Um dia intenso a explorar York (parte 1)

Sábado foi o dia para explorar a cidade em pleno. É aquele dia numa viagem que vale tudo ou nada, um dia para conhecer uma cidade, para juntar mil e uma experiências numa caixa que tem menos de 24 horas. É sempre muita pressão para apenas um dia. Será que esse dia quando nasce sabe a pressão que se espera dele? Ou isso não acontece convosco? Planificarem uma viagem, imaginarem como vai ser e depois chega o dia e as expectativas para aquele dia, para aquela viagem, são tantas que já passam o impossível, onde já nem o perfeito é suficiente. Pelo menos é assim comigo, mas estou a trabalhar nisso, a dar tempo à agenda para as coisas correrem mal, para dar lugar e aceitação quando acontece o inesperado. Um trabalho em progresso.

E o frio naquele dia em York não impediu as pessoas de saírem à rua. Em Inglaterra é sempre assim quando está frio, mas o sol espreita, já que o sol não aparece assim tanta vez, especialmente durante o Inverno. Depois de tomarmos o pequeno-almoço que incluiu uma luta de faca e garfo com o bacon (vejam post anterior) lá saímos bem agasalhados e prontos para andar. A cidade de York não é muito grande, especialmente a zona centro que fica dentro das muralhas, um dos locais explorados mais tarde.

Um dos primeiros locais a que fomos foram as ruínas da abadia de Santa Maria (St Mary’s Abbey) que ficam nos chamados jardins do museu (Museum Gardens). A abadia foi construída em 1088 e a sua história está ligada a dois eventos importantes para Inglaterra; começou com o William the Conqueror (o conquistador) a reforçar o seu domínio sobre o norte e terminou com Henry VIII e a sua influência na Reforma da Igreja, cuja história podem encontrar na página deste blog Hampton Court Palace. Lá podem encontrar o como e porquê da formação da igreja Anglicana (não esperem nenhum romance, apenas um inglês bruto, gordo e com mania). Antes da dissolução da igreja cristã St Mary’s Abbey fazia parte de um dos mais ricos e poderosos mosteiros beneditinos de Inglaterra, onde vivam vários monges que se dedicavam a tarefas diversas desde à administração do mosteiro, a criar e manter relações com comerciantes até à cópia de livros. As paredes de pedra que rodeavam a abadia foram construídas em 1260 e continuam hoje a ser a parte mais resistente do complexo. As ruínas atuais já não suportam um edifício interior mas mesmo assim representam um ponto de relevo na história cultural de York.

Ainda antes de virmos até as estas ruínas entrámos numa igreja, a igreja de St Olave. A porta da igreja estava aberta, mas completamente vazia, ou assim pensámos. Digamos que tivemos uma experiência meio bizarra no seu interior, talvez sugeridos pela fama da cidade, mas a verdade é que ouvimos passos, primeiro devagar como se a andar, seguidos por passos de corrida. E ninguém estava naquele momento a percorrer os corredores da igreja. Nunca saberemos o que aquilo foi, mas nunca se sabe, se calhar a fama de York tem alguma razão de ser.

A igreja de St Olave foi construída em 1055 em homenagem ao santo padroeiro da Noruega (a ancestralidade Viking a deixar a sua marca na cidade). A igreja foi reconstruída no século XV e ainda nos dias de hoje mantem a sua aparência exterior da de um castelo, com a sua torre quadrada ao centro a erguer-se mais alto do que que as torres dos cantos. Há uma história de fantasmas ligada a esta igreja, apesar de não refletir a nossa experiência. Conta-se que se vêem sentados ao fundo da igreja uma mulher e um menino ambos vestidos de preto. Não foi o que vimos, aliás não vimos nada, no entanto: ‘Será que foi este o menino que ouvimos a correr pelos corredores?? Parece-me que nunca saberemos (e ainda bem, que eu gostava de conseguir dormir nos próximos 20 anos).

Nos Museum Gardens encontra-se o museu de Yorkshire cujo bilhete de entrada custa 8 euros. Como decidimos organizar esta viagem de maneira a ficar de baixo budget apenas pagámos para visitar os lugares que não queríamos mesmo perder, e mesmo assim houve algumas dúvidas em relação à catedral, a York Minster, que é o edifício principal da cidade. E foi mesmo este o nosso ponto seguinte de visita, depois de decidirmos não visitar o museu. Ainda antes passámos pelas ruínas do hospital medieval St Leonard’s, ainda no Museum Gardens. Este hospital foi na sua altura o maior hospital do norte de Inglaterra. Este hospital tinha uma ligação forte com a catedral e por isso também sofreu com a reforma da igreja acabando por fechar e deixar York sem hospital até 1740.

Agora sobre a catedral, a York Minster, o que tenho primeiro a dizer é que o bilhete é um bocado caro, custando 18 libras por pessoa. É que doi a alma dar esse dinheiro para visitar o que no fundo é uma igreja (e assim tenho uma multidão de homens de Yorkshire a vir em debanda do Norte com tochas na mão, com tal heresia!). Ou não que isto está em português para além que o Google tradutor não é muito bom. É verdade que o bilhete é válido por 12 meses e pode-se visitar a catedral as vezes que se quiser durante esse período, mas a não ser alguém que more ali perto e seja fanático por vitrais ou santos, quem é que vai visitar a catedral milhares de vezes num ano? Só se for para fazer valer o preço do bilhete. Com muita relutância lá demos as 18 libras cada um e entrámos. Agora era a altura de dizer que a nossa reação foi meio à americano e que mal entrámos exclamámos ‘Uau, mas que catedral’ ‘Oh my God, look at that!’ – enquanto rodopiávamos sobre nós mesmo. Mas não, não foi de todo o que aconteceu. É uma igreja grande dou-lhe isso, mas não vale as 18 libras (e isto vai fica aqui a remoer, talvez só com a venda dos bilhetes no ebay isto passe).

Se formos a olhar para o início da história da catedral teremos de voltar a 627 quando rei Edwin se casou com a princesa cristã, Ethelburga. O rei voltando-se para a religião da mulher foi baptizado numa pequena igreja de madeira (e onde era essa igreja de madeira? Onde? Exactamente onde hoje fica a catedral! Bolas, que reviravolta!

Julga-se que por volta de 633 (ou melhor os historiadores julgam) que neste mesmo local construiu-se uma igreja de pedra para substituir a de madeira onde o rei tinha sido baptizado. O rei depois de morrer em batalha foi enterrado nesta igreja de pedra. Passando rapidamente para o ano de 1080, uma nova catedral foi construída depois do edifício que aqui se encontrava ter ardido por completo. E desde 1154 a igreja tem-se expandido e demorou mais coisa menos coisa 250 anos até se tornar no edifício que é hoje. Mas esta catedral já passou por muito, não julguem que não, sofreu incêndios em 1753, 1829, 1840 e 1984. Na altura da primeira guerra mundial os vitrais foram retirados para segurança, o que também aconteceu durante a segunda guerra mundial quando 80 janelas foram retiradas também para proteção das mesmas. Entre 1967 e 1972 um grande projeto de conservação que custou uns meros 2 milhões de libras foi avante com o objetivo de reforçar as fundações da torre e reparar os danos nos trabalhados de pedra. E hoje ali está imponente, a levar 18 libras a quem a quer visitar – suponho que alguém tenha que pagar aqueles 2 milhões

Vamos lá ver, não me interpretem mal, mesmo que fosse a York agora ia na mesma visitar a York Minster que é um, senão o, ‘monumento’ principal da cidade e que faz parte de York. Por isso independente do preço de entrada a York Minster edeve ser visitada. E de qualquer das formas talvez o preço não seja assim tão exagerado pois com ele visitam a catedral, a cripta e o museu undercroft onde se encontram restos romanos, e descobertas arqueológicas encontradas ao longo dos séculos. Para aqueles que são residentes em York ou estudam em York a entrada é gratuita pois não nos esqueçamos que no fundo estamos a falar de uma igreja e como tal um local de reza e de prática à religião anglicana. Mas esqueçam os meus desabafos, a igreja é bonita, vale a pena visitá-la, pelos vitrais, pelos trabalhados e pelo seu peso na história da cidade. Podem também subir ao topo da torre mas existem vários avisos sobre esta subida uma vez que as escadas medievais são muito estreitas contando com 275 degraus que demoram mais ou menos 10 minutos a subir. Se também quiserem subir à torre o bilhete fica a 24 libras (é que nem sequer vou comentar).

Depois da visita à catedral, museu e cripta decidimos ir apanhar ar fresco e explorar as muralhas da cidade. Andar por todos os ‘segmentos’ das City Walls dar-vos-á diferentes perspetivas da cidade, algumas mais bonitas do que outras é verdade, mas todas merecem o nosso tempo. O caminho, pode-se este chamar de caminho circular mesmo não formando um círculo, compreende as muralhas medievais mais bem conservadas de Inglaterra. As muralhas de pedra foram construídas pelos Vikings nos séculos XIII e XIV substituindo assim as estacas de madeira que formavam antes uma muralha rústica. As muralhas originais de pedra incluíam 4 portões principais, também conhecidos como ‘Bars’ – Botham Bar, Monk Bar, Walmgate Bar e Micklegate Bar – e é através destes ‘bares’ que se entra para cada caminho na muralha, que ainda hoje têm condições seguras para se caminhar sobre elas, a menos que esteja mau tempo. Quando saem de cada ‘bocado’ de muralha encontram um mapa a indicar-vos o próximo local de entrada para o seguinte segmento até se completar o caminho à volta de York.

E acabo aqui a primeira parte deste dia do ‘tudo ou nada’. No próximo post vou incluir uma rua victoriana (cheiro e tudo), comida, bebida e um chocolate quente que nos levou a voltar ao sítio duas vezes antes de deixarmos a cidade.

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