Ao chegar ao parque nacional Prokletije estávamos a entrar na última parte da viagem já que no dia a seguir tínhamos o voo de regresso em Podgorica. Tinha sido uma semana a atravessar Montenegro desde a costa, a sul, até ao norte do país. Durante os últimos meses um post diferente sobre esta viagem tem sido publicado neste blog e este será o penúltimo. Todas as informações, detalhes e experiências estarão disponíveis numa única página que pode ser acedida através do menu principal. E se algo faltar ou quiserem mais informações não hesitem em entrar em contacto.
De Durmitor a Prokletije
Depois de toda a adrenalina do zipline sobre o desfiladeiro Tara voltámos para o carro para mais uma viagem de 2 horas e meia agora até Gusinje no parque nacional Prokletije. Chegámos por volta das 2 e meia da tarde e decidimos fazer o check-in antes de irmos visitar os locais anotados no nosso itinerário.
Gusinje no parque nacional de Prokletije
Apesar de ter gostado de ficar a conhecer o parque nacional de Prokletije, o quarto parque nacional desta viagem depois de lago Skadar, Lovćen e Durmitor, este foi aquele onde tivemos menos tempo disponível. E apesar de acreditar que vale a pena visitar qualquer novo lugar, não sei até que ponto este desvio fez sentido em termos logísticos quando comparando o tempo extra de viagem e aquilo que vimos do parque nacional.
Kula Nekovic em Gusinje
Para esta noite houve uma alteração inesperada de planos. Inicialmente tínhamos marcado o nosso alojamento no Ethno Katun ROSI Agrotourism que ficava na zona mais rural, contudo no segundo dia em Montenegro recebemos uma mensagem através do Booking.com deste alojamento a informar-nos que iam fechar mais cedo para férias e que a nossa reserva tinha sido cancelada. Claro que achei isto não só indelicado como pouco profissional, pelo menos que nos tivessem informado com mais antecedência. Portanto passámos uma parte da nossa segunda noite em Montenegro a procurar uma alternativa e a escolhida foi Kula Nekovic no centro de Gusinje.
Check-in
Kula Nekovic não tem parque de estacionamento privado, mas felizmente havia espaço para deixar o carro num terreno mesmo ao lado. O problema foi para fazer o check-in, não estava lá ninguém para nos receber. O que nos valeu foi um senhor, um amigo do senhorio, que estava sentado numa das mesas à entrada e ao ver-nos aflitos começou a ligar para o dono do estabelecimento, tal como nós através do WhatsApp. Eventualmente o senhorio acabou por nos atender e em menos de nada entrávamos no quarto de chave na mão.
Quarto
O quarto era bastante espaçoso com duas divisões e até tínhamos 4 camas, duas de solteiro e uma de casal para além da casa-de-banho. A decoração é que era parca, apenas uma mesa, duas cadeiras e uma mesa de cabeceira como mobília.
O nosso quarto no Kula Nekovic em Gusinje
O quarto era razoavelmente silencioso tendo em conta que estava virado para a estrada principal. O ruído mais alto que ouvimos foram das rezas vindas da mesquita em frente às 6 da tarde e às 6 da manhã. E sobre isso o senhorio não pode fazer nada.
Pequeno-almoço
Para deixar toda a informação sobre este alojamento na mesma secção vou já falar do pequeno-almoço do dia seguinte que foi servido pelo senhorio no edifício que ficava ao lado ao dos quartos. O pequeno-almoço não era em formato de buffet apesar de ter a sensação de que podíamos ter pedido mais se assim fosse preciso. E o pequeno-almoço foi o tradicional da região, com queijo, tomates, pickles, ovos cozidos, rodelas de um enchido parecido com pepperoni, pão e claro o café turco.
Pequeno-almoço no Kula Nekovic
Erámos os únicos a tomar o pequeno-almoço e tenho a sensação de que até erámos os únicos hóspedes de Kula Nekovic naquele dia. Depois de nos servir, o senhorio acabou por ficar à conversa connosco. É sempre interessante saber como é a vida no país que visitamos e ele acabou por confirmar várias coisas algumas das quais já nos tínhamos apercebido, e outras das quais apenas tínhamos suspeitas como por exemplo Montenegro ser ainda um país em desenvolvimento, muito pobre, onde muitas pessoas passam dificuldades, e onde se encontra um dos maiores cartéis de droga da Europa. Nenhuma destas informações nos surpreendeu pois vimos alguns encontros estranhos enquanto conduzíamos pelas estradas do país. Claro que a sua história política da qual já falei neste blog tem uma grande influência no estado actual de Montenegro.
O pequeno-almoço acabou por ser bem mais interessante do que esperava, e é sempre revelador falar com os locais mesmo que por vezes os locais não tenham interesse em falar com os turistas. O que não foi de todo o caso aqui. Pois é nestas conversas que se aprende as coisas positivas e negatives do dia a dia e normalmente aquilo que o país tenta esconder dos turistas. Mas são essas coisas que constroem a realidade das pessoas que lá vivem.
Para mais informações e reservas vejam a página do Booking.com: Kula Nekovic
Ali-Pasha Springs (nascentes)
Depois do check-in feito saímos na expectativa de visitar 3 locais da região. Contudo, começávamos esta parte do dia um pouco mais tarde do que aquilo que desejávamos o que influenciou a visita ao último lugar, o Oko Skakavice.
Nascentes de Ali-Pasha
A primeira paragem era em Ali-Pasha’s Springs, ou em português ‘nascentes de Ali Pasha’, a menos de 5 minutos de carro de Gusinje. Aliás foi por os locais ficarem tão perto uns dos outros que tínhamos feito a reserva no outro alojamento, com a intenção de fazermos o percurso desta tarde a pé. Mas pronto, não deu e também não foi o fim do mundo. Quanto a Ali-Pasha, este é um dos lugares mais conhecidos do parque nacional de Prokletije onde a água brota directamente do solo formando o rio que segue o seu curso pelo vale Ropojana.
Aqui encontrámos um pequeno placard com detalhes deste lugar tal como a sua história, do qual deixo aqui a tradução:
‘Diz-se que o famoso Ali-Pasha de Gusinje costumava vir aqui todas as manhãs para apreciar a beleza e a serenidade deste local, onde uma magnífica obra da natureza criou uma grande nascente cársica composta por 25 nascentes mais pequenas. Estendendo-se por 300 metros, estas nascentes, dependendo da estação do ano, libertam entre 3 a 9 metros cúbicos de água por segundo, e a sua temperatura nunca ultrapassa os 6ºC. As nascentes de Ali-Pasha situam-se a apenas um quilómetro e meio a sul de Gusinje.
Ali-Pasha foi um famoso comandante militar do século XIX membro da família Šabanagić, que governou esta região durante quase duzentos anos. Junto às nascentes, Ali-Pasha construiu uma grande casa onde as pessoas mais proeminentes da zona se reuniam, fechavam negócios e resolviam as suas diferenças entre clãs, enquanto os viajantes que por ali passavam podiam refrescar-se e pernoitar se assim quisessem. No meio destas nascentes, existe um antigo moinho de água de pedra, um dos raros que, até aos dias de hoje, preserva um antigo mecanismo para moer os grãos que eram trazidos de toda a região das montanhas Prokletije. Este moinho de água é também especial por ter alojamento no piso superior. As raparigas de Gusinje costumavam vir aqui por volta do Dia de São Jorge recolher água num pote especial, que depois adornavam com flores primaveris.
Nascentes de Ali-Pasha
As pessoas reuniam-se perto destas nascentes desde os tempos antigos, principalmente ao ar livre. Simplesmente porque as condições aqui eram as ideais para tal. A rota das caravanas entre o Mar Adriático e Constantinopla passava por aqui. Até há cem anos, apenas cavalos eram utilizados para o transporte de pessoas e mercadorias. E numa longa viagem, os cavalos precisavam de comer, beber e descansar. Para além das moedas de ouro ganhas com o comércio, tesouros da igreja e da realeza, também era transportado dinheiro, joias, ouro e outros objetos de valor. Circunstâncias inesperadas, ataques repentinos, desastres e outros infortúnios podiam levar a que estes objectos fossem escondidos, muitas vezes enterrados, de uma forma não planeada e com urgência. Segundo a lenda, antigamente existia uma grande nogueira nas margens destas nascentes onde se acredita que haja um tesouro enterrado. Quanto às nascentes, estas não falam do tesouro enterrado naquela terra, mas sim da coisa mais valiosa: o amor. É por isso que ainda se acredita que quem se casa nas nascentes de Ali-Pasha viverá em felicidade e prosperidade.
Todos os verões, no dia 2 de agosto, os habitantes de Gusinje e Plav, vindos de todas as partes do mundo, reúnem-se aqui nas fontes de Ali-Pasha. Provavelmente, este é o maior encontro tradicional de famílias em Montenegro, com a presença de mais de 15.000 pessoas. Cantam-se canções antigas de Gusinje, dançam-se danças folclóricas tradicionais, reencontram-se amigos e, à noite, a festa continua por Gusinje.’
Vodopad Grlja (cascata)
A paragem seguinte era na cascata Grlja também conhecida por Gërla. Esta cascata fica ao pé de um pequeno parque de estacionamento gratuito a 10 minutos de carro das nascentes Ali-Pasha. A cascata é alimentada pela nascente Oko Skakavice (em português: olho de gafanhoto) e pelo degelo da neve que cobre as montanhas em redor. A cascata tem uma altura de 12 metros onde a água cai para o desfiladeiro de Grlja e acaba por se juntar à água vinda das nascentes de Ali-Pasha que vai depois desaguar no lago Plav.
Nós não passámos muito tempo ao pé da cascata, e por qualquer razão senti uma sensação estranha enquanto estive aqui. Eu não sou de presságios, pressentimentos ou sextos sentidos, mas senti o ambiente pesado. E era apenas uma cascata, algo que vemos practicamente em todas as viagens que fazemos, a menos que sejam viagens citadinas. É que nem conseguia olhar para onde a água caía sem ficar com pele de galinha. E podem pensar que foi devido ao pormenor que vou contar em seguida, mas já me sentia assim quando reparei na fotografia.
É que na rocha no ponto onde a água começava a cair estava a fotografia de um homem com duas datas por baixo, a data de nascimento e a da morte. Pelos vistos o homem tinha morrido em 2023. Agora o que não sei é se morreu de acidente ou se foi suicídio, mas apesar de esta fotografia ser um memorial a verdade é que adicionou uma camada de estranheza à visita à cascata. No entanto, esta cascata é com certeza um dos pontos onde parar neste parque nacional. E até pelo que li há vários trilhos que valem a pena ser feitos aqui à volta.
Oko Skakavice (nascente)
O último lugar que esperávamos visitar naquele dia era exactamente a nascente que alimenta a cascata Grlja, Oko Skakavice. No entanto as coisas não correram como o esperado. Já entre as nascentes de Ali-Pasha e a cascata Grlja reparámos que a estrada estava a ficar cada vez mais em pior estado com vários buracos cada vez mais pronunciados e isto piorou bastante quando tentámos chegar a esta nascente. De tal maneira que acabámos por estacionar o carro a meio caminho e seguir a pé.
Mas também a pé chegou a uma altura em que o caminho estava de tal forma enlameado e inundado pelas águas do riacho que acabámos por desistir e voltar para trás. E também por esta altura o sol já se estava a pôr e começava a escurecer. Infelizmente acabámos por não visitar esta nascente.
Churrascaria Alipašini izvori em Gusinje
Apesar de Gusinje ser a cidade principal deste parque nacional, não deixa de ser uma cidade modesta. E fomos avisados pelo senhorio que não havia muitos restaurantes, contudo estivemos indecisos entre algumas opções. A churrascaria Alipašini izvori acabou por vencer, e ainda bem que assim foi.
Esta churrascaria tem um menu variado com kebabs, hambúrgueres e carnes grelhadas o que é esperado, mas também tem pizzas e sandes. Nós queríamos acabar a última noite em Montenegro a comer comida tradicional e claro que os ćevapi satisfazia esse requerimento. Já tínhamos experimentado em Bar no início da viagem (ver aqui) e tínhamos gostado bastante, por isso porque não repetir?
Ćevapi no Alipašini izvori
Havia dois menus de ćevapi cuja diferença era na quantidade de carne, um era de 125gr e outro de 250gr que foi o que escolhemos. Em 2025, o menu mais pequeno custava em 3 euros e o maior 6. Ainda não acredito o quanto barato era. E o preço do prato incluía os vários molhos, couve e cebola raladas e pão. Para beber pedimos sumos já que não vendiam álcool neste estabelecimento. Foi a refeição mais barata da viagem e como podem ver na fotografia acima a quantidade de comida era óptima especialmente considerando o preço. Se fosse a apontar algo era de que gostei mais da carne dos ćevapi em Bar. E fiquei bastante surpreendida pois apesar de estarmos numa parte rural do país, o empregado falava um inglês perfeito.
Outro lugar que também recomendo nesta cidade é a padaria Pekara-Furra VIZION Gusinje. Nós viemos aqui comer qualquer coisa depois do passeio pelas nascentes e cascatas do vale Ropojana, quando ainda era demasiado cedo para jantar. Experimentámos uma espécie de pizza e um cachorro, e eram ambos deliciosos. E a preços tão baratos que era quase um crime.
Um aperto no adeus a Gusinje
O que eu não contei logo no início foi que ficámos a conhecer um cão mal chegámos a Gusinje. Bem era mais um cachorrinho do que um cão. Ele veio ter connosco quando estacionámos o carro ao lado de Kula Nekovic a pedir festas todo contente. Acabou por nos seguir até Kula Nekovic e ficar sentado perto do homem que nos ajudou no check-in. Quando nos vínhamos embora no dia seguinte, o cão veio a correr ter connosco mal nos viu mas agora eu já vinha preparada que no dia anterior quando fomos à padaria tinha também comprado um pão recheado com salsicha para lhe dar. Até o resto do pão do jantar do dia anterior ensopado no molho da carne embrulhado num guardanapo lhe trouxemos.
Cachorrinho de Gusinje
E não é que o cão começa a correr atrás do carro quando nos estávamos a vir embora? Não sei quantas vezes nesta viagem o meu coração se despedaçou. Quando cheguei a casa não conseguia deixar de pensar no cão e por isso decidi mandar mensagem ao senhorio de Kula Nekovic a perguntar se podia ajudar-me a encontrar-lhe um dono. Foi então que o senhorio de Kula Nekovic me disse que ele próprio trata dele dando-lhe comida várias vezes ao dia e abrigo dentro de casa. E que se chegasse uma altura em que não pudesse tratar do cão não o deixaria ao abandono.
Só penso que ainda bem que mandei aquela mensagem ao dono de Kula Nekovic porque o cão não me saía da cabeça e muito me alegro por saber que pelo menos aquele está a ser bem tratado. Mas a realidade não é essa para a maioria dos animais em Montenegro e por isso continuo a enviar todos os meses dinheiro para a organização Stray aid Montenegro. Pode ser pouco e de certa forma este gesto é egoísta da minha parte, como se eu assim fosse perdoada por não ter feito mais pelos cães com os quais me cruzei em Montenegro, mas mesmo assim acredito que é melhor do que não fazer absolutamente nada. Espero que pelo menos uma pessoa que leia esta post também o faça. Deixo aqui o link da organização: https://strayaidmontenegro.be/
Plavsko jezero (lago)
Antes de deixarmos o parque nacional de Prokletije fizemos uma última paragem em frente ao lago Plavsko (ou Plav), o lago onde vão desaguar as águas das nascentes Ali-Pasha e da cascata Grlja. Este lago glaciar tem cerca de 10.000 anos e cobre uma área de 1.99 km2.
Plavasko jezero
E com este lago dizíamos adeus ao parque nacional de Prokletije.
No próximo post
Da viagem em Montenegro apenas falta falarmos de Podgorica, a capital deste país incrível. Podgorica não tem uma boa fama, aliás chamam-lhe a capital mais aborrecida da Europa, mas sabem que mais? Nós ficámos a gostar de Podgorica. Todos os detalhes no próximo post.