillo’ mas Antonio Sorbillo. É ‘engraçado’ como escolheram o mesmo nome da pizzaria mais conhecida da zona. É que a verdadeira pizzaria Sorbillo fica na mesma rua a cerca de 30 metros. A verdade é que devido a esta confusão com o nome há uma mistura de reviews referindo-se a um restaurante quando na verdade se queriam referir ao outro. E eu não experimentei a pizza da verdadeira ‘Sorbillo’ por isso não posso falar da qualidade, mas da pizzeria que experimentámos a pizza não era nada de especial. Na verdade, enquanto a pizza ia arrefecendo mais a massa da pizza ficava elástica, uma das críticas mais comuns às pizzas deste restaurante. Não sendo um verdadeiro fracasso, não foi a experiência que esperávamos, a da verdadeira pizza napolitana. Até na ilha de Capri a pizza que comemos foi melhor. Apesar de muitos comentarem sobre o mau atendimento, nós não tivemos essa experiência e o restaurante em si é bastante agradável, não fosse a mesa de miúdos aos gritos mesmo ao nosso lado. Concluindo, não digo para não virem, assim não terão a fila de uma hora à espera de mesa como no Gino Sorbillo, mas não esperem de ficarem maravilhados com a comida.

Para ajudar a digestão fomos dar uma volta pela cidade até à Piazza Dante e pelas outras ruas do centro histórico até ser hora de voltarmos para o nosso quarto.

Piazza Dante

No dia seguinte fomos tomar o pequeno-almoço cedo para apanhar o ferry para Capri (o que aconteceu muito mais tarde como podem ler no post anterior) mas também não dava para dormir. Sendo o quarto virado para a Via Casanova o barulho era tremendo. Toda a noite os carros e scooters não pararam de apitar. Não faço ideia como as pessoas vivem ali, ou furam os tímpanos de desespero ou usam uns super tampões. É impossível aquela lengalenga do ‘depois de um tempo já nem noto’ porque o barulho é constante e verdadeiramente maçador. O pequeno-almoço não foi mau, havia umas sandes de fiambre e de salame com maionese, que apesar de não soar apetecível para pequeno-almoço atingiu o ponto. Com um croissant de chocolate para adicionar extra energia estava na hora de abalarmos.

Pequeno-almoço no B&B FReBI’s Home

Faço aqui um aviso que agora é bastante comum em todas as acomodações dentro das cidades cobrar ‘taxa da cidade’ ou ‘city tax’. Quando marcarem os vossos locais para dormir, seja em que plataforma for confirmem se o valor que estão a pagar inclui o tal city tax ou se têm de pagar na altura em que estiverem hospedados. Nós tivemos de pagar em Pompeia e em Nápoles. E também tivemos que pagar em Milão quando fomos em janeiro e agora em Veneza que está previsto para finais do próximo janeiro. Em alguns locais aceitam pagamento com cartão, mas outros como em Pompeia, apenas aceitam dinheiro.


Saímos então do B&B e pusemo-nos a andar pela cidade desde a Via Casanova até ao porto. Foram cerca de 45 minutos a andar bem, mas deu para conhecer outras zonas da cidade como por exemplo o monumento Vittorio Emanuele II e o Palazzo dell’Immacolatella. Depois de nos dizerem que o ferry das 9 estava cancelado e para voltar a verificar mais tarde, por volta das 11 e meia, decidimos explorar a zona de Nápoles agora junto da costa. Começámos pelo castelo mais perto, o Castel Nuovo que naquele dia se encontrava fechado. Tirámos as fotografias ao seu imponente exterior e seguimos pelo jardim ‘Giardini del Molosiglio‘, onde se têm uma bonita vista da costa napolitana. Continuando pela costa fomos até ao Castel dell’Ovo, mas estava tanto vento que os pingos vindos das ondas do mar chegavam até nós. Este castelo também se encontrava encerrado para visitas. O porquê de estes castelos estarem encerrados não soubemos na altura, mas também não tínhamos muito tempo para entrar e os explorar como deve ser. Mas aconselho o passeio pela costa independentemente se acabarem ou não por visitar algum dos castelos, ou outros edifícios como o palácio real ou o teatro de São Carlos.

Vou terminar este post com uma breve descrição de ambos os castelos começando pelo Castel Nuovo, o castelo da cidade, construído entre 1279 e 1282. Foi inicialmente habitado por Carlos II de Nápoles, sofrendo mais tarde vários danos na altura da invasão húngara em 1347 e francesa em 1494. O Castel dell’Ovo é mais antigo do que o Castel Nuovo, tendo este sido construído em 1128. Este edifício teve vários papéis como o defensivo, prisional e residencial para a família real. A visita é gratuita, apesar de o termos encontrado encerrado (de momento encontra-se temporariamente encerrado para renovações) mas é impossível perdê-lo, um castelo a entrar pelo mar dentro.

Castel dell’Ovo

E aqui ficamos no primeiro post sobre Nápoles. Uma cidade com múltiplas dinâmicas e com muitos locais para explorar. No próximo post vamos falar de catacumbas, igrejas e de mais comida tradicional.

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