Mosteiro de Ostrog e visita a diferentes lagos

Conteúdo desta página

  1. No último post
  2. Ponto panorâmico do Lago Slansko
  3. Mosteiro de Ostrog
    1. A nossa visita ao mosteiro
    2. Breve história do mosteiro de Ostrog
  4. A compra de maçãs em Šavnik
  5. Lago Vražje ou Lago do Diabo
  6. Próximo post

No último post

Na semana passada falámos da última paragem na baía de Kotor, Perast. Uma manhã que incluiu uma viagem de barco até à ilha da Nossa Senhora das Rochas, um pequeno-almoço com uma tarte tradicional e até um mergulho inesperado nas águas do Adriático. Hoje vamos falar de um locais mais mediáticos da religião ortodoxa em Montenegro, o mosteiro de Ostrog e algumas das paragens que fizemos pelo caminho antes e depois do mosteiro.

Ponto panorâmico do Lago Slansko

A distância aproximada entre Perast e o mosteiro de Ostrog é de 100km que leva em média 2 horas a percorrer. Essa foi uma das razões para fazermos esta paragem, isso e por este ser um miradouro, o miradouro do lago Slansko (ou Slano). Este lago artificial cobre aproximadamente 9 km2 de área construído em 1950 para fornecer energia hidroélectrica o que é conseguido através de uma pequena barragem que fica numa das suas margens. Apesar do lago não ser natural, a verdade é que as suas águas calmas e azuis e os pequenos ilhéus formam um cenário pitoresco.

Lago Slansko

Neste miradouro também havia uma espécie de bar de estrada abandonado com mesas e bancos corridos, que acredito ser bastante concorrido durante o Verão. Em novembro tivemos de nos contentar com a paisagem – o que afinal já não foi pouco. Este miradouro serviu-nos para esticar as pernas até ao próximo destino, o mosteiro de Ostrog, a cerca de 45 minutos.

Mosteiro de Ostrog

Como já tinha dito anteriormente conduzir em Montenegro é uma aventura e mais o é quanto mais para o interior de Montenegro se entra. E neste caso para chegar ao mosteiro de Ostrog até se teve direito a passar por mais uma estrada em serpentina. Afinal a serpentina de Kotor pode ser a mais famosa, mas não é certamente a única em Montenegro.

O mosteiro está dividido em dois nível, o inferior e o superior, e nós estacionámos o carro perto do nível superior, que é a parte mais conhecida do mosteiro. Em relação a este local vou primeiro relatar a nossa experiência e depois a breve história associada a ele.

A nossa visita ao mosteiro

A nossa visita acabou por ser um pouco inusitada. Tudo começou quando estávamos a entrar no recinto exterior do nível superior do mosteiro e ouvimos um carro a chegar com um bocadinho de velocidade a mais. Para nossa surpresa quando olhámos para trás vimos que era um carro preto sem matrícula estacionado agora numa das bermas da entrada, onde por sinal, não era um lugar de estacionamento. Mais admirados ficámos quando de lá de dentro sai um homem de vestes de cor preta. Ou seja, sai do carro um padre ortodoxo. O padre segue apressado para dentro do mosteiro e sobe por umas escadas que davam para uma pequena capela.

Mosteiro de Ostrog

Quanto a nós andámos primeiro por ali fora a tirar fotografias aos edifícios do mosteiro o que por sinal é bastante bonito, de tal forma que é como se o mosteiro fizesse ele mesmo parte da rocha. Decidimos entrar nos vários edifícios começando pelo que ficava do lado contrário ao parque de estacionamento. Ou seja, subimos pelas mesmas escadas por onde o padre tinha ido. Entrámos dentro da capela onde a iluminação era bastante diminuída e onde se sentia um cheiro forte a incenso. Quando eu avanço para o interior da capela deparo-me com a forma de um corpo deitado e o padre a rezar e a abanar a cabeça da pessoa que estava em frente ao corpo para trás e para a frente. A única coisa que me veio à cabeça foi ‘acabei de chegar a um velório’ e toco de voltar para trás para sair rapidamente da capela. O meu marido que vinha atrás quando se apercebe daquele ritual tem exactamente a mesma reacção. Ele ainda viu que o padre tinha colocado uns óleos na testa da pessoa antes de começar a reza, mas eu nem tive tempo para ver isso. Bem só vos digo que saímos da capela meio abananados meio esbaforidos a tentar perceber o que tínhamos acabado de presenciar.

E de repente apossou-nos uma sensação de estranheza que não nos abandonou até bastante mais tarde, depois de já nos termos ido embora. Ainda visitámos outras áreas do mosteiro incluindo uma grande e apinhada loja de recordações, uma sala com velas, voltando novamente ao recinto exterior onde àquela hora vários grupos de freiras aproveitavam para descansar à sombra das árvores. Quando saímos do mosteiro sentíamos que de alguma forma tínhamos feito parte de um culto proibido e de uma coisa estávamos certo, a religião ortodoxa ali tinha um poder sem igual.

Concluindo, o mosteiro de Ostrog é um lugar que deve ser visitado, seja-se religioso ou não. E aliás para a maior das pessoas esta visita não vai ter um impacto tão intenso como teve em nós, que ainda hoje tento perceber o que aconteceu ali naquela meia hora.

Breve história do mosteiro de Ostrog

O mosteiro de Ostrog é um lugar de reza, adoração e peregrinação da religião ortodoxa. Várias pessoas de todo o mundo procuram este mosteiro para cumprir promessas, receber a bênção dos padres e estar mais perto da sua religião. A melhor comparação que posso fazer é: o mosteiro de Ostrog é para a religião ortodoxa o que Fátima é para a religião católica. Há vários relatos de milagres que aconteceram a pessoas que visitaram este mosteiro como voltarem a andar ou saírem curadas das suas doenças. Tal como Fátima e o seu 13 de maio, também em Ostrog há um dia de grande celebração, o dia 12 de maio, que corresponde ao dia da morte de São Basílico.

Mosteiro de Ostrog

E é a São Basílico a quem o mosteiro de Ostrog é dedicado. São Basílico foi um monge e bispo ortodoxo que viveu no século XVII. São Basílico nasceu em Herzegovina a 28 de dezembro de 1610, baptizado com o nome de Stojan. Stojan desde muito cedo passou por vários mosteiros incluindo o de Cetinje e tudo começou por uma decisão feita pelos seus pais que o quiseram afastar daqueles que eles consideravam ser más companhias e que moldavam a personalidade de Stojan que antes da sua vida religiosa era considerada uma pessoa extremamente egoísta. Mas quando Stojan entrou no mosteiro a sua vida virou-se para Deus. Stojan acabou por ser expulso de Montenegro quando esteve em Cetinje por ser fervorosamente contra as negociações que decorriam na altura com o Papa numa tentativa de unir ambas as religiões, a ortodoxa e a católica. Stojan foi então admitido no mosteiro de Tvrdoš em Trebinje (Herzegovina) tendo sido aqui reconhecido pela sua devoção ao jejum e à oração. Foi por esta altura que Stojan tornou-se Basílico. Apesar de Basílico ter sido obrigado a tomar uma posição política durante a guerra contra os turcos tendo para isso de se aliar à igreja católica, a verdade é que nunca deixou de ser um defensor ferranho da igreja ortodoxa tendo sempre lutado contra a disseminação da fé católica na região.

Em 1651, São Basílico escolhe Ostrog para sua morada. Inicialmente havia apenas uma pequena igreja e foi São Basílico que quis expandir a propriedade até esta se tornar no mosteiro que é hoje. No nível inferior do mosteiro à igreja que já lá existia foi adicionado uma pequena casa para processamento de trigo e construídas habitações para os monges mais novos. No novo nível do mosteiro, o superior, foi construída uma zona de armazenamento, quartos de hóspedes e outra capela onde vários artefactos religiosos estão hoje guardados. Para puder aumentar a área do mosteiro, São Basílico aliado a outros dois irmãos crentes da religião ortodoxa adquiriram os terrenos envolventes. São Basílico morreu a 29 de abril de 1671 (12 de maio de acordo com o calendário gregoriano) e sepultado no mosteiro. Mais tarde, o seu corpo foi exumado e transferido para o relicário que fica no nível superior do mosteiro e onde reside até hoje. E são os seus restos mortais que eu calculo que tenha visto ao entrar na pequena capela da qual acabei por fugir a sete pés.

Para quem quer visitar este mosteiro, fica aqui a informação de que a entrada é gratuita. E sendo este um lugar de referência em Montenegro, este mosteiro é um dos locais mais populares no país para visitar e para quem quer rezar. Para mim valeu a pena a visita, não pelo lado religioso, mas sim pelo lado cultural. E para assim termos mais uma experiência sem igual para contar.

Para mais pormenores sobre este mosteiro vejam a seguinte página: https://www.visit-montenegro.com/monastery-ostrog/

A compra de maçãs em Šavnik

Entre o mosteiro de Ostrog e a próxima paragem, o lago Vražje, ficavam 90km de distância o que nos levaria mais duas horas de caminho. Ao chegar à última meia hora de viagem a fome dava o seu parecer e decidimos fazer uma paragem rápida num supermercado quando passássemos por uma vila ou cidade. O que acabou por ser na pequena vila, Šavnik, onde havia dois supermercados das redes iDEA e Voli. Fomos ao iDEA na esperança de puder comer mais uns bureks, mas foi aqui que ficámos a saber que esse tipo de productos não é vendido em todos os supermercados do país. Como não encontrámos nada que nos chamasse à atenção fomos tentar o Voli. Mas também aqui não havia nada de especial e por isso decidimos comprar maçãs e comê-las ao pé do lago Vražje.

Uma das paisagens nas estradas de Montenegro

E até a compra das maçãs acabou por se tornar num episódio cómico, pelo menos nós levámos o que se passou para a comédia. Mas é preciso saber o contexto. Primeiro o supermercado Voli não era muito grande, mas nós demos muitas voltas antes de decidirmos o que comprar.  Segundo, havia dois empregados, um na caixa e outro num pequeno balcão com queijos ou enchidos já nem sei bem que nos seguiu sempre com o olhar. Para comprar as maçãs era preciso colocá-las num saco e pesá-las para ter o recibo com o peso e o preço. Tal como em Portugal, mas a máquina era daquelas antigas, ou seja, o recido não saia automaticamente tinha de se carregar em certos botões para o papel sair. Como os botões não estavam em inglês, estivemos para ali a pasmar até que o tal empregado nos veio ajudar. No entanto, enquanto o fazia falava para a colega que estava ao balcão e que até acho que não o estava a ouvir. E daquilo que ele disse só apanhámos uma palavra: ‘turisti’. Apesar de não percebermos montenegrino pela fala e pelo tom devia estar a dizer algo do género ‘estes turistas vêm para aqui e nem pesar maçãs sabem‘.

Como disse levamos isto para a brincadeira e ainda hoje usámos o ‘turisti’ como inside joke (piada privada). Outra coisa bem evidente de este ser um mercado local foi o tempo que levou para sermos atendidos na caixa. Só estávamos nós e uma senhora que já estava a ser atendida quando chegámos e sem exagero estiverem mais de 5 minutos à conversa depois das compras pagas e empacotadas. Certamente de que falavam da vida do quotidiano e também era certo que não tinham pressa nenhuma em terminar a conversa, o que é completamente o oposto do que se costuma ver nas grandes cidades ou áreas comerciais onde cada cliente é atendido o mais rápido possível.

No meio disto tudo o importante a dizer é que as maçãs eram muito doces e sumarentas para além de enormes e por isso foram uma boa compra.  

Lago Vražje ou Lago do Diabo

Perto das 4 da tarde chegámos à última paragem do dia antes de fazermos o check-in no nosso apartamento, o lago Vražje ou lago do Diabo. Este lago é conhecido pela sua cor – azul claro nas margens que escurece para quase preto no centro. É este contraste que lhe dá o nome.

Paisagem da estrada do lado oposto ao lago Vražje 

Este lago formado por águas glaciares cobre uma área de 3.5 hectares e tem uma profundidade máxima de 25 metros. Este lago está envolvido por paisagens cénicas a uma altitude de 1500 metros acima do nível do mar. E com um nome assim tinha de estar forçosamente associado a lendas e mitos. A lenda mais famosa é que o diabo construiu um palácio de cristal no fundo do lago e que a cor das águas é o reflexo do palácio na superfície. Outra lenda também associada ao diabo, afinal o lago chama-se lago do diabo, conta que esta entidade demoníaca vive no fundo do lago e que causa infortúnios a quem se chega perto. Outras lendas dizem que no fundo do lago há uma cidade perdida, ou que uma princesa se suicidou ao não puder casar com o homem que amava ou que as águas do lago têm poderes curativos.

Quanto a nós, parámos junto ao lago a comer as nossas maçãs e apesar de onde estávamos não se ver bem o efeito do contraste de cores ainda assim conseguimos perceber onde as águas escureciam. Para ver melhor o efeito é estar em maior altitude e até há um pequeno monte mesmo ali ao lado que não parece ser muito difícil de subir. Nós, depois de um dia exaustivo que começou em Perast, continuou pelo mosteiro de Ostrog e com quase 200km feitos, ficámos apenas ali na margem do lago. Por isso as nossas fotografias não mostram bem o efeito da mudança de cores, mas facilmente encontrarão nas redes sociais imagens bem mais sugestivas do que as nossas, como por exemplo aqui: Instagram Vražje jezero

Montes onde do topo se pode ver melhor o efeito contrastante das cores do lago Vražje 

O destino final para este longo dia ficava agora a cerca de 10km de distância na cidade de Žabljak.

Próximo post

No próximo capítulo, o parque nacional de Durmitor vai ter toda a atenção desde a cidade de Žabljak onde ficámos alojados até à rota cénica que completámos depois de ficarmos a conhecer um dos lagos mais populares da zona, Crno Jezero (lago negro).

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