Montenegro

Conteúdo desta página

  1. Visitar Montenegro
    1. Considerações a ter como turistas
  2. A chegada a Montenegro
    1. Aeroporto de Podgorica
  3. Primeiro dia em Montenegro
    1. Podgorica
    2. Lago Skadar
    3. Stari Bar
    4. Bar
  4. Segundo dia em Montenegro
    1. Ainda em Bar
    2. Sveti Stefan
    3. Mosteiro Praskvica
    4. Cetinje
    5. Parque nacional Lovćen
    6. Serpentina de Kotor
    7. Kotor (parte 1)
  5. Terceiro dia em Montenegro
    1. Kotor (parte 2)
    2. Parque nacional de Lovćen
    3. Mausoléu de Njegoš
    4. Ponto panorâmico na estação de teleférico de Kotor
    5. Budva
    6. Perast (parte 1)
  6. Quarto dia em Montenegro
    1. Perast (parte 2)
    2. Ilha da Nossa Senhora das Rochas
    3. Ponto panorâmico Boka Kotorska
    4. Ponto panorâmico do Lago Slansko
    5. Mosteiro de Ostrog
    6. As maçãs de Šavnik
    7. Lago Vražje ou Lago do Diabo
    8. Parque nacional Durmitor: Žabljak
  7. Quinto dia em Montenegro
    1. Parque nacional de Durmitor (parte 1)
    2. Crno Jezero (lago negro)
    3. Rota cénica
  8. Sexto dia em Montenegro
    1. Parque nacional de Durmitor (parte 2)
    2. Zipline através do desfiladeiro Tara
    3. Parque nacional Prokletije
    4. Ali-Pasha Springs (nascentes)
    5. Vodopad Grlja (cascata)
    6. Oko Skakavice (nascente)
    7. Churrascaria Alipašini izvori em Gusinje
  9. Sétimo dia em Montenegro
    1. Plavsko jezero (lago)
    2. Chegar a Podgorica do parque nacional Prokletije
    3. Podgorica

Nos últimos anos Montenegro tem sido um dos países que tem ganho popularidade como destino de férias. É um país pequeno, sim, mas tem imenso para oferecer, desde praias, a cidades medievais, a parques nacionais que fazem lembrar os Dolomitas em Itália. A parte mais conhecida de Montenegro é Kotor, uma cidade onde vários navios de turismo param todos os dias, dando a conhecer aos seus hóspedes uma das cidades medievais mais bem conservadas do mundo e parte do Património Mundial da UNESCO. No entanto, nós quisemos mais, quisemos ficar a conhecer as várias partes do país e foi por isso que marcámos uma semana de férias – sábado a sábado – e alugámos um carro para nos deslocarmos à vontade por Montenegro.

Kotor

Decidimos ir em novembro, que é a altura do ano em que chove mais, mas mesmo assim só apanhámos um dia com chuva, tendo no último dia até andado de manga curta pelo meio das ruas da capital, Podgorica. Mas tivemos de tudo, desde chuva, a bom tempo, a temperaturas amenas a temperaturas negativas. Em cada parte do país foi uma espécie de miniférias dentro das férias, tal era a diferença de cada experiência. Montenegro revelou-se um país bem mais surpreendente do que aquilo que esperava, para os ambos os lados, tanto para o lado positivo como para o lado negativo. Uma semana foi o tempo certo para ficar a conhecer este país e apesar da probabilidade de mau tempo, vir em novembro foi uma das melhores decisões que fizemos, já que os vídeos que vimos dos aeroportos e estradas durante a altura do verão eram de desespero e frustração. E percebe-se porquê – um país tão pequeno e ainda em desenvolvimento tem que forçosamente apresentar certas dificuldades perante o turismo desmedido. Também tínhamos lido que os locais por vezes mostravam algum desdém pelos turistas, que alguns até tinham sido maltratados, e sim conhecemos pessoas um pouco mais carrancudas, mas também conhecemos pessoas muito, mas muito simpáticas.

Bolos que a senhoria em Žabljak nos deu quando chegámos ao nosso apartamento no final da tarde como agradecimento por termos limpo a salamandra naquela manhã

Passámos por algumas situações caricatas, das quais irei falar nas próximas semanas que tornou esta viagem ainda mais memorável. Eu suma, se aconselho a visitar Montenegro? A resposta é imediata: claro que sim, mas venham preparados para surpresas.

Aeroporto

O aeroporto mais conhecido de Montenegro é o de Tivat, devido à sua localização perto de Kotor e, portanto, da costa. Curiosamente, a partir de outubro, não há voos de Londres para Tivat e não tivemos outra escolha senão voar para Podgorica, a capital de Montenegro. Para nós, ter apenas uma escolha não teve nenhum impacto já que tínhamos flexibilidade para ajustar o nosso itinerário.

Chegada ao aeroporto de Podgorica

Para entrar no país foi preciso mostrar passaporte uma vez que Montenegro não pertence à União Europeia. E foi assim que tive pela primeira vez um carimbo no passaporte. Mesmo quando fui ao Alasca e a Vancouver não tive direito ao carimbo, por isso esta foi a primeira surpresa da viagem. Voar com apenas o cartão de identificação, como o cartão de cidadão, não é suficiente para visitar Montenegro, sendo mesmo necessário o passaporte.

Taxa de turismo

Só fiquei a saber sobre esta taxa quando já estávamos em Kotor, isto na terceira noite em Montenegro. Esta taxa é obrigatória e tem um custo de 1 euro por pessoa por dia ou 50 cêntimos se for uma criança até 12 anos. Em muitos dos locais esta taxa é chamada de ‘city tax’ e deve ser cobrada pelo alojamento. Tal como os donos do alojamento devem completar um documento com os dados pessoais dos hóspedes incluindo a duração da estadia e depois submeter este documento às autoridades. Se isto não acontecer o problema pode aparecer à saída do país na forma de uma multa. Há duas partes desta regra, a primeira é ser obrigatório avisar as autoridades até 48 horas depois de se entrar no país e a segunda é fazê-lo de cada vez que se muda de alojamento, o que para nós era basicamente todas as noites. Ao descobrirmos estas regras entrámos em contacto com os donos dos locais onde tínhamos ficado nas noites anteriores e felizmente estava tudo conforme a lei. Como fizemos as reservas no booking.com assumimos que estas burocracias tivessem sido feitas de acordo com o esperado, mas para quem faça as reservas através do Airbnb ou em caso de se ficar em casa de amigos ou familiares é preciso verificar qual o processo de forma a evitar problemas. Se isto não for feito pelo alojamento, aos olhos da lei a própria pessoa é responsável pelo pagamento desta taxa de turismo o que pode ser feito indo às autoridades ou a um balcão de turismo. Apesar de ter lido que as autoridades muitas vezes têm a atitude de não quererem saber e que na maioria das vezes isto não é verificado no aeroporto, é melhor prevenir do que pagar 200 euros no final da viagem. O que seria uma maneira desagradável de acabar as férias.

Multibancos

A verdade é que a maior parte dos restaurantes e dos locais que visitámos aceitavam pagamento com cartão de débito. No entanto, nos locais onde ficámos hospedados, em algumas padarias e nas entradas para os parques nacionais, os pagamentos tinham de ser feitos a dinheiro. O meu conselho é que tentem evitar fazer múltiplos levantamentos e quando o fazem levantem uma soma considerável que vos dê para grande parte da viagem. Isto porque os multibancos cobram uma taxa de levantamento que vai desde os 4.95 euros até aos 6-7 euros. E esta taxa é cobrada por cada levantamento. Acho que no total nós fizemos 3 levantamentos, um quando chegámos, outro em Kotor e outro já no penúltimo dia da viagem em Gusinje. E apesar de termos andado a ver qual era o multibanco que cobrava uma taxa menor, não vimos nenhum que não a cobrasse.

As origens da língua oficial de Montenegro, o montenegrino, estão intrinsecamente ligadas com a história do país. Montenegro ganhou a sua independência do estado Servo-montenegro depois do referendo de 2006, estado esse que se tinha formado quando a Iugoslávia se dissolveu em 1989. Curiosamente, Montenegro já tinha sido independente no século passado, mas em 1920 foi-lhe renegada a independência pelos países europeus e pelos Estados Unidos da América. Em 2006, o montenegrino passou a ser a língua oficial, esta que é quase como um dialecto do sérvio. Por isso para quem fala sérvio é perfeitamente entendido em Montenegro. Apesar de menos faladas, as seguintes línguas também são reconhecidas em Montenegro: o albanês, o bósnio e o croata.

Entrada para a cidade velha de Kotor, uma das zonas mais turísticas do país

Claro que eu não sei falar montenegrino, nem sérvio, e apesar de quase sempre puder usar o inglês como língua de comunicação houve algumas situações em que tivemos de usar o Google Tradutor para nos ajudar a comunicar. No entanto, tinha estudado um pouco de sérvio, apenas o básico tipo ‘bom dia’ ‘boa tarde’ ‘obrigado’ que apesar de ser pouco, acho que foi em algumas situações recebido de bom grado. Pelo menos tínhamos feito um pequeno esforço. Mas como disse, na maior parte dos sítios pudemos falar em inglês, principalmente nos restaurantes.

Para quem gosta também de aprender o pouco a língua local antes de viajar, para aprender sérvio usei a aplicação ‘Ling’ que para palavras e frases básicas o acesso é gratuito.

Eu confesso que uma das razões que me faz adorar viajar é puder experimentar as diferentes gastronomias locais. E em Montenegro o meu lado mais‘foodie’ foi bastante apaparicado. Em cada região há diferentes pratos tradicionais; mais centrado em peixe e marisco na parte junto à costa e mais em carne e lacticínios na zona das montanhas.

Burek, o pequeno-almoço tradicional de Montenegro

E apesar de não termos experimentado tudo o que queríamos, a verdade é que aproveitámos cada refeição para comer pratos típicos de Montenegro. Para dizer a verdade, mesmo que os dias não corressem da melhor maneira, por uma ou outra razão, a verdade é que o jantar voltava a pôr tudo nos eixos. Desde burek (massa filo recheada com queijo, batata ou espinafres) a risoto de choco a sopa de veado a cevapi (carne picada em forma de espetada servida com pão, salada e sour cream), tudo foi delicioso. Houve também oportunidade de experimentar vários doces e bebidas regionais. E aliás, foi em Montenegro que comi o melhor prato de massa da minha vida – e já comi massa várias vezes em Itália!

Prato de massa do La Cathedral Pasta Bar em Kotor

Os preços das refeições também foram bastante razoáveis, os burek não foram mais do que 3 euros e os jantares variaram entre 16 a 50 euros para duas pessoas. A refeição mais cara foi no parque nacional de Durmitor onde comemos uma espécie de guisado de borrego seguido de sobremesa e aperitivos. Os pormenores de todos os restaurantes, padarias e pastelarias onde comemos serão mencionados à medida que vou escrevendo sobre os vários dias que passámos em Montenegro.

Condução

Parece que sem querer deixei as partes que tiveram um maior impacto para o fim da lista. E conduzir em Montenegro é realmente uma experiência, uma espécie de jogo de sobrevivência sem regras e sem nexo. As regras na estrada são sugestões, não obrigações – esta foi a frase que definiu a nossa experiência nas estradas de Montenegro. Desde inversão de marcha em cima de passadeiras, de carros a buzinarem a pessoas que atravessavam a passadeira com o sinal verde, de ultrapassagens que faziam os carros que vinham do sentido inverso terem de se desviar para a berma, tudo se viu. E nem vale a pena mencionar que os montenegrinos têm uma aversão a conduzir do lado deles da estrada – e mais, quando vêm um carro na direcção deles que está na faixa correcta nem sequer fazem um esforço para se desviarem – se os outros estão incomodados que se mudem eles.

Rota cénica no parque nacional de Durmitor

Em cada curva, cada estrada apertada era sempre uma expectativa – mas apesar de ter havido vários sustos a verdade é que felizmente não tivemos grandes problemas. E no final só vimos um acidente, na serpentina em Kotor, uma estrada que é feita de curvas e contracurvas umas atrás das outras bastante apertadas. Por isso suponho que a condução se chame de caos organizado, em que eles têm enraizados as suas próprias regras. Outra coisa a apontar é os sinais de velocidade, pode-se passar de 30km/h para 70km/h depois para 50km/h depois para 70km/h e depois para 20km/h em apenas um pequeno trecho de poucos metros. E até vimos numa das estradas dois sinais juntos um de 50km/h e outro de 70km/h. Suponho que a velocidade era à escolha do condutor. Vimos também muitas paragens stop da polícia e fomos avisados algumas vezes de que a polícia patrulhava aquela zona pelo sinal de luzes feitos pelos carros que vinham no sentido contrário. Um sinal mundialmente reconhecido. Ou seja, conduzir é Montenegro não é para todos e muito menos para quem tem pouca experiência. Pode levar a alguns ataques de coração.

Animais

Esta foi a parte que mais me traumatizou e a que ficou comigo até hoje e penso que vá ficar por muito mais tempo – o número de animais abandonados que encontrámos em todas as partes do país. Em Kotor, foram mais gatos abandonados, enquanto no resto do país foram cães. E para quem tem uma adoração por cães como nós, acreditem que vêm de coração partido. Montenegro sendo um país ainda em desenvolvimento está bastante atrasado em termos de protecção dos animais – não há canis e as organizações que há, vivem apenas de donativos, há uma aversão à esterilização dos animais, já que há uma cultura enraizada de que este processo vai contra a natureza, e não há qualquer punição para os donos que abandonem os seus animais. Há imenso trabalho a fazer nesta área e a quantidade de cães a sofrer e a passar fome é destruidora.

Um dos cães abandonados que nos acompanhou pelo parque nacional de Durmitor

Em alguns locais os cães vivem na rua em grandes grupos como vimos no parque nacional de Durmitor, mais especificamente no Lago Crno e depois em Gusinje no parque nacional de Prokletije. Mas pelo caminho, vimos muitos cães abandonados no meio do nada, vimos em Podgorica uma cadela com 3 pernas que tinha um pequenito escondido atrás de um caixote do lixo. E os cães que encontrámos eram todos tão meiguinhos, a pedir mimos, a pedir uma casa. Um dos episódios que mais me marcou foi em Durmitor quando um cão que veio pedir festas no início do caminho, quase nos saltou para o colo quando estávamos para ir embora, a agarrar os nossos braços com as patas e a ganir. A pedir para lhe darmos um lar. Acreditem que é difícil desiludir uma pessoa, mas agora desiludir um cão a sensação é muito, mas muito pior. Também em Gusinje conhecemos um cãozinho que andava atrás de nós. Aí tive mesmo de ir comprar comida para lhe dar, o meu coração não conseguia mais lidar com isto. Depois de voltar a Inglaterra contactei o dono do local onde tínhamos ficado em Gusinje para saber se havia alguma coisa que se pudesse fazer tal como doar comida, tentar encontrar uma casa para o cão. Felizmente o dono do sítio onde ficámos assegurou-me que ele próprio lhe dá comida 3 vezes ao dia e que na altura do inverno o cão dorme dentro de casa. Mas nem todos têm esta protecção.

População de gatos de rua em Kotor a serem alimentados por uma local

Também em Kotor ouvimos uma senhora a dizer enquanto dava comida aos gatos que ao contrário do que se pensa, as pessoas não cuidam nem alimentam os gatos abandonados. Apesar de estes animais serem uma ‘imagem’ da cidade, a verdade é que não há muitas pessoas a cuidar deles. Os gatos foram trazidos para Kotor para ajudar na eliminação de ratos, um problema que estava a assaltar a cidade, mas hoje em dia, há uma criação desmedida de gatos pela cidade, sem leis para os protegerem.  

E é por isto que já comecei a doar dinheiro mensalmente para uma das organizações que tentam salvar o maior número de animais abandonados em Montenegro e dar-lhes uma casa. Se puderem, peço-vos que façam o mesmo, nesta ou em outra instituição: https://strayaidmontenegro.be/



Aterrámos em Podgorica já depois das 9 da noite. Voámos com a Ryanair mas não à hora inicialmente marcada. A nossa ideia era chegar a Podgorica de manhã para aproveitarmos o dia, mas fomos informados pela Ryanair da mudança de horários umas semanas depois de marcarmos os bilhetes. Felizmente ainda não tínhamos marcado nenhum dos alojamentos ou esta alteração teria causado algum transtorno.

Aeroporto de Podgorica

O aeroporto de Podgorica é bastante pequeno e foi uma sorte não estar cheio quando chegámos. E muito menos encontrámos máquinas automáticas de leitura de passaportes. Recebemos o carimbo no passaporte à saída, o qual para nós foi uma surpresa, mas felizmente o processo passou-se sem grandes filas ou frustrações. Digo isto porque ainda antes de partir vi alguns vídeos de verdadeiro caos nos aeroportos de Montenegro durante o verão. O que pelo tamanho deste aeroporto é fácil de perceber o porquê.



O alojamento daquela noite não ficava muito longe do aeroporto, mas como ainda era meia hora a andar e já era de noite cerrada para além do mais àquela hora não havia transportes públicos que nos valessem, aceitámos a proposta do alojamento – a de nos virem buscar ao aeroporto por 10 euros. Se foi caro, já que foi uma viagem de 5 minutos? Sim talvez foi, mas foi a melhor e mais rápida opção disponível.

Depois de fazermos o check-in e de ficarmos a saber que tínhamos pequeno-almoço incluído com a reserva, entrámos no nosso apartamento. O apartamento ficava num edifício individual com direito a uma pequena varanda e jardim. O apartamento era constituído por uma cozinha, uma casa-de-banho e pela cama na zona que fazia de quarto. Tudo muito limpo, remodelado, e bem decorado. Como tinha estado a chover, infelizmente não conseguimos dar um uso apropriado à zona exterior, mas da parte interior podemos dizer que era muito confortável. Esta é certamente uma das nossas recomendações para ficar em Podgorica.

Durante a noite a única parte que não esteve do meu agrado foi o frigorífico que fazia um barulho ensurdecedor, o que se resolveu com uma rápida manobra que consistiu em tirar a ficha da tomada. De resto, não tive queixas e na manhã seguinte bem cedo estávamos prontos para o pequeno-almoço no edifício do restaurante onde tínhamos feito o check-in na noite anterior.

O pequeno-almoço seguiu uma dieta mediterrânea com um pratinho de azeitonas verdes e sumarentas, fatias de queijo de cabra e omeletes que eu pedi de queijo e o meu marido de vegetais que dividimos entre os dois.

Aluguel do carro

Depois do pequeno-almoço e antes do check-out fomos buscar o carro alugado ao aeroporto. Como partimos antes das 8 e meia conseguimos ir buscar o carro e voltar antes da hora do check-out às 11. Assim evitámos andar com as malas atrás, porque hoje sim íamos fazer o caminho entre o apartamento Aerodrom e o aeroporto a pé.

O nosso carro alugado através da Europcar

Agora sobre o carro. Decidimos alugar aquele que seria o nosso meio de transporte em Montenegro pela companhia Europcar. Já a tínhamos usado em outras viagens e vendo as classificações das companhias disponíveis foi esta a nossa escolha. Não fizemos a reserva directamente no website da Europcar, mas através da Trip.com. E desta vez, ao contrário do nosso usual, comprámos também um seguro contra todos os riscos (full protection) já que lendo sobre Montenegro uma das maiores aventuras é conduzir. Mas houve um erro da nossa parte, porque para este ser válido tínhamos de apresentar um cartão de crédito, o qual não tínhamos, e os cartões de débito não eram aceites. E sim, esse foi erro nosso, não lemos bem as condições deste seguro e em Montenegro é obrigatório ter-se um seguro. Agora o que não é obrigatório é que esse seguro seja contra todos os riscos, mas sim um seguro contra terceiros. No entanto, não foi isto que nos foi dito na Europcar, aliás nem houve opção – ou adquiríamos o full protection da Europcar ou então não havia carro. Sabem quanto é que esta brincadeira nos custou? Mais de 300 euros para além do depósito. É que não houve mais nenhuma opção de valores, de tipos de seguros, de nada. E esta foi a primeira vez que fomos enganados em Montenegro. Bem-vindos ao nosso mundo dos pagamentos desnecessários em Montenegro.

E o mais engraçado é que tivemos de pagar pelo estacionamento do carro no aeroporto. Deviam ver as nossas caras quando entregámos o papel que nos tinham dado na recepção da Europcar e nos pedirem 3 euros pelo estacionamento. E sim, perguntei quando entregámos o carro se esse era o procedimento para receber um sim e uma espécie de sorriso sarcástico do empregado da Europcar. A única coisa boa de tudo isto é que nos devolveram o depósito logo depois de entregarmos o carro. Mas provavelmente foi só porque tínhamos o seguro contra todos os riscos. E claro que este episódio fez com que a viagem começasse de uma maneira mais azeda.


Depois de voltarmos ao apartamento para ir buscar as malas e de check-out feito seguimos em direcção ao sul, ao lago Skadar que faz parte de 1 dos 5 parques nacionais de Montenegro. Este parque nacional, o parque nacional do lago Skadar, foi criado no final do século XX com o objectivo de preservar e proteger o habitat natural incluindo a fauna e a flora. Este lago é o maior das Balcãs e o segundo maior da Europa ocupando uma área que varia entre os 370 e os 530 km e faz parte de 2 países, Albânia e Montenegro, sendo que 2/3 do lago está do lado montenegrino. Este lago tem-se tornado cada vez mais procurado especialmente por amantes da observação de pássaros já que este é o habitat de cerca de 270 espécies algumas delas raras como é o caso do pelicano-caranguejo.

Ponto panorâmico ‘Pavlova Strana Rijeka Crnojeviča’ do lago Skadar

Em relação ao turismo, a actividade mais procurada nesta zona é a viagem de barco que explora as águas do lago. Nós decidimos não fazer esta viagem e sim foi uma decisão tomada depois de ser ponderada, discutida e mutualmente acordada. Achámos que poderíamos usar o dinheiro da viagem para outras experiências, e de qualquer das formas iríamos parar em vários miradouros onde teríamos diferentes paisagens do lago.

Os preços das viagens de barco variam bastante, mas pelos preços que vimos os valores rondam os 70-80 euros, o que não tenho a certeza se era por pessoa ou por barco. No entanto, se quiserem fazer esta viagem podem sempre procurar excursões no GetYourGuide que ficará muito mais em conta comparado com os valores que vimos nas duas vilas por onde passámos, Rijeka Crnojevića e Virpazar. Mas digo que não me arrependo de não ter feito a viagem de barco, apesar de acreditar que é uma experiência bonita.

Ponto panorâmico ‘Pavlova Strana Rijeka Crnojeviča’

Este foi o primeiro lugar onde parámos para ver o Lago Skadar. O ponto panorâmico fica mesmo em frente ao restaurante Konoba Ceklin. Neste ponto consegue-se ver as montanhas ao fundo e uma das muitas curvas deste lago com pequenas ilhotas a espreitarem nas águas calmas. Há aqui um pequeno parque de estacionamento gratuito não havendo qualquer razão para não parar aqui e desfrutar a paisagem.

Rijeka Crnojevića

Depois desta rápida paragem fomos visitar uma das pequenas vilas piscatórias deste parque nacional, Rijeka Crnojevića. Apesar de pequena, esta aldeia tem um valor histórico imenso. Devido ao seu clima ameno quase sempre sem vento, uma das mais famosas dinastias montenegrinas, Petrović-Njegoš, que governou o país entre 1697 e 1918, estabeleceu aqui uma das suas residências de Inverno. Esta zona era particularmente favorecida pelos príncipes Danilo e Nikola. O príncipe Danilo mandou construir a bonita ponte que atravessa o rio em 1853, um dos pontos que nos fez vir visitar esta aldeia, enquanto que o príncipe Nikola mandou construir a ponte que liga esta aldeia a Virpazar já mais tarde em 1905. Rijeka Crnojevića não era só um dos locais favoritos dos seus governantes como durante o século XIX e início do século XX era o local mais importante desta zona para o comércio tendo sido aqui aberta a primeira farmácia do país.

Rijeka Crnojevića (com a ponte de Danilo ao fundo)

Hoje em dia a aldeia pode ser visitada, mas talvez por virmos num dia de semana cedo e ainda por cima em meados de novembro, não podemos dizer que a vila estava movimentada, muito pelo contrário. Contudo isto fez com que estacionar dentro da aldeia fosse fácil e que pudéssemos andar pelo passadiço junto às águas e visitar a ponte velha (também conhecida como ponte de Danilo em memória ao príncipe) sem multidões. Na verdade, o que mais se viu foram as ofertas das tais viagens de barco. Em relação a estas pareceu-nos que os preços nesta aldeia eram mais elevados do que os de Virpazar talvez por Rijeka Crnojevića se localizar numa zona menos central do lago. Não obstante, para quem gosta de bonitas paisagens e pitorescas aldeias, Rijeka Crnojevića é um local perfeito para visitar no lago Skadar.

Rijeka Crnojevića

Foi em Rijeka Crnojevića que nos começámos a aperceber da grande quantidade de gatos abandonados nas ruas, apesar de nesta altura não sabermos bem se eram abandonados ou se tinham dono, mas eram deixados a andar livremente pela aldeia. Infelizmente depois da minha experiência em Montenegro a primeira opção é a mais provável.

Segundo ponto panorâmico (não o planeado)

O ponto panorâmico que tínhamos no nosso itinerário chama-se no Google Maps ‘Beautiful Panorama of Rijeka Crnojevića’. Quando estávamos prestes a chegar a este ponto encontrámos um sinal junto a uma casa de onde saiu um senhor. Então o que se passava? Para visitar o tal ponto panorâmico era preciso pagar. O senhor deu várias opções se não estou enganada era 2 euros para ir até ao ponto panorâmico e se quiséssemos um licor qualquer eram 5 euros. Ou qualquer coisa assim parecida, eu confesso que o meu cérebro desligou no momento em ele disse que tinha de pagar para ir a um ponto panorâmico. E acho que a minha cara traduzia isso mesmo já que no final o senhor acabou por me aconselhar voltar à estrada de onde tínhamos vindo e parar junto a um banco de madeira no cimo de um morro já que a paisagem dali seria semelhante.

Ponto panorâmico (junto ao banco de madeira) do lago Skadar

E foi exactamente isso que fizemos. Não há razão nenhuma para ter de pagar por um ponto panorâmico. Eu percebo que provavelmente o caminho atravessa propriedade privada, mas há outras opções, muitos lugares onde se pode parar pelo caminho para ver a paisagem sem ter de gastar dinheiro.

Para chegar ao ponto panorâmico onde fica o tal banco de madeira podem procurar:

  • Pelas coordenadas: 42.345700339198864, 19.047305618994525
  • Pelo endereço no Google Maps: 82WW+7VH, Municipality, Cetinje, Montenegro

A paisagem deste ponto panorâmico foi realmente uma das mais bonitas que vimos, por isso vale a pena parar aqui.

Terceiro ponto panorâmico (também não o planeado)

Esta foi uma das situações mais caricatas que tivemos em Montenegro. O ponto onde queríamos ir chama-se ‘Poselijani-vandfaldet’ onde supostamente há uma cascata, uma ponte antiga e algumas casas. Mas afinal a estrada para onde tínhamos de virar tinha o símbolo de trânsito proibido. Para decidirmos o que fazer a seguir parámos o carro junto ao ‘monumento ai caduti’.

Um dos muitos pontos panorâmicos do lago Skadar

Do outro lado deste monumento estava parado outro carro com um homem sentado ao volante a ouvir rádio. Estávamos prestes a sair do carro para irmos à tal cascata a pé (o que é preciso fazer de qualquer das formas) quando o homem desliga o rádio, sai lentamente do carro, vai à parte de trás e tira uma espingarda. Em seguida senta-se com ela ao colo no degrau do monumento. Realmente tínhamos passado por vários caçadores durante o caminho, muitos deles sentados à beira da estrada, e sendo o meu pai, o meu sogro e o meu avô caçadores de caça pequena sei bem que a caça em Portugal acontece aos domingos e às quintas-feiras. Suponho que o mesmo aconteça em Montenegro. Contudo, aquele movimento não nos pareceu muito amigável, aliás foi bastante ameaçador, o homem sentado ao nosso lado de espingarda no colo e não é preciso explicar porque nos fomos embora sem sequer sair do carro. Se aquilo era um aviso, o aviso tinha sido dado.

Acabámos por não visitar a cascata, parámos mais à frente numa bifurcação da estrada principal para ver a paisagem, tirar a fotografia obrigatória, e tentarmos perceber o que raio se tinha acabado de passar.

Virpazar

Chegámos a Virpazar por volta do meio-dia e esta seria a última paragem no lago Skadar antes de irmos para sul em direcção a Stari Bar. Virpazar é uma das aldeias/vilas mais conhecidas da zona. Até porque é normalmente de Virpazar que as pessoas apanham o barco para visitar o lago. No final, nós passámos aqui menos tempo do que o esperado. Apesar do movimento naquele dia ser reduzido pareceu-nos este ser um local bastante turístico com vários restaurantes, postos de turismo e barraquinhas a publicitar as tais viagens de barco. Isto apenas para dizer que não achei Virpazar nada de especial. Demos uma volta pelo centro onde se encontra o monumento que comemora a revolta dos montenegrinos que começou a 13 de julho de 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, e que resultou na libertação da cidade em 12 dias.  

Para além deste monumento também demos alguma atenção à paisagem sobre o lago onde várias canoas de madeira, algumas de aspecto mais rústico, pousavam nas suas águas.  Como não havia muito mais para ver voltámos para o carro e subimos Virpazar até outro ponto panorâmico (viewpoint Skadarske Jezoro). Ainda tentámos visitar a fortaleza de Virpazar, Tvrđava Besac, mas como no seu interior encontra-se agora um restaurante e uma loja que penso ser de recordações é preciso pagar para visitar a fortaleza. Com um tom educado, agradecemos a senhora que nos recebeu, mas rejeitámos a visita. E aqui tenho a certeza de que não me arrependo ter poupado alguns euros.

E deixando Virpazar para trás acabava assim a nossa visita ao bonito parque nacional onde se encontra o lago Skadar. Para chegar a Stari Bar apanhámos a M2, a autoestrada, cujo troço teve um custo de 2.50 euros que foram pagos à saída das portagens. Há uma estrada regional sem portagens, mas quando nos demos conta já estávamos na autoestrada e deixámo-nos ficar. Assim o caminho também foi mais rápido e antes das 2 da tarde já andávamos a passear pelas ruínas da cidade velha de Stari Bar.


Em Stari Bar iríamos centrar a nossa visita nas ruínas da cidade velha e ainda tentar avistar o aqueduto. Estacionámos a 10 minutos do centro da cidade, num parque de estacionamento ao lado de uma espécie de campo de futebol mesmo à entrada da rua Gretvanska Ulica. Decidimos parar o carro logo aqui para evitar qualquer complicação que já é esperada quando se tenta estacionar dentro de uma cidade, ou o estacionamento é extremamente caro ou está completamente lotado ou então é só caos.

Picture of the exterior side of the Škanjević mosque
Mesquita Škanjević

Para chegarmos ao centro de Stari Bar fomos subindo pela estrada até à mesquita Škanjević, mas só a podemos ver do lado de fora já que a mesquita, pelo menos àquela hora, estava fechada. Assim sendo, recuámos uns passos e passámos por debaixo de um arco de pedra para aquela que é uma das entradas para a cidade velha de Stari Bar. Pagámos os bilhetes que nos custou 5 euros a cada um e entrámos para aquele que é o maior local arqueológico medieval das Balcãs com mais de 600 edifícios em diferentes estados de conservação, que desde 2010 fazem parte do Património Cultural da UNESCO.

Na Cidade Velha de Stari Bar

Dentro das muralhas encontrámos igrejas, a citadela, a catedral de São Jorge ou o que resta dela, a torre do relógio que continua a ser um dos edifícios mais proeminentes desta cidade para além de outros locais mais da vida quotidiana como o ‘lapidário’ onde se cortava e manuseava a pedra. Apesar das primeiras evidências históricas serem do século X, calcula-se que a sua origem tenha sido por volta do século VI.

Picture of Stari Bar with the old city in the middle and the surrounding mountains
Stari Bar com destaque na cidade velha

O desenvolvimento da cidade de Stari Bar muito teve a ver com a sua localização a 151 metros acima do nível do mar e a 4km da costa. Não só os residentes de Stari Bar tinham uma boa visibilidade de quem quer que viesse na sua direcção como também uma das colinas a escondia da costa, protegendo-a de ataques de piratas. Estes factores associados a um clima ameno e fácil acesso a água doce contribuíram para que a cidade se desenvolvesse e se tornasse num local importante de comércio. Devido à distância da costa a sua actividade comercial não era associada à marítima, mas sim principalmente à da olivicultura. O azeite era o producto mais rentável, no entanto também os minerais como o chumbo, cobre, prata e outro extraídos das minas faziam parte deste comércio o que levou ao desenvolvimento e especialização do artesanato em Stari Bar.

Neste momento, devido ao seu estado de conservação, a cidade já não é habitável principalmente depois do forte terramoto de 1979 o qual provocou bastantes danos às estruturas da cidade velha. Felizmente desde então um projecto de conservação e reconstrução tem estado em curso de forma a preservar esta cidade.

Quanto a nós andámos bastante tempo pelas ruas empedradas da cidade a explorar vários edifícios havendo locais que nos prenderam mais a atenção como as ruínas da catedral de São Jorge construída no século XII e destruída numa explosão em 1881 quando esta fazia de mesquita e local de armazenamento de explosivos, a citadela onde pudemos ver o aqueduto através de uma das janelas e a torre do relógio. Esta torre tem um passado bastante conturbado que conta com ataques de canhão em 1877, a explosão de 1881 e três terramotos em 1905, 1968 e 1979.

Obsessão pela romã montenegrina

Durante a parte final da nossa visita à cidade velha tinha começado a chover e foi-se agravando de tal forma que quando saímos decidimos fazer uma pausa para beber qualquer coisa enquanto esperávamos que a chuva passasse. Mas digo-vos que há por vezes decisões que são mesmo mal tomadas, como foi a de escolher este local para ir tomar café. Fomos lá apenas porque à porta do estabelecimento Velja Vrata estava o dono que nos chamou para a rústica varanda coberta e acabámos por aceitar o convite.

Mas houve logo vários sinais de alarme que infelizmente ignorámos, o primeiro foi a cara de desapontamento quando o senhor se deu conta que afinal erámos estrangeiros o que se traduziu por uma mudança do tom de voz. Depois o meu marido pediu uma cerveja com sumo de romã que é bastante comum em Montenegro o que foi bem aceite, mas quando eu pedi um café foi óbvio que o pedido não foi do agrado do dono. Talvez fosse porque ele não sabia fazer o tal café já que esperou que a mulher chegasse à loja para ela o fazer.

Mas o pior foi que a cada 5 minutos ele vinha perguntar se eu queria sumo de romã, o que recusei de todas as vezes até que ele vem falar das romãs e eu puramente para fazer conversa estava para dizer que em Portugal as romãs fazem parte da tradição do Dia dos Reis, mas ele nem ouviu. Mal falei em Portugal cortou-me a palavra de forma bastante rude e começou a dizer que as romãs de Montenegro é que eram boas e que não queria saber das de Portugal ou das da Turquia. Bem depois deste episódio posso apenas dizer que não ficámos ali muito mais tempo. Mas ser rude deve fazer parte dele já que ele e a mulher também tiveram uma discussão bastante acesa enquanto ali estivemos. O meu conselho é que a menos que queiram beber sumo de romã não vão a este sítio. E ainda fiquei mais aborrecida quando depois de pagarmos os 6 euros pelo café e pela cerveja passarmos por bastante cafés e restaurantes com muito melhor aspecto.

Foi assim mais um episódio caricato neste dia em Montenegro depois do homem com a espingarda no lago Skadar.


Quando chegámos a Bar, agora perto da costa e a sul de Stari Bar, chovia a potes. Com o tempo assim não havia nenhum programa melhor do que a de fazer o check-in em Villa Kovacevik onde iríamos passar a nossa segunda noite em Montenegro.

Check-in em Villa Kovacevik 

Para estacionar havia duas opções, nós escolhemos a mais barata. Então as opções eram: ou pagava-se pelo estacionamento que fica dentro da propriedade ou não se pagava estacionamento e deixávamos o carro na rua mesmo ao lado. Para dizer a verdade arranjar estacionamento foi bastante fácil e o carro ficou a menos de 50 metros da entrada para a Villa Kovacevik. O estacionamento pago ficava a 7 euros por dia, mas penso que o preço depende da altura do ano.

Igreja de St Jovan Vladimir em Bar

O check-in foi feito através do uso de códigos que nos foram enviados no dia pela acomodação no booking.com, a plataforma pela qual tínhamos feito a reserva: Villa Kovacevic em Bar (Booking.com). De códigos na mão e depois de estacionarmos o carro e nos resignarmos ao facto da chuva não ir parar fomos quase a correr para o quarto.

Quarto em Villa Kovacevik

A Villa Kovacevik é daqueles locais que no final se fica com uma mistura de opiniões. As primeiras, segundas e terceiras impressões do quarto não foram boas, mas no final da viagem foi onde dormimos melhor. Portanto, ainda continuo com opiniões contrárias em relação ao nosso quarto. E porquê?

Quando entrámos reparámos que o quarto era bastante pequeno. Depois quando nos começámos a acomodar reparámos que o ar condicionado não funcionava, a persiana da janela estava a desfazer-se já meio descaída como se tivesse desistido de existir, e o acesso ao wi-fi era uma espécie de ilusão, ora vinha ora ia, ora parecia que vinha, mas afinal não. No entanto, este foi a acomodação mais barata da viagem e por 25 euros não se podia pedir muito mais. E afinal como disse, passámos uma boa noite de sono. Acho que será mais problemático quando houver mais pessoas hospedadas porque cada vez que alguém entrava era uma barulheira, mas felizmente naquela noite só aconteceu três vezes e quando ainda estávamos acordados.

Para tomar banho também foi engraçado já que as toalhas de banho eram do tamanho de toalhas de mão. Mas o chuveiro tinha água quente que é um dos pontos mais importantes de qualquer sítio onde fique. Qualquer lugar que fique que me faça ou passar frio ou lavar-me com água fria perde-me de imediato.

Basicamente houve coisas boas e coisas más, mas em geral não digo para não ficarem aqui especialmente se estiverem a viajar com um baixo orçamento.

Saquetas de shampoo e gel de banho

Outra coisa da qual temos de falar é agora a mania de oferecerem shampoo e gel de banho em saquetas. Digo-vos já que não funciona, primeiro a quantidade de gel de banho não é suficiente para lavar o corpo todo. É suposto eu ter de decidir que metade do corpo vou lavar naquele dia? E segundo é que algumas destas saquetas são extremamente difíceis de abrir. Nada é mais triste e até vulnerável para um ser humano do que se ver todo nu dentro de um polibã à guerra com uma saqueta minúscula de shampoo.

É por já ter apanhado muitas destas, e até pior, que já tive em locais que gel de banho nem vê-lo que agora vou munida de shampoo, gel de banho, sabonete, creme de corpo e condicionador para o cabelo. Porque essa é outra, os shampoos dessas saquetas costumam tornar o cabelo numa espécie de esfregão de arame. Para não acabar cada viagem com falhas de cabelo agora vou munida com condicionador. E vá até vos deixem dizer que isto é coisas de mulheres, mas a verdade é que me senti muito presunçosa enquanto espalhava o creme de corpo que tinha trazido de casa depois de me limpar com uma toalha de mão. Se isto não é viver à grande também não sei o que é!

Nota para quem viajar durante a época baixa

A chuva tinha caído torrencialmente durante o dia, mas o tempo melhorou com o cair da noite de tal forma que nos aventurámos a pé até ao restaurante que tínhamos escolhido para jantar perto do hotel, Domaca Trpeza. Enganados estávamos que a meio do caminho começa a cair aquela chuva miudinha irritante, mas fomos teimosos e não quisemos voltar para trás para ir de carro. Infelizmente quando chegámos ao restaurante as luzes estavam apagadas, não havia dúvida nenhuma que estava fechado. Apesar de dizer na internet, mesmo na página do restaurante no Instagram, indicar que estava aberto até às 11 da noite.

Zabljak, cidade no parque nacional de Durmitor onde muitos restaurantes fecham na época baixa

E não foi só em Bar, mas também em Zabljak e até em Kotor que encontrámos vários E não foi só em Bar, mas também em Zabljak e em Kotor que encontrámos vários restaurantes e atracções fechadas por ser época baixa. A primeira vez que tínhamos dado de caras com esta desvantagem de viajar fora da época turística foi nos Dolomitas em Itália e pelos vistos em Montenegro era igual; os locais aproveitam estes meses para férias ou renovações ou para uma merecida pausa. Em Bar rapidamente encontrámos outras opções disponíveis para jantar tal como durante a nossa estadia em Zabljak. No entanto, fiquei com bastante pena que o Kotor alpine coaster, uma espécie de montanha-russa exterior a norte de Kotor onde as paisagens são, ou pelo menos parecem ser, absolutamente espectaculares estivesse fechado desde o início de novembro. Eu confesso que estava bastante entusiasmada com a ideia de andar nestes carrinhos até que descobri que iria fechar uma semana antes de partimos e assim ficaria até abril. Parece ser fantástico, e até mesmo a viagem de teleférico parece valer a pena como podem ver nos vídeos disponíveis no Youtube: Kotor alpine coaster and cable car (Youtube)

Jantar em Banjalučki Ćevap

Como a primeira opção para jantar estava fora do baralho decidimos experimentar outro restaurante, o Banjalučki Ćevap. Era um pouco mais longe, mas pelo caminho fomos passando por alguns restaurantes que estavam abertos e que podiam ser opções se também encontrássemos a porta deste fechada. Contudo desta vez acertámos, não só estava aberto como havia mesas livres. O menu é bastante reduzido já que só há um prato e o que muda é apenas o tamanho, mas vale a pena vir aqui. O prato tradicional disponível é o cevapi, carne picada grelhada em forma de salsicha. Comemos cevapi em outros locais durante a viagem, mas o melhor foi daqui. Há 3 diferentes menus, um que traz 8 cevapi a 5 euros, ou 12 cevapi a 6.50 euros ou o maior com 16 cevapi a 7.50 euros. A carne vem acompanhada com couve branca picada, cebola roxa, um molho que penso ser sour cream e um pão que era absolutamente divinal.

Menu médio de cevapi no restaurante Banjalučki Ćevap

Nós pedimos o menu médio, com 12 cevapi, e cervejas para acompanhar. Acabou por este ser um dos pontos altos do dia especialmente depois dos momentos caricatos passados no lago Skadar e em Stari Bar. Fomos bem atendidos, a comida era deliciosa e a bom preço e no final acabámos a refeição com uma bebida tradicional Rakija (fotografia abaixo) que o empregado disse ser a ‘Sljvovica’ a preferida dele. Rakija revelou ser uma bebida bastante forte feita de ameixa, que lembra bastante o aguardente.

Bastou esta refeição para ficarmos logo bem mais satisfeitos e depois de uma noite bem dormida na Villa Kovacevik no dia a seguir de manhã estávamos prontíssimos para mais um dia. A manhã seguinte, depois de uma noite de chuva intensa, apresentava-se cinzenta, mas naquela altura sem chuva. No entanto este foi o dia mais murcho da viagem exactamente por causa do tempo, mas algum dia tinha de ganhar o prémio de ser o pior da semana.



Visita à igreja ortodoxa de St Jovan Vladimir

Antes de deixarmos Bar para trás quisemos fazer duas coisas, tomar o pequeno-almoço e visitar a igreja ortodoxa de St Jovan Vladimir de edifício imponente que nos tinha chamado a atenção no dia anterior. Saímos do nosso quarto eram 7 e meia e fomos logo para esta igreja que já tinha aberto há meia hora. A entrada para a visita é gratuita e mesmo àquela hora matinal já havia algum movimento.

Igreja ortodoxa St Jovan Vladimir

A primeira coisa que nos chamou a atenção foi o comportamento das pessoas quando chegavam à porta e depois no interior da igreja. À porta, ainda antes de entrar, benziam-se e davam um beijo e depois dentro da igreja faziam o mesmo ritual a cada estátua ou representação de santos. É obviamente uma religião que Deus protege porque não havia ali receios sobre COVID ou algo do género. E não pensem que é uma crítica, não é, talvez mais estranheza, já que em algumas das representações destes santos eram fotografias ou quadros cobertos por um vidro e neste vidro viam-se a marca de muitos lábios.

Quanto à catedral é tão ou mais bonita por dentro como por fora, as cores garridas de azul e de dourados são simplesmente espectaculares.

E esta catedral, igreja ou templo, como a queiram chamar tem uma história interessante por detrás da sua construção. A aprovação da catedral foi dada em 1991 depois de várias manifestações em Bar liderada pelo padre Bogić. Por entremeio, este padre lançou-se num protesto individual no qual passou três dias sem comer e sem beber. Agora o porquê destas manifestações? É que o primeiro pedido para a construção de um local de culto em Bar foi feito pouco depois do terramoto de 1979. No entanto naquela altura o governo de ideologia comunista não aceitou o pedido já que a religião era vista como um inimigo ideológico. Assim a igreja que hoje pode ser visitada é um símbolo de luta contra o estado, contra o sistema e importante símbolo de dedicação à religião ortodoxa em Bar. Há por isso muitas razões para incluir uma visita a esta igreja num itinerário em Montenegro.

Primeiro burek em Burekdzinica Fontana

Depois da visita à catedral estava na hora de irmos tomar o pequeno-almoço. Como em Montenegro ser-se montenegrino quisemos experimentar o pequeno-almoço tradicional, o famoso Burek. Burek é um folhado feito de massa filo que pode ter diferentes recheios, como queijo, carne, espinafres e até batata. E bureks foi talvez aquilo que acabámos por comer mais durante a viagem, de diferentes locais, em diferentes alturas do dia. Mas hoje íamos até ‘Burekdzinica Fontana’, um pequeno café junto ao mercado Zelena Pijaca que pelas muitas reviews era o melhor local para comer estes tais folhados.

Burek do Burekdzinica Fontana

Não tenho a certeza se este foi o melhor da viagem, mas a verdade é que enquanto aqui estivemos vimos locais a entrar, a sair, a sentar-se nas mesas, todos a comer o tal burek. Nós pedimos para beber limonada, já que não havia café, mas recusámos o iogurte. Contudo notámos rapidamente que é com o iogurte a forma mais tradicional de comer burek. No entanto, devo dizer que a limonada era deliciosa por isso não houve aqui qualquer arrependimento na escolha.


Saímos de Bar ainda com o céu cinzento sem chuva, mas isso rapidamente mudou e o tempo foi piorando à medida que avançávamos pela costa de tal forma que quando chegámos à primeira paragem, Sveti Stefan, acabámos por passar muito pouco tempo aqui. Sveti Stefan é uma ilha onde se estabeleceu um resort de luxo, apenas permitida entrada aos hóspedes. A nossa ideia era então passear pela praia que fica de frente e assim ter acesso a várias paisagens desta ilha que é uma das mais fotografadas do mundo. No entanto, a chover a potes, apenas parámos o carro na berma da estrada para tirar uma fotografia rápida.

Sveti Stefan

Apesar de ter passado aqui apenas breves momentos, vou deixar um pouco da história fascinante da origem desta ilha e da sua comunidade. E vou começar pela lenda associada a Sveti Stefan. Para dizer a verdade a sua verdadeira história começa no século XV, pois até então a ilha era habitada por pescadores e as suas famílias. Segundo a lenda, a ilha de Sveti Stefan foi o local onde se estabeleceu as 12 tribos Paštrovići que ajudaram os residentes de Kotor a lutar contra o cerco feito pelos turcos a esta cidade. Durante esta expedição, os guerreiros Paštrovići descobriram navios turcos que não estavam devidamente protegidos e saquearam todas as riquezas que aqui estavam guardadas. Foi decidido que com este tesouro cada uma das 12 tribos contruiria a sua casa na ilha de Sveti Stefan e tornaria esta cidade fortificada para sua própria protecção. E assim nascia uma comunidade autónoma e privada.  

A parte do tesouro não pode ser confirmada e daí tratar-se de uma lenda, mas é verdade que houve uma comunidade formada pelas tribos Paštrovići em Sveti Stefan. No século XV esta ilha pertencia à República de Veneza e por isso era uma zona autómata, uma espécie de ilha protegida dos ataques turcos pelos Venezianos sendo em troca um local importante de comércio e outras actividades marítimas para a República. Tornou-se numa comunidade privada e isolada que com o passar dos tempos sofreu uma descida agravada no número de residentes devido à saída destes para outras cidades e países à procura de mais e melhores oportunidades de trabalho. Especialmente porque a protecção oferecida foi dissolvida com a caída da República de Veneza em 1797.

Mais tarde, em 1940, quando a ilha estava practicamente deserta, decidiu-se construir aqui um resort o qual já ganhou vários prémios e contou com a presença de várias figuras internacionais da realeza e das artes. Este resort ganhou o prémio de La Pomme d’Or (a maçã dourada) condecorada pela Federação Mundial de Jornalistas e Escritores de Turismo (FIJET) em 1972. Este prémio é como uma espécie de Óscar para turismo e Sveti Stefan recebeu-o como sendo o resort mais exclusivo do mundo.

O mosteiro Praskvica fica a norte de Stevi Stefan e daqui pode-se ver a ilha e as muitas casas que nela se encontram. Quanto a este mosteiro crê-se que foi construído em 1050, mas apenas há evidência real da sua existência a partir de 1307 quando o rei sérvio Milutin visitou Kotor. O nome do mosteiro, Praskvica, tem origem numa das características particulares da água de uma das nascentes dali perto, pois diz-se que a água tem um cheiro curioso a pêssegos (praskva em montenegrino). No recinto do mosteiro encontra-se a igreja principal, edifício esse que foi construído no século XIX sobre as ruínas da igreja original do século XV e que protege no seu interior os frescos da antiga igreja. Para além da igreja também existe um edifício que era antigamente uma escola de monges, outro com alojamentos e mais acima na colina um cemitério e um edifício dedicado à Santíssima Trindade construído no século XVII.

A visita ao mosteiro é gratuita tal como o estacionamento. Quando parámos aqui não A visita ao mosteiro é gratuita tal como o parque de estacionamento. Quando parámos aqui não tínhamos a certeza se o mosteiro estava aberto ao público, mas fomos tentar a nossa sorte. As primeiras pessoas que vimos foi perto da igreja onde três homens conversam entre si, sendo um claramente o padre pelas roupas que vestia. Depois de um breve cumprimento foi-nos confirmado que podíamos visitar a propriedade. No entanto, a cena que tínhamos acabado de presenciar, os dois homens em pé e o padre sentado completamente refastelado (como se diz na gíria ‘à patrão’) fez lembrar muitas cenas de filmes onde a religião tem o papel principal em vários negócios criminosos. E nem digo nada, porque o que vimos da religião em Montenegro tem muito que se diga, principalmente depois de visitarmos alguns dias mais tarde o Mosteiro de Ostrog.

Mosteiro Praskvica (paisagem do cemitério)

Quanto à nós visitámos a igreja e depois subimos para a zona do cemitério, onde de facto Quanto a nós visitámos a igreja e depois subimos para a zona do cemitério, onde se consegue avistar a ilha Sveti Stefan. Já quanto à nascente com cheiro a pêssegos, não vimos nenhuma. Felizmente enquanto visitámos o mosteiro, a chuva tinha feito uma pausa permitindo que fizéssemos a visita com calma.


A próxima paragem já era em direcção à parte interior de Montenegro, numa cidade chamada Cetinje antes de nos embrenharmos pelo parque nacional Lovćen. Foi mais difícil encontrar estacionamento em Cetinje do que o esperado, e tivemos de deixar o carro numa berma da estrada mesmo ao lado do mosteiro de Cetinje, o que até calhou bem porque era um dos locais que queríamos visitar e mais uma vez estava a chover e bem. E sim, peço desculpa, como se devem ter apercebido o mau tempo vai ser o tema do dia.

Mosteiro de Cetinje

E foi a chuva a maior razão para que a visita ao mosteiro fosse breve já que não iríamos explorar a parte exterior. Também a igreja não é muito grande, sendo outra das razões para a rápida visita.

A história do mosteiro de Cetinje começa em 1484 como cumprimento de uma promessa feita por Ivan Crnojević quando este esteve em exílio temporário em Itália. A promessa era de que se voltasse novamente à sua terra natal mandaria construir um mosteiro dedicado à Virgem Maria. E foi o que fez, nascendo este mosteiro, que contava com a tal igreja, e também uma capela, essa dedicada a São Pedro. Foram também construídos edifícios esses com efeitos administrativos e residenciais.

Pátio que dá acesso á igreja no mosteiro de Cetinje

Depois do mosteiro, a nossa ideia era a de ir visitar o museu nacional de Montenegro, também ele em Cetinje. Na verdade, o museu fica mesmo ao lado do mosteiro. No Google de acordo com as informações o museu estava aberto, de acordo com a página oficial do museu, ele estava aberto. Mas a realidade é que demos duas voltas ao museu e não encontrámos nem nenhuma porta aberta nem qualquer sinalização a indicar a entrada. Portanto depois das duas voltas e com a chuva a cair desistimos de dar uma terceira. Gostaria imenso de dizer como era o museu, mas infelizmente não o posso fazer.

Depois de Cetinje, a próxima paragem era dentro do parque nacional de Lovćen. Por esta altura a chuva caia intensamente e depois de entrarmos no parque nacional juntou-se-lhe um nevoeiro que se adensou enquanto subimos até ao Mausoléu de Njegos. Para entrar neste parque nacional é preciso pagar o que é feito à entrada do parque onde há uma pequena casinha para o guarda se abrigar. A entrada para o parque custa 3 euros por pessoa. Não só é preciso pagar para visitar este parque nacional como também o parque nacional de Durmitor, cujo bilhete teve um custo de 5 euros. Neste dia como o tempo estava tão mau nem sequer havia guarda e passámos sem ter de pagar. Pouco nos serviu de contentamento já que quando chegámos ao mausoléu encontrámo-lo fechado devido ao mau tempo. Resignámo-nos ao que estava destinado para aquele dia e voltámos para o carro decidindo que tentaríamos voltar aqui no dia seguinte.

Para chegarmos a Kotor desde o parque nacional de Lovcen tínhamos de passar por uma estrada que desce pela colina, chamada a serpentina de Kotor. Como o nome indica esta estrada é formada por curvas e contracurvas muito apertadas e em sequência. Para ser mais precisa são 16 curvas apertadíssimas que percorrem uma distância de 8.3Km.

Na fila à espera de que a polícia chegasse à serpentina de Kotor

Nós estávamos mesmo a fazer a última curva quando encontrámos uma fila de carros completamente parados. É que mesmo na curva tinha havido um acidente entre dois carros, acabando com um deles enfiado na estrutura metálica que protege a berma da estrada. E em Montenegro quando há um acidente é preciso chamar e esperar pela polícia. Aliás esse foi um dos avisos da Europcar quando fomos buscar o carro: que em caso de acidente não saíssemos do local, nem movêssemos o carro até que a polícia chegasse. O que demorou perto de uma hora. A sorte é como estava a chover não tínhamos nada planeado para o resto do dia.

Mas claro que quando se espera há sempre um ‘chico-esperto’ que pensa que é mais inteligente do que os outros. Nesta situação, foi um carro que estava atrás de nós que começou a fazer inversão de marcha. Bem começar, começou, acabar é que não acabou. Ele fez aquele trabalho de tal maneira que não só acabou trancado no meio da estrada como ainda bateu contra a estrutura metálica que estava na berma da estrada. E esteve muito perto de bater noutro carro. Podia dizer que isto era só em Montenegro, mas eu bem sei que há artistas destes em todo o lado.


Depois de finalmente nos vermos livres do acidente e de passarmos o último trecho da serpentina chegámos a Kotor perto das 3 e meia da tarde. E vou começar por deixar a melhor dica em relação ao estacionamento – não procurem mais, ponham esta rua no GPS ou na aplicação que estiverem a usar – para estacionar o carro em Kotor e sem pagar é na rua NJEGOŠEVA. Ao estacionarem aqui estão a evitar stresses e o trânsito caótico da cidade.

Chegada a Kotor

E nós é que fomos parvos por não o ter feito logo à chegada. Na verdade, erámos para deixar o carro aqui, mas na rotunda enganámo-nos na saída e fomos em direcção ao centro de Kotor. Acabámos por estacionar em frente ao centro comercial Kamelija onde se pagava. Outra dica, que eu sei que vão dizer que sabem e que não é novidade nenhuma, mas eu também sei que acontece – se estacionarem aqui tenham a certeza de que tiram o bilhete que sai da máquina. Sim, sim é normal em todo o lado e todos sabem isso e mais não sei quê. Mas o meu marido está convencidíssimo que não saiu nenhum bilhete (eu penso mais que ele não reparou) e nem se pensou muito nisso já que estávamos mais focados em tirar as malas e ir fazer o check-in no apartamento onde iríamos passar a noite. O que levou a que tivéssemos de pagar uma multa quando estávamos mais tarde para sair com o carro e levá-lo para a rua Njegoševa.

Como podem ver este dia estava a melhorar a cada hora que passava. É também para verem que viajar não é sempre magnífico como se quer fazer crer. O guarda do parque de estacionamento acabou por ter pena de nós, mas não tanto que nos deixasse ir embora sem pagar. Mas em vez de pagarmos 50 euros que era o valor da multa, como informa o placard à saída do parque, ele desceu o preço para 30 se pagássemos a dinheiro.

Antes desta história toda da multa se passar e depois de termos deixado as malas no apartamento Palata Bizanti onde iríamos ficar em Kotor, fui ao supermercado do centro comercial, o iDEA onde comprei 2 bureks já que a fome apertava por esta altura, um de queijo e outro de espinafres. Acabámos por comê-los no carro já depois da multa paga e de termos estacionado onde deveríamos ter feito logo quando chegámos. Por isso apesar da experiência mais azeda, a verdade é que os bureks nos souberam pela vida e posso dizer que foram os melhores da viagem (tanto que voltámos ao mesmo supermercado no dia seguinte, para comprar mais destes folhados).

Assim deixo aqui duas lições: primeiro que vejam bem as condições de estacionamento aonde quer que parem o carro e segundo que por vezes a melhor comida está no supermercado local.

Chegada à cidade histórica de Kotor

Kotor e a sua baía são certamente as zonas mais conhecidas de Montenegro, e claro está para quem visita este país Kotor é de passagem obrigatória. Na verdade, para muitos Kotor é a única parte que ficarão a conhecer de Montenegro, especialmente se viajarem de cruzeiro. Porque em Kotor param diariamente cruzeiros turísticos no porto da cidade, e são essas pessoas que enchem as ruas durante o dia. E tendo eu mesmo passado um dia aqui reconheço que a fama de Kotor é-lhe merecida, sendo uma das mais bem conservadas cidades medievais do mediterrâneo.

Cidade medieval de Kotor

A cidade velha de Kotor faz parte do Património Mundial da UNESCO desde 1979, mas não só a cidade faz parte da UNESCO, toda a região de Kotor e a sua baía fazem parte do portfólio devido ao seu valor incontestável tanto natural, cultural como histórico.

Passado de Kotor

Kotor tem um passado bastante conturbado, como quase todas as cidades europeias, para dizer verdade, tendo sido palco de invasões, guerras e conquistas. Kotor esteve sob o domínio de vários povos e países como os romanos, sendo estes considerados os fundadores da cidade, seguidos pelos bizantinos, altura em que Kotor chamava-se Dekaderon. Mais tarde chegou a República de Veneza, o qual domínio foi voluntário da parte dos montenegrinos como estratégia defensiva contra os turcos, depois veio o império austríaco, o francês e mais recentemente a Iugoslávia seguida da União entre a Sérvia e Montenegro até à sua independência em 2006. Com tão diversificada afluência de povos é natural que certos costumes, gastronomias e culturas se tenham infiltrado e estabelecido na de Montenegro. O que torna a experiência em Kotor ainda mais única.

As duas versões da cidade

Chegámos a Kotor a meio da tarde e depois do check-in e mudanças de estacionamento a nossa visita à cidade começou já de noite cerrada. As primeiras impressões foi de uma cidade sossegada, talvez porque tivesse sido um dia de chuva. E quanto mais pela noite adentro entrávamos, mais deserta a cidade ficava. Depois do jantar, ainda demos uma volta pela praça principal e apenas encontrámos um punhado de pessoas. E foi esta a versão da cidade, mais intimista, até misteriosa que nos recebeu.

A versão mais intimista da cidade de Kotor

Tudo mudou no dia seguinte, a partir do meio da manhã. Logo de manhã quando começámos a subir a fortaleza de San Giovanni vimos um grande cruzeiro a entrar pela baía de Kotor e mais tarde a atracar no porto. Quando regressámos a cidade estava apinhada de gente, com várias excursões a passear pelas ruas e praças da cidade. Kotor tinha-se transformado completamente. Os restaurantes e cafés encheram-se, havia filas para entrar nas igrejas, uma cidade que parecia ter acordado de repente numa espécie de festa.

Pessoalmente prefiro a primeira versão, mais sossegada e sem caos. Mas reconheço que a cidade de Kotor precisa do financiamento económico que provém do turismo para manter o seu estado de preservação. Aconselho a se puderem passar uma noite em Kotor para ficarem a conhecer ambas as versões desta cidade.

Apartamento Palata Bizanti

Para passar a noite em Kotor quisemos ficar o mais próximo possível do centro da cidade medieval. Escolhemos o apartamento Palata Bizanti que ficava numa rua apertada bastante perto da catedral de São Trifão. Para entrar usámos os códigos que nos tinham sido enviados durante o dia, um para o portão que nos levava para dentro um pátio bastante pitoresco e outro para a porta do apartamento que era acedido através de umas escadas. Para quem tem problemas de mobilidade as escadas podem ser um problema, mas se não forem aconselho imenso a considerar este local como acomodação.

O apartamento Palata Bizanti foi sem dúvida um dos locais mais marcantes da viagem, talvez o segundo melhor, ficando o de Zabljak (parque nacional de Durmitor) à frente pois fiquei enamorada pela lareira. Quanto a este apartamento o que o mais o caracteriza é o espaço – era enorme! O quarto era grande, a sala então nem se fala. Certamente uma das partes mais impressionantes do apartamento. A decoração e a limpeza não davam qualquer hipótese à crítica. E a localização não podia ser melhor, porque mesmo estando no coração da cidade, a separação da rua pelo pátio dava uma certa privacidade que foi bem-vinda. A estadia neste apartamento ficou-nos a 72 euros (sem contar com a taxa de turismo – 2 euros por pessoa) que pagámos no dia deixando o dinheiro à entrada do apartamento como nos foi pedido.

Para reservar com este apartamento vejam: Booking.com

Igrejas em Kotor

Depois da parte prática resolvida, isto é, de pormos as malas no apartamento e arrumarmos as nossas coisas estava na hora de sair e tentar aproveitar as últimas horas desta tarde. Decidimos para isso visitar as igrejas incluídas no nosso itinerário.

Igreja ortodoxa de São Pedro de Cetinje

A primeira igreja foi a igreja ortodoxa de Montenegro dedicada a São Pedro de Cetinje, a qual pode passar facilmente despercebida sendo a entrada feita por umas escadas estreitinhas. A igreja em si também é bastante modesta em termos de tamanho, apenas uma sala simples com um bonito altar.

Igrejas de São Lucas e São Nicolau

Em seguida fomos visitar a igreja de São Nicolau e depois a de São Lucas. As igrejas ficam em frente uma da outra apenas separadas por uma pequena praça. A igreja de São Nicolau talvez seja a mais notável devido às torres laterais à entrada da igreja. Deixo aqui a ressalva que a entrada para estas duas igrejas tal como para a igreja mencionada acima, é completamente gratuita. Primeiro fomos à igreja de São Nicolau, considerada como a igreja ortodoxa mais importante de Kotor construída no século XX sob as ruínas da igreja que ali existia antes e que foi destruída num incêndio no século XIX.

Apesar da igreja de São Nicolau ser a mais imponente foi em frente da igreja de São Lucas que encontrámos um pequeno aglomerado de pessoas todas com a mesma intenção, a de entrar dentro da igreja. Esta igreja está associada a uma espécie de guerra de poderes entre a religião católica e a ortodoxa. A igreja de São Lucas foi originalmente contruída para os católicos da cidade no século XVII. No entanto, durante e após a guerra com os turcos houve uma rápida e significativa subida no número de pessoas de crença ortodoxa a viver em Kotor, especialmente entre 1657 e 1812. Devido à pressão religiosa esta igreja tornou-se num templo ortodoxo, que até aos meados do século XIX partilhava dois altares, um católico e outro ortodoxo.

Muralhas da cidade

Ainda tentámos visitar a catedral de São Trifão, mas tivemos de deixá-la para o dia seguinte. Àquela hora, isto 6 e meia da tarde, a igreja já não se encontrava aberta ao público, apenas para os devotos que quisessem rezar. Acabámos por dar mais uma volta pelas ruas estreitas de Kotor antes de subirmos às muralhas da cidade pela entrada que fica perto do teatro de Napoleão. Apesar das muralhas darem a volta à cidade fizemos apenas o troço que segue junto ao rio. Estas muralhas fazem parte da fortaleza de San Giovanni que sobem pela colina acima. Subida essa que tínhamos agendada para o dia seguinte de manhã bem cedo.

Depois do breve passeio e já sem mais locais que pudéssemos visitar naquele dia voltámos para o apartamento para nos arranjarmos para jantar.

Restaurante La Catedral Pasta Bar

Para jantar havia várias opções, mas queríamos principalmente um restaurante que ficasse perto do apartamento e que não fosse muito caro (que os 30 euros da multa pagos no parque de estacionamento dos quais falei no último post ainda estavam bem frescos na nossa memória). Acabámos por escolher La Catedral Pasta Bar. Este é um daqueles restaurantes que está espalhado por todas as redes sociais, e apesar de normalmente evitar ir a esses lugares desta vez fomos ver se a fama tinha razão de ser.

Chegámos ao restaurante, que na verdade é bastante pequeno apenas com mesas na parte exterior (penso que 8 mesas), numa zona coberta com aquecedores de pé alto e cobertores disponíveis para os mais friorentos. Eu que sou uma delas estive bastante confortável durante toda a refeição. Tal como o nome indica este restaurante especializa-se em pratos de massa, mas também oferece outras opções como saladas ou entradas como bruschetta. Nós escolhemos pratos de massa, ‘Sicilijana’ e ‘Pollo’ e posso dizer que foram os melhores pratos de massa que comi na vida. As porções eram enormes, muito saborosas e acabámos por dividir os dois pratos, o que permitiu ter uma experiência diferente de sabores. Os preços de cada prato variavam entre os 13 e os 15 euros os quais foram bastante razoáveis. Para além da comida, o serviço também foi rápido e atencioso. Sem dúvida, um dos locais ao qual voltaria em Kotor. Veredicto: a fama que tem nas redes sociais é merecida.

Instagram da La Catedral Pasta Bar: https://www.instagram.com/lacatedralkotor/

E até se pode dizer que a cozinha italiana faça de certa maneira parte da gastronomia de Montenegro devido aos laços históricos que une ambos os países.

Depois do jantar, completamente a abarrotar, fomos dar mais uma volta pela cidade. No entanto, não demorámos muito a voltar ao apartamento já que no dia seguinte teríamos de nos levantar bastante cedo para subir a fortaleza de Kotor.



Fortaleza de Kotor (forte de San Giovanni)

Subir até ao topo do forte de San Giovanni é uma das actividades mais populares em Kotor. Aliás é impossível não sentir o apelo ao olhar pela colina acima. O topo da fortaleza fica a 280 metros acima do mar e sobe desde Kotor por uma série de lanços de escadas com um total de 1350 degraus. A paisagem do topo é espectacular, tal como se espera, mas as bonitas paisagens de cidade e da baía vão aparecendo pelo caminho onde há vários pontos para parar.

Ruínas do castelo de San Giovanni no topo do forte de Kotor

Para começar (e acabar) este percurso há três opções, sendo apenas uma delas gratuita. O que surpreendentemente não foi a nossa opção devido a restrições de tempo já que queríamos voltar ao mausoléu de Njegos que não pudemos visitar no dia anterior devido ao mau tempo. Mas voltemos ao início. Saímos do apartamento Palata Bizanti às 7 horas da manhã com um céu azul e sem nuvens para uma cidade practicamente deserta àquela hora matinal. Para começar a subida pela fortaleza seguimos a entrada II como indica no Google Maps ‘Entrance (II) to Fortress’ que tem uma cancela que àquela hora estava aberta. Isto porque a cancela e os pagamentos para o acesso à fortaleza começam às 8 da manhã. Nós pagámos os 15 euros de acesso à saída.

Começámos a subir com vagar, sempre parando depois de cada lanço de escadas tanto para ver a paisagem, como para tirar fotografias como para descansar. E acabou por não ser uma subida tão difícil como temíamos. A subida demorou cerca de 1 hora, e a descida levou practicamente o mesmo tempo porque queríamos mesmo aproveitar aquele passeio único. Durante a subida também parámos junto à igreja da Nossa Senhora dos Remédios que pelo menos quando passámos estava de portas fechadas. No topo encontrámos as ruínas do castelo de San Giovanni (São João em português) onde passámos algum tempo a explorar.

Agora aquilo que todos querem saber: como se faz este percurso sem pagar?

Há um caminho que começa nas traseiras do centro comercial Kamelija e que sobe pelo lado detrás da fortaleza sendo a paisagem mais virada para as montanhas do que para a cidade. A certo ponto vão encontrar uma escada que sobe para a fortaleza sendo a entrada feita por uma pequena abertura, uma espécie de janela. Depois para voltar para trás têm de fazer o mesmo caminho senão vão encontrar a cancela onde se faz o pagamento. Podem também fazer como nós, ou seja, começar a subida antes das 8 da manhã e depois voltar pelo trilho usando a tal escada. Enquanto pesquisava o que fazer em Kotor li em alguns locais que a escada tinha sido removida, mas eu vi a escada quando passei por aqui em novembro de 2025.

Caminho para a fortaleza de San Giovanni onde não se paga

Se voltasse a fazer o percurso seria certamente isso que faria, sairia cedo o suficiente para não pagar e depois voltaria pelo outro caminho não só para não ter de pagar mas também para ter um tipo de paisagem diferente.

Agora quanto ao trajecto que fizemos, quando vínhamos a descer houve outro episódio caricato para juntar a esta viagem. Mesmo quando estávamos a chegar ao fim da descida reparámos que havia outro caminho que ir dar ao pé da igreja de Santa Maria Collegiate e decidimos ir por esse caminho. No entanto, ao chegar à saída estava um homem que se dizia ser o guarda com uma conversa bastante estranha, que senão tínhamos bilhetes não podíamos passar por ali e que ele tinha lá estado desde as 7 da manhã. No final acabou por dizer que se não queríamos pagar teria de chamar a polícia, e continuou com esta conversa em tom de ameaça mesmo depois de termos dito que queríamos pagar. Bem no final voltámos para trás e seguimos pelo caminho por onde tínhamos começado o percurso. E imaginem que na cancela pagámos os 15 euros sem qualquer problema nem receber nenhuma ameaça. Parece-me que aquele homem era mais um maluquinho de Montenegro.

Kotor

Fazendo então um achado da experiência, independentemente do caminho que se decida fazer, subir ao forte de San Giovanni é algo que recomendo para se ter a oportunidade de passar por aquela que foi a estrutura mais importante na estratégia defensiva da cidade e que mantém a sua forma original desde  a altura que Kotor estava sob o domínio da República de Veneza.

Catedral de São Trifão

Quando chegámos de volta ao centro de Kotor a cidade estava completamente mudada ou melhor, apinhada. Era pessoas por todo o lado. Quando começámos a subida tínhamos reparado (difícil de não o fazer) num cruzeiro que entrava pela baía de Kotor e que mais tarde atracou no porto. Pois eram as pessoas que vinham nesse cruzeiro que agora enchiam as ruas da cidade.

Para não perder tempo fomos directamente para a catedral de São Trifão onde já várias excursões esperavam a sua vez para entrar. Nós pagámos o bilhete que nos custou 4 euros para visitar tanto a igreja como o museu.

Paisagem da pequena varanda do museu pertencente à catedral de São Trifão

O nome da catedral, São Trifão, deve-se às suas relíquias que estão guardadas aqui desde o século IX. Ou melhor guardadas aqui em Kotor, que esta não é a catedral original. A primeira igreja que ficava mesmo ao lado da actual foi construída no século IX e posteriormente destruída por um incêndio. Em seu lugar foi construída esta igreja de maiores dimensões em 1166. Apesar da catedral ainda estar ali de pé, a verdade é que já passou por vários terramotos como o do século XVI e o de 1979 que lhe causou diversos danos, tendo sido restaurada após cada evento.

No museu que fica na parte superior encontram-se várias peças de ouro e de prata, frescos e claro as relíquias de São Trifão. Há que ressalvar que o museu desta catedral é um dos mais antigos da Europa.

Os gatos de Kotor

Depois da visita à catedral fomos andando por Kotor enquanto nos decidíamos o que fazer a seguir, se ir explorar as muralhas ou ir tomar o pequeno-almoço. Neste nosso passeio passámos por um pequeno jardim, o ‘parque dos gatos’, onde vários gatos estavam a ser alimentados por uma senhora que pensamos ser uma local. Parámos por momentos e acabámos sem querer por ouvir a conversa entre esta senhora e uma turista. A turista naquele momento estava a agradecer à senhora por estar a alimentar os gatos. O mais surpreendente, ou talvez não seja assim tão surpreendente, talvez eu é que seja ingénua, respondeu que ao contrário do que se pensa nem todas as pessoas na cidade de Kotor tomam conta dos gatos, na medida que nem todas as pessoas alimentam e acarinham estes animais.

No parque dos gatos em Kotor

E são os gatos importantes na cidade de Kotor? E porque há assim tantos? Bem os gatos tornaram-se num símbolo não oficial da cidade, já que o símbolo oficial é o leão de Veneza (e o que é um gato senão um leão em tamanho mais pequenino?). E há muitos gatos, por toda a parte. Se gostam de gatos então vão gostar de Kotor. E todos eles são muito meiguinhos e de certa forma pareceram-nos bem tratados.

Inicialmente, os gatos foram trazidos pelos pescadores para combater os ratos que estavam a invadir Kotor. Na verdade, os pescadores tinham os gatos para apanhar os ratos e as cobras que andassem pelos seus barcos e quando atracavam eram depois trazidos para a cidade pela mesma razão. Com o aumento da população de gatos, estes tornaram-se um símbolo de boa sorte e fazem parte do folclore de Kotor como salvadores da cidade. Por exemplo diz-se que os gatos salvaram a cidade da peste negra. No entanto, o crescimento da população felina tornou-se incontrolável, mas felizmente neste momento há algumas organizações que tentam não só controlar o número de gatos abandonados através da infertilizarão como dar-lhes melhor qualidade de vida oferecendo cuidados de saúde.

Eu creio que em regra geral pela aparência dos gatos e pelo seu comportamento que estes são bem tratados não só pelos locais, mas também pelos turistas. Mas acredito que este esforço seja parte da caridade e carinho que os residentes de Kotor têm pelos gatos e que talvez nem todos façam o mesmo esforço daí o comentário da senhora que os alimentava. Também há em Kotor o museu do gato, o qual gostaria de ter visitado, mas infelizmente o museu fecha durante a época baixa. Quem estiver em Kotor entre 1 de maio e 31 de outubro não deixe de visitar este museu.

Página oficial do museu do gato em Kotor: https://www.catsmuseum.org/

Pastelaria Senso Kotor e bolo Krempita

Ainda subimos às muralhas no mesmo sítio do dia anterior, mas logo decidimos que estava na hora de irmos comer qualquer coisa. No dia anterior tínhamos passado por uma pastelaria que nos tinha chamado a atenção especialmente o placard à entrada sobre um bolo tradicional em Kotor de nome Krempita. Pois bem, foi mesmo aí que fomos parar, na pastelaria Senso Kotor.

A pastelaria em si é bastante pequena, mas conseguimos arranjar os únicos dois lugares disponíveis naquele estabelecimento. Para além de Krempitas há também croissants, potes de iogurte e muesli e os famosos burek. Havia também na montra outros folhados em forma de argola que penso ser de maçã. Para mim tinha de ser um latte e um bolo krempita. Confesso que quando vi os tais bolos pensei, ‘mas isto é um mil folhas’ e é o que parece, e certamente o sabor também é bastante parecido. Mas não me arrependo nada de vir experimentar o Krempita, o creme de baunilha não era muito doce e combinava perfeitamente com as três camadas de massa folhada, o que parece ser uma das diferenças deste bolo com outros do género.

Em baixo podem encontrar a tradução da informação sobre o bolo Krempita que está à entrada da pastelaria Senso Kotor:

Kotor Krempita

Esta deliciosa massa folhada recheada com creme, conhecida localmente como Kotorska Krempita, é uma sobremesa tradicional muito apreciada na cidade velha de Kotor. Acredita-se que foi introduzida há séculos e tem sido preparada com carinho por gerações de famílias locais. O que torna a Kotorska Krempita única são as suas três camadas de massa leve e folhada recheadas com um creme de baunilha rico e sedoso – uma versão luxuosa em comparação com a clássica de duas camadas encontrada noutros locais. Ganhou fama em meados do século XX, quando era vendida na famosa padaria ‘Zdravljak’, na cidade velha de Kotor. Após o terramoto de 1979, continuou o seu doce legado perto da Praça de São Trifão, onde habilidosos padeiros transmitiram a receita original. Embora originalmente se chamasse Kotorska Pašta, a sobremesa ficou mais conhecida como Kotorska Krempita – um nome hoje reconhecido em toda a região.

Pode-se até pensar que o bolo Krempita não se distingue o suficiente dos outros mais conhecidos para vir até a esta pastelaria. O que é completamente errado. Para mim este pequeno-almoço não teve nada de mau e tudo de bom. Café e bolo, o quê mais se quer para se ser feliz?

Instagram da pastelaria Senso Kotor: https://www.instagram.com/sensokotor/

Muralhas da cidade

Antes de deixarmos Kotor fomos passear pelas muralhas da cidade agora entrando pelo lado oposto ao do dia anterior onde fica o bastião de Gurdić. O troço entre esta entrada e a torre de Kampana tem uma distância de cerca de 700 metros e passa por detrás de Kotor dando uma perspectiva da vida diária na cidade, talvez não tão glamorosa, mas mais real. Neste curto passeio vimos imensos gatos deitados ao sol ou também eles a fazerem este percurso dentro das muralhas, quem sabe se há procura ou à caça de um rato.

E foi aqui nestas muralhas que acabámos a nossa visita a Kotor. Uma cidade que certamente marcou a nossa viagem em Montenegro.


Deixando Kotor para trás, fomos tentar novamente a nossa sorte com o mausoléu de Njegoš tendo que para isso entrar novamente no parque nacional de Lovćen. Para chegarmos aqui desde Kotor tínhamos duas opções, ou subimos pela serpentina de Kotor onde tínhamos uma maior probabilidade de encontrar ou estar envolvidos num acidente como o do dia anterior ou então poderíamos ir pela costa até Budva e depois passar por Cetinje e aí entrar para o parque nacional. A diferença era não só no tipo de estrada, sendo sem dúvida o melhor caminho o da costa, mas também a distância. Enquanto indo pela serpentina de Kotor a distância era de 35Km com uma duração estimada de 1 hora, passando por Budva a distância subia drasticamente para 75Km com uma duração de 2 horas. Eu sei que pela lógica ir pela serpentina de Kotor era a melhor opção, mas depois de termos passado pela serpentina e estado 1 hora à espera que resolvessem o acidente no dia anterior, decidimos ir por Budva.

Bilhetes de entrada para o parque nacional de Lovćen

Desde o momento que passámos por Budva até entrarmos no parque nacional de Lovćen, o céu azul tornou-se cinzento e quando chegámos ao mausoléu o nevoeiro tinha chegado. Ao contrário do dia anterior, à entrada do parque nacional estava lá o guarda que nos cobrou os bilhetes de entrada, 3 euros a cada um que teve de ser pago a dinheiro. O mausoléu felizmente estava aberto, mas como estava nevoeiro a vista panorâmica era inacessível e por isso naquele dia a entrada era gratuita, o que nos fez poupar 16 euros (bilhete de entrada custa 8 euros por pessoa). Pelo menos não esteve tudo perdido.

Deixámos o carro no mesmo sítio do dia anterior e fomos em direcção à entrada do mausoléu um pouco a medo, a perguntar-nos se teríamos gasto 2 horas de caminho para encontrar o mausoléu fechado. Mas hoje não havia nenhuma corrente a impedir a entrada. De nevoeiro cerrado à nossa volta começámos a subir a escadaria de 461 degraus. Ainda antes passámos pela entrada de um restaurante e de uma loja de recordações que penso ser onde se vendem os bilhetes para visitar o mausoléu.

Entrada para o mausoléu de Njegoš

O mausoléu fica a uns impressionantes 1660 metros acima do nível do mar sendo este o mausoléu mais alto de todo o mundo. O mausoléu em si tem dois andares, no primeiro encontra-se à entrada duas estátuas enormes de mulheres que alguns historiadores pensam ser a mãe e a irmã de Petar II Petrović-Njegoš. No interior encontra-se a estátua de Petar II, poeta e líder político de Montenegro e no piso inferior o túmulo onde os seus restos mortais repousam. Do mausoléu tem-se acesso a uma estrutura circular de pedra que em dias de bom tempo oferecem uma paisagem panorâmica de 360º podendo-se não só avistar a região envolvente, o lago Skadar e até as montanhas do parque nacional de Prokletije mas também a Albânia, as montanhas da Sérvia e a costa de Itália.

A meu ver o nevoeiro deu ao mausoléu uma dimensão de grande austeridade, criando uma atmosfera ainda mais impressionante principalmente à entrada onde se encontram as grandes estátuas como guardas do túmulo.  

Quem era Petar II Petrović-Njegoš?

A vida de Petar II Petrović-Njegoš é fascinante e vale certamente a pena conhecer um pouco sobre ela. Eu vou deixar aqui linhas muito breves como um simples apanhado de uma vida cheia.

Petar II Petrović-Njegoš foi o líder espiritual e político de Montenegro (um título designado por Vladika) entre 1830 e 1851 depois da morte de seu tio, Petar I. Apesar de Petar II ter ocupado o lugar de Vladika a verdade era que tal parecia improvável no início da sua vida tendo Petar II dois irmãos mais velhos que eram os herdeiros deste título. No entanto, o irmão mais velho morreu bastante cedo e o irmão ‘do meio’ quis ficar na Rússia quando este foi mandado para o país na intenção de receber a devida educação. Petar II, nome de nascença Radivoje, foi então enviado para o mosteiro de Cetinje para receber a educação apropriada como sucessor de Petar I. Quando o seu tio morreu este não tinha oficialmente nomeado o seu sucessor e muitos da região não concordavam que Radivoje fosse o herdeiro certo para o posto. No entanto Radivoje acabou por ser eleito pelas tribos da região e assim nasceu Petar II.

Petar II no contexto político

O reinado de Petar II Petrović-Njegoš ocupou um período da história que contou com distúrbios constantes, como a guerra entre as tribos da região e os turcos, a guerra com a Áustria e com a intervenção constante da Rússia que fez pressão para a criação do Senado Governante cujos membros eram escolhidos pelo governo russo. O objectivo do Senado Governante era o de limitar o poder de Vladika e influenciar nas decisões a favor da Rússia. É também preciso contextualizar Montenegro de 1830, uma sociedade primitiva formada por um aglomerado de tribos rivais.

Uma das medidas impostas por Petar II durante o seu reinado foram as taxas, tipo impostos, que claro não foram bem recebidas pelas tribos, muitas das quais recusaram em pagar-lhe. No entanto, a sua implementação foi para tentar diminuir a dependência financeira da Rússia e potenciar o crescimento de Montenegro.

Petar II como poeta

Apesar do seu lugar na política, Petar II ficou mais conhecido pelas suas obras literárias como poeta, sendo ele para a Sérvia como Skakespeare para Inglaterra. A sua maior obra, Gorski Vijenac (‘a coroa da montanha’ em português) foi alvo de uma popularidade incomparável a qualquer outra obra de um escritor desta parte do mundo. Gorski Vijenac foi traduzido em várias línguas, incluindo em inglês, o que foi feito em 1930.

Túmulo de Petar II Petrović-Njegoš

Quem introduziu Petar II à poesia e à arte de escrever foi Sima Milutinović que veio para Montenegro em 1827 como secretário de Petar I. Os horizontes literários de Petar II foram mais tarde alargados durante as suas viagens à Rússia e à Áustria onde teve contacto com vários escritores, poetas e outros artistas.

Breve história sobre o mausoléu de Njegoš

O mausoléu de Njegoš foi construído em 1971 onde antes existia uma igreja ortodoxa. Essa igreja tinha sido construída em 1845 a mando de Petar II dedicada a seu tio, Petar I. Era nesta igreja que Petar II desejava que os seus restos mortais fossem depositados.

Quando Petar II morreu em 1851 o seu corpo foi levado para o mosteiro de Cetinje. Mais tarde em 1855 foi movido para esta igreja no topo do parque nacional de Lovćen onde permaneceu até 1916. Durante a Primeira Guerra Mundial os seus restos mortais retornaram ao mosteiro de Cetinje como estratégia política por parte da frente Áustria-húngara. Mais tarde, já na Segunda Guerra Mundial, a igreja ortodoxa foi severamente danificada. Em seu lugar, construiu-se o mausoléu de Njegoš em 1971 e finalmente os restos mortais de Petar II foram tresladados para esta localização em 1974, ano em que o mausoléu de Njegoš foi oficialmente inaugurado.

Depois da visita ao mausoléu metemo-nos novamente no carro agora em direcção a Budva. Confesso que tenho alguma pena de não ter tido oportunidade de fazer um trilho ou outro no parque nacional de Lovćen, mas mesmo de carro a viagem foi bastante bonita. Pelo menos ainda houve oportunidade de tirar uma ou outra fotografia pelo caminho.

Parque nacional de Lovćen
Parque nacional de Lovćen

À saída deste parque nacional ainda parámos na estação de teleférico de Kotor, naquela altura infelizmente fechada, onde dizem ser um dos melhores pontos panorâmicos sobre Kotor. Contudo não tivemos muita sorte, mesmo com o nevoeiro dissipado as nuvens baixas não nos permitiram ver a cidade. Mas parece-me valer imenso a pena vir aqui especialmente quando o teleférico e o café Monte 1350 Bar estão abertos.

Sendo assim só nos restava ir para Budva e tentar ver o pôr do sol o que em novembro acontece às 4 e meia da tarde.


Budva estava no nosso itinerário com um ‘?’ sendo um daqueles lugares que iríamos se tivéssemos tempo. Pelo que lemos e depois confirmámos quando aqui estivemos, Budva tornou-se numa cidade de resorts mais virada para o turismo perdendo um pouco a sua alma local. Contudo, gostámos de passear pela cidade velha, como se estivéssemos entrado num mundo à parte. Pela sua atracção ao turismo estacionar em Budva pode ser bastante complicado e/ou caro por isso nem tentámos ir com o carro para o centro da cidade. Felizmente conseguimos parque de estacionamento gratuito ao pé do restaurante Vista Vidikovac. Há aqui um parque de estacionamento que é reservado apenas para os clientes do restaurante, mas pode-se estacionar livremente numa pequena faixa de terra. Não há é muito espaço, talvez dê para 8 carros no máximo e bem apertadinhos. Para alguns este parque de estacionamento não lhes vai agradar porque para chegar ao centro da cidade velha é preciso andar, primeiro a descer e depois no regresso a subir. Mas nós não nos importámos, já que o que nos interessava era arranjar lugar de uma maneira relativamente fácil. Não posso dizer que fiquei a conhecer bem Budva já que só passámos aqui duas horas, mas o que sei é que o pôr-do-sol que vimos foi lindíssimo.

De acordo com fontes históricas, a cidade medieval de Budva é uma das cidades mais antigas do Adriático contando com mais de 2500 anos, tendo sofrido vários danos durante os terramotos de 1667 e 1979. Dentro da cidade velha encontra-se a murada citadela cujos relatos colocam a sua existência desde o século V a.C.

Quanto à nossa visita passeámos pelas ruas bonitas, estreitas e empedradas da cidade velha até chegarmos perto da costa. Não fomos dentro da citadela já que era preciso pagar entrada e ficámos na praça rodeados pela igreja de São Sabba, o Santificado e pela igreja da Virgem Maria. Daqui também se podia avistar a igreja da Santíssima Trindade. Àquela hora o mar a bater nas rochas, o céu a pintar-se de rosa e a música tocada por uma guitarra tornaram aquele pôr-do-sol bastante especial.

Pôr do sol em Budva

Depois de estarmos aqui um bom bocado a vermos a paisagem começava a chegar a fome. Ainda voltámos às ruas de Budva mas ou não encontrámos nada que nos agradasse para petiscar ou os locais que queríamos estavam fechados. Já quase de noite subimos por escadas e rampas entre as casas de Budva, em vez de seguirmos pela estrada principal de regresso ao carro o que ofereceu uma experiência um pouco mais real da vida diária nesta cidade. Acabámos por ‘matar o bichinho’ já em Kotor com uma ida ao supermercado iDEA, em busca de bureks que tínhamos já experimentado no dia anterior e adorado.


Perast (parte 1)

Perast é uma cidade costeira perto de Kotor, apenas a 15km de distância. Nós decidimos ficar em Perast por dois motivos, primeiro para começarmos a fazer parte do caminho que nos levaria até ao parque nacional de Durmitor e segundo para visitarmos a ilha da Nossa Senhora das Rochas, a actividade mais popular desta região. Perast é uma cidade bastante pequena, nem sei bem se é cidade ou vila, com ruas muitas pitorescas que nasceu à volta da baía. O seu grande crescimento aconteceu durante o período em que Montenegro esteve sob o domínio da República de Veneza especialmente a partir de 1482.

Perast na baía de Kotor

Nós depois de pararmos em Kotor para uma rápida pausa e comer os burek do supermercado iDEA viemos para Perast onde iríamos ficar alojados naquela noite. Quando lemos sobre o estacionamento em Perast, pareceu-nos que muitos viajantes tiveram vários problemas e por isso escolhemos um local para passar a noite que incluísse também estacionamento. Não sei se para meados de novembro tal era necessário porque Perast à noite e de manhã cedo estava completamente vazia, mas pelo menos tivemos isso assegurado. E o local onde ficámos não foi de todo mau para além que o dono do apartamento foi bastante atencioso estando à nossa espera quando chegámos para nos indicar o estacionamento.

Apartamento Jovanović Perast

O apartamento Jovanović Perast fica na estrada principal com vista para a baía. Há dois apartamentos que podem ser arrendados no andar debaixo da vivenda enquanto o dono mora com a sua mãe no andar de cima. O nosso apartamento era bastante grande, sendo a sala cozinha e quarto juntos num espaço aberto. O que não me pareceu foi que a higiene fosse uma das maiores prioridades. Nada que nos fizesse sentir nojo, mas notava-se nos detalhes, pó aqui, uma mancha ali. Mas como disse nada que nos deixasse preocupados em passar aqui a noite. Para além do apartamento tínhamos um terraço comum a ambos os apartamentos onde havia mesas e cadeiras onde nos podíamos sentar e disfrutar a paisagem.

O nosso apartamento de Jovanović Perast

A noite no apartamento Jovanović Perast ficou-nos a 45 euros que marcámos no habitual Booking.com. O pagamento foi feito a dinheiro, o qual fizemos na manhã seguinte antes do check-out. Para fazer reservas através desta plataforma vejam o seguinte link: Apartamento Jovanović Perast

Restaurante Armonia

Em seguida fomos à procura de um restaurante onde pudéssemos jantar. Mas ainda antes fizemos um pequeno passeio de reconhecimento por Perast. Do apartamento Jovanović Perast até ao cais tivemos de descer vários lanços de escadas e curiosamente alguns deles passavam por terraços de casas privadas. Posso dizer que foi um pouco estranho passar um destes terraços na manhã seguinte enquanto o dono da casa tomava ali o seu pequeno-almoço. Mas durante a noite encontrámos mais gatos do que pessoas – Perast era uma cidade-fantasma. Mas isso não diminuiu em nada a beleza das ruas pitorescas e dos vários barcos que pousavam nas águas calmas e escuras da baía.

Perast à noite

Para jantar eu queria experimentar um prato tradicional que mais uma vez reflecte a influência da cozinha italiana em Montenegro – risoto preto (crni rižot) com chocos e tinta de choco o que lhe dá a característica cor escura. Este risoto é um prato tradicional mais da zona costeira do que do interior de Montenegro e felizmente encontrámos um restaurante aberto que tinha este item no menu, o restaurante Armonia.

O restaurante estava vazio e assim esteve durante toda a refeição. E pareceu-nos que os empregados do restaurante até nos queriam ver pelas costas para eles próprios puderem irem-se embora. Não que tivessem sido rudes, nem antipáticos, simplesmente o serviço pareceu-nos um pouco apressado. Pedimos o risoto e também um prato de chocos grelhados que veio acompanhado com couves e batatas cozidas. Apesar dos chocos estarem bem cozinhados o prato não nos pareceu que valesse o preço. Quanto ao risoto só posso dizer que era muito bom. Nós dividimos os pratos entre os dois, e o risoto foi claramente o vencedor. E apesar de ser um prato bastante pesado, a adição do limão fez com que o risoto não se tornasse enjoativo. Durante a refeição também tivemos direito a uma queda de luz que foi rapidamente resolvida pelos empregados. O que não tivemos direito foi a sobremesa, que nem sequer nos perguntaram se queríamos ver a carta.

Crni rižot (risoto preto) do restaurante Armonia em Perast
Prato de chocos grelhados do restaurante Armonia em Perast

Quando saímos do restaurante fomos andar mais um pouco junto ao cais e quando voltámos para trás, 10-15 minutos depois de sairmos, passámos pelos empregados do restaurante e confirmámos o que suspeitávamos, eles queriam que nos fossem embora para fecharem o restaurante. Mas como digo, nunca foram indelicados, nem sentimos que estávamos a ser forçados a comer a correr. E se até gostaria de ter visto as sobremesas, a verdade é que foi uma desculpa para comer um bolo no dia seguinte ao pequeno-almoço. E se também querem experimentar o risoto, recomendo sem dúvida este restaurante.

Instagram do restaurante Armonia em Perast: Instagram Armonia

Para o resto da noite só nos restava passear um pouco mais pelas ruas de Perast, dar umas festas a um gato que por ali andava e voltar a subida a escadaria até ao apartamento. Afinal o dia seguinte era para começar bem cedo.



Pequeno desastre

E começou. Ainda não eram 8 da manhã e já estávamos novamente a descer as escadas em direcção ao cais. Isto porque esta parte do itinerário era para ter sido feita no dia anterior, mas como quisemos visitar o mausoléu de Njegoš tivemos de mudar a visita a Perast e à ilha da Nossa Senhora das Rochas para hoje de manhã. E no final do dia tínhamos que estar em Žabljak, no parque nacional de Durmitor, onde tínhamos o próximo alojamento reservado.

No entanto, àquela hora não se via ninguém por ali e os barcos continuavam parados no cais. Andámos a passear um bocado pela estrada junto à água, agora à luz do dia, e a certa altura pensei que queria sentir a temperatura da água. Afinal não me podia ir embora sem tocar no mar Adriático. E assim foi, dirigi-me para uma zona onde havia dois degraus sem me aperceber do quão escorregadios estavam. Pois é que nem deu tempo para pensar, bastou pôr o pé no segundo degrau para deslizar imediatamente para dentro de água e ficar a experimentar bem a temperatura do mar Adriático da cintura para baixo. E não foi mais porque o meu marido teve a presença de espírito de me agarrar imediatamente e puxar-me para fora. É que eu nem conseguia sair de dentro de água sozinha. Já cá fora no início disse que não era preciso ir mudar de roupa como estava sol que bastava andar um bocado. Esta convicção nem 10 minutos durou e passado pouco tempo estávamos novamente a subir as escadas para o apartamento.

Depois de mudar de calças, meias, sapatos e até de roupa interior eis que descíamos novamente para o cais de Perast. E foi nesta descida que passámos pelo senhor que tomava calmamente o café da manhã no seu terraço. No meio disto tudo a única coisa boa é que ninguém andava pelo cais àquela hora ou teria visto um triste espectáculo.

Tarte de Perast para pequeno-almoço

Mas mesmo com o contratempo quando voltámos para baixo ainda não se viam barcos prontos para partir ou a fazer a travessia entre Perast e a ilha. Como também a igreja de São Nicolau que queríamos visitar estava fechada (e que por sinal esteve sempre fechada enquanto estivemos em Perast) fomos tomar o pequeno-almoço já que depois o mais certo era não termos tempo para o fazer. Para isso fomos até ao restaurante Šijavoga que já estava aberto e no qual tínhamos reparado no dia anterior, ou melhor reparámos no sinal à porta, do combo bolo Perast e expresso. Preferimos sentar-nos à esplanada que naquela altura ainda não estava arranjada para receber clientes, mas felizmente o empregado arranjou-nos uma mesa. Se foi do desagrado dele ter de vir arranjar a esplanada, não deixou transparecer (muito).

Tarte de Perast do restaurante Šijavoga

Pedimos o combo do bolo de Perast eu com um café expresso, o meu marido com chá, que acabou por ser o mesmo preço. O bolo de Perast afinal era uma tarte de amêndoa bastante simples, mas deliciosa. Afinal nunca se deve perder a oportunidade de experimentar as delícias locais. E foi ali a apanhar sol que começámos a apercebermo-nos de movimento no cais.

Instagram do restaurante Šijavoga: Instagram Sijavoga

Ilha da Nossa Senhora das Rochas

Para visitar a ilha teríamos de apanhar um táxi (barco). Quando estive à procura de como chegar à ilha da Nossa Senhora das Rochas encontrei várias opções disponíveis no GetYourGuide até para quem prefere partir de Kotor e fazer uma viagem mais longa, mas também li que era bastante fácil arranjar um barco no cais de Perast que fizesse a travessia na hora. E assim foi, passámos por um ou dois barcos que ainda não estavam prontos para partir até que fomos abordados por um rapaz que nos perguntou se queríamos ir até à ilha que o barco já estava pronto. O preço seria de 20 euros, 10 euros por pessoa. Eu timidamente ainda tentei baixar o preço para 15 euros, mas eu sou péssima a regatear preços e foram os 20 euros. Combinámos  também a hora para nos virem buscar o que marcámos para as 10 horas por pensarmos ter tempo mais do que suficiente para a visita, afinal ainda eram 9 da manhã.

Igreja da Nossa Senhora das Rochas

A viagem de barco foi bastante rápida durou cerca de 10 minutos e rapidamente estávamos atracados na famosa ilha da Nossa Senhora das Rochas. E afinal erámos as primeiras pessoas a chegar a esta ilha naquele dia. Não havia outros turistas, a igreja ainda estava fechada e por 15 minutos tivemos a ilha só para nós. A igreja e o museu supostamente abriam às 9, mas como o rapaz que nos trouxe de barco nos disse durante a época baixa este horário é bastante mais flexível e a verdade é que acabou por abrir às 09:45 quando já outro barco bastante maior tinha chegado cheio de pessoas para visitar a ilha. Mas aqueles 15 minutos só para nós foram um completo sossego e pudemos tirar as fotografias que quisemos incluindo ao pequeno ilhéu que fica em frente desta ilha, o ilhéu de São Jorge (Sveti Đorđe) que se encontra fechado ao público e onde o mais notável é o edifício do mosteiro beneditino de São Jorge e a torre da igreja.

Ilha de São Jorge

Quando a porta da igreja se abriu dirigimo-nos para lá e descobrimos que a entrada era paga, o que foi uma surpresa pois tinham-nos dito que só o museu era pago. Pelos vistos tínhamos sido mal informados pois mesmo se quiséssemos visitar a igreja, mas não o museu que fica no mesmo edifício teríamos de pagar a entrada que custava 5 euros. Já dentro da igreja reparámos numas placas de prata que cobriam as paredes e o meu marido quis que perguntasse à empregada o seu significado. Normalmente vamos à internet procurar este tipo de informações, mas como não tínhamos acesso a ela acabei por perguntar à empregada que não só nos explicou o significado destas placas como a história da igreja e nos levou pelo museu dando várias explicações e detalhes dos artefactos em exposição. Acabámos por ter direito a uma tour guiada completamente inesperada e gratuita. A história da igreja e da ilha são fascinantes e eu vou deixar aqui as partes de que mais me lembro das explicações dadas durante a visita.

História da ilha e da igreja

A ilha foi criada principalmente por pescadores depois da descoberta de um quadro da virgem Maria com Jesus ao colo numa pequena rocha neste lugar aproximadamente em 1450. Este é o quadro que agora se encontra no mostruário principal da igreja e para a qual foi construída em 1650 uma protecção em prata feita com os donativos dados pela população de Perast. Actualmente o quadro não está coberto e esta capa de protecção está exposta numa das paredes da igreja. Agora as placas que tínhamos visto à volta da igreja e que foram o motivo do início da conversa foram o pagamento de promessas feitas à Virgem Maria, uns a pedir um filho, outros a pedir melhorias de uma doença, muitas destas placas com o desenho de navios que os marinheiros trouxeram depois de regressarem a casa sãos e salvos das suas viagens.

No museu há várias peças em exposição a maioria doações de capitães de navios. A peça central deste museu é um quadro feito pela mulher de um capitão que esperou 25 anos para que este voltasse a casa. Para completar o quadro usou o seu próprio cabelo e pode-se ver o seu envelhecimento à medida que os cabelos passam de castanho a branco. Não se sabe se o capitão alguma vez voltou, mas o mais provável é nunca ter regressado a casa.

No final da tour já mesmo à saída foi nos feito notar a estrutura da ilha que representa a proa de um barco. Afinal uma ilha feita pelos homens para o mar. O quadro que deu origem a esta ilha era muito provavelmente um sobrevivente de algum naufrágio, que foi interpretado como um milagre. A ilha foi construída pela acumulação de restos de navios e rochas que os pescadores de Perast foram trazendo até chegar à superfície onde se construiu a igreja.

Mas ainda mais impressionante do que a história da ilha foi a forma como ela nos foi contada. A paixão pela origem e pelo significado daquela igreja transparecia na voz da empregada, que nos mostrou o que é trabalhar em algo por que se tem verdadeiro carinho.

Igreja de São Nicolau

Durante a visita guiada confesso que me sentia um bocadinho stressada porque estava a ver a hora que combinámos com o barco a chegar e nós ali dentro a ouvir a senhora. Mas afinal não havia razões para estar assim, já que vieram buscar-nos às 10 e 20 altura em já estávamos cá fora a tirar as últimas fotografias. Provavelmente deram-nos mais tempo sabendo que a igreja tinha aberto mais tarde do que o esperado. Voltámos para Perast e ainda antes de regressarmos ao apartamento para ir buscar as nossas malas e fazer o check-out fomos verificar se podíamos ou não visitar a igreja de São Nicolau – não podíamos, continuava de portas fechadas.

No entanto deixo aqui uma breve história da igreja e dos 3 bustos que estão na praça em frente e que representam Tripo Kokolja, Marko Martinović e Matija Zmajević. Em baixo fica a tradução da informação disponível na praça em frente da igreja, ao lado dos bustos.

Igreja de São Nicola

‘A igreja de São Nicolau está localizada na praça central da cidade. Embora a estrutura actual date 1616, os registos históricos indicam que já existia uma igreja no mesmo local em 1564. Junto à igreja ergue-se a sua torre sineira de 55 metros de altura, construída em 1691. Foi projetada por Giuseppe Beati, um arquiteto da República de Veneza. O maior sino da torre, fundido em 1713, foi uma oferta dos arcebispos Andrija e Vicko Zmajević. O relógio, trazido de Veneza, foi instalado em 1730.

Tripo Kokolja (1661-1713)

‘Tripo Kokolja foi um dos maiores pintores barrocos do Adriático Oriental, tendo estudado em Veneza sob a orientação do seu conterrâneo de Perast e arcebispo, Andrija Zmajević. Quando Kokolja regressou à sua cidade natal, pintou o interior da Igreja de São Nicolau e a capela da Nossa Senhora do Rosário, bem como inúmeras igrejas por toda a Baía de Kotor. A sua obra mais importante é a pintura que se encontra no interior da Igreja da Nossa Senhora das Rochas que fica na ilha com o mesmo nome. Os dez anos de trabalho que Kokolja investiu nesta igreja, um santuário para os marinheiros da Baía de Kotor, resultaram num dos mais belos conjuntos de pinturas mariológicas da região.’

Marko Martinović (1663-1716)

Marko Martinović foi capitão e comerciante marítimo. Marko ensinou as suas habilidades marítimas a inúmeros marinheiros de Perast na sua casa na cidade, provando ele ser um educador habilidoso ao combinar com sucesso o seu conhecimento teórico com a prática. É recordado como o fundador da primeira escola marítima das Balcãs. No final do século XVII, a pedido do Czar russo Pedro, o Grande, o Senado Veneziano organizou formações para jovens nobres russos com o objetivo de estabelecer uma força naval báltica. Martinović foi um dos professores que coordenou parte desta formação em Perast.’

Matija Zmajević (1680 – 1735)

‘Após uma carreira marítima de sucesso como comandante e construtor naval, Matija Zmajević deixou Perast e ingressou na Marinha Russa no Mar Báltico. Matija distinguiu-se em inúmeras batalhas, sendo a Batalha de Ganguit em 1714 a mais importante da sua carreira quando a Suécia e a Rússia lutaram pelo domínio do Mar Báltico. Matija Zmajević subiu na carreira até ao posto de almirante que lhe foi atribuído durante o reinado da Imperatriz Catarina, a Grande. Foi condecorado com a Ordem de Santo Alexandre Nevsky pelas suas muitas contribuições no desenvolvimento da Marinha Russa. Passou os últimos anos da sua vida no Mar Cáspio, a trabalhar na criação da frota do Mar Negro.’


Ainda antes de deixarmos a costa de Kotor parámos num dos mais bonitos pontos panorâmicos, Boka Kotorska. Daqui pudemos ver pela última vez a ilha onde tínhamos estado naquela manhã, a Nossa Senhora das Rochas e ao lado a de São Jorge.

De acordo com o meu marido quando parámos neste miradouro havia um homem mais à frente ao pé do seu carro a fazer as suas necessidades fisiológicas e que era nessa direcção que eu estava a ir. É o que acontece quando nos deixamos absorver pela paisagem e não nos apercebemos do que se passa à nossa volta. Felizmente não dei por nada senão ainda teria mais um episódio a adicionar à lista de eventos caricatos em Montenegro. Eu vejo isto como sinal de que a paisagem era mesmo bonita. Afinal eu estava a ir naquela direcção apenas pela paisagem da baía de Kotor para um último adeus.  

Ponto panorâmico do Lago Slansko

A distância aproximada entre Perast e o mosteiro de Ostrog é de 100km que leva em média 2 horas a percorrer. Essa foi uma das razões para fazermos esta paragem, isso e por este ser um miradouro, o miradouro do lago Slansko (ou Slano). Este lago artificial cobre aproximadamente 9 km2 de área construído em 1950 para fornecer energia hidroélectrica o que é conseguido através de uma pequena barragem que fica numa das suas margens. Apesar do lago não ser natural, a verdade é que as suas águas calmas e azuis e os pequenos ilhéus formam um cenário pitoresco.

Lago Slansko

Neste miradouro também havia uma espécie de bar de estrada abandonado com mesas e bancos corridos, que acredito ser bastante concorrido durante o Verão. Em novembro tivemos de nos contentar com a paisagem – o que afinal já não foi pouco. Este miradouro serviu-nos para esticar as pernas até ao próximo destino, o mosteiro de Ostrog, a cerca de 45 minutos.


Mosteiro de Ostrog

Como já tinha dito anteriormente conduzir em Montenegro é uma aventura e mais o é quanto mais para o interior de Montenegro se entra. E neste caso para chegar ao mosteiro de Ostrog até se teve direito a passar por mais uma estrada em serpentina. Afinal a serpentina de Kotor pode ser a mais famosa, mas não é certamente a única em Montenegro.

O mosteiro está dividido em dois nível, o inferior e o superior, e nós estacionámos o carro perto do nível superior, que é a parte mais conhecida do mosteiro. Em relação a este local vou primeiro relatar a nossa experiência e depois a breve história associada a ele.

A nossa visita ao mosteiro

A nossa visita acabou por ser um pouco inusitada. Tudo começou quando estávamos a entrar no recinto exterior do nível superior do mosteiro e ouvimos um carro a chegar com um bocadinho de velocidade a mais. Para nossa surpresa quando olhámos para trás vimos que era um carro preto sem matrícula estacionado agora numa das bermas da entrada, onde por sinal, não era um lugar de estacionamento. Mais admirados ficámos quando de lá de dentro sai um homem de vestes de cor preta. Ou seja, sai do carro um padre ortodoxo. O padre segue apressado para dentro do mosteiro e sobe por umas escadas que davam para uma pequena capela.

Mosteiro de Ostrog

Quanto a nós andámos primeiro por ali fora a tirar fotografias aos edifícios do mosteiro o que por sinal é bastante bonito, de tal forma que é como se o mosteiro fizesse ele mesmo parte da rocha. Decidimos entrar nos vários edifícios começando pelo que ficava do lado contrário ao parque de estacionamento. Ou seja, subimos pelas mesmas escadas por onde o padre tinha ido. Entrámos dentro da capela onde a iluminação era bastante diminuída e onde se sentia um cheiro forte a incenso. Quando eu avanço para o interior da capela deparo-me com a forma de um corpo deitado e o padre a rezar e a abanar a cabeça da pessoa que estava em frente ao corpo para trás e para a frente. A única coisa que me veio à cabeça foi ‘acabei de chegar a um velório’ e toco de voltar para trás para sair rapidamente da capela. O meu marido que vinha atrás quando se apercebe daquele ritual tem exactamente a mesma reacção. Ele ainda viu que o padre tinha colocado uns óleos na testa da pessoa antes de começar a reza, mas eu nem tive tempo para ver isso. Bem só vos digo que saímos da capela meio abananados meio esbaforidos a tentar perceber o que tínhamos acabado de presenciar.

E de repente apossou-nos uma sensação de estranheza que não nos abandonou até bastante mais tarde, depois de já nos termos ido embora. Ainda visitámos outras áreas do mosteiro incluindo uma grande e apinhada loja de recordações, uma sala com velas, voltando novamente ao recinto exterior onde àquela hora vários grupos de freiras aproveitavam para descansar à sombra das árvores. Quando saímos do mosteiro sentíamos que de alguma forma tínhamos feito parte de um culto proibido e de uma coisa estávamos certo, a religião ortodoxa ali tinha um poder sem igual.

Concluindo, o mosteiro de Ostrog é um lugar que deve ser visitado, seja-se religioso ou não. E aliás para a maior das pessoas esta visita não vai ter um impacto tão intenso como teve em nós, que ainda hoje tento perceber o que aconteceu ali naquela meia hora.

Breve história do mosteiro de Ostrog

O mosteiro de Ostrog é um lugar de reza, adoração e peregrinação da religião ortodoxa. Várias pessoas de todo o mundo procuram este mosteiro para cumprir promessas, receber a bênção dos padres e estar mais perto da sua religião. A melhor comparação que posso fazer é: o mosteiro de Ostrog é para a religião ortodoxa o que Fátima é para a religião católica. Há vários relatos de milagres que aconteceram a pessoas que visitaram este mosteiro como voltarem a andar ou saírem curadas das suas doenças. Tal como Fátima e o seu 13 de maio, também em Ostrog há um dia de grande celebração, o dia 12 de maio, que corresponde ao dia da morte de São Basílico.

Mosteiro de Ostrog

E é a São Basílico a quem o mosteiro de Ostrog é dedicado. São Basílico foi um monge e bispo ortodoxo que viveu no século XVII. São Basílico nasceu em Herzegovina a 28 de dezembro de 1610, baptizado com o nome de Stojan. Stojan desde muito cedo passou por vários mosteiros incluindo o de Cetinje e tudo começou por uma decisão feita pelos seus pais que o quiseram afastar daqueles que eles consideravam ser más companhias e que moldavam a personalidade de Stojan que antes da sua vida religiosa era considerada uma pessoa extremamente egoísta. Mas quando Stojan entrou no mosteiro a sua vida virou-se para Deus. Stojan acabou por ser expulso de Montenegro quando esteve em Cetinje por ser fervorosamente contra as negociações que decorriam na altura com o Papa numa tentativa de unir ambas as religiões, a ortodoxa e a católica. Stojan foi então admitido no mosteiro de Tvrdoš em Trebinje (Herzegovina) tendo sido aqui reconhecido pela sua devoção ao jejum e à oração. Foi por esta altura que Stojan tornou-se Basílico. Apesar de Basílico ter sido obrigado a tomar uma posição política durante a guerra contra os turcos tendo para isso de se aliar à igreja católica, a verdade é que nunca deixou de ser um defensor ferranho da igreja ortodoxa tendo sempre lutado contra a disseminação da fé católica na região.

Em 1651, São Basílico escolhe Ostrog para sua morada. Inicialmente havia apenas uma pequena igreja e foi São Basílico que quis expandir a propriedade até esta se tornar no mosteiro que é hoje. No nível inferior do mosteiro à igreja que já lá existia foi adicionado uma pequena casa para processamento de trigo e construídas habitações para os monges mais novos. No novo nível do mosteiro, o superior, foi construída uma zona de armazenamento, quartos de hóspedes e outra capela onde vários artefactos religiosos estão hoje guardados. Para puder aumentar a área do mosteiro, São Basílico aliado a outros dois irmãos crentes da religião ortodoxa adquiriram os terrenos envolventes. São Basílico morreu a 29 de abril de 1671 (12 de maio de acordo com o calendário gregoriano) e sepultado no mosteiro. Mais tarde, o seu corpo foi exumado e transferido para o relicário que fica no nível superior do mosteiro e onde reside até hoje. E são os seus restos mortais que eu calculo que tenha visto ao entrar na pequena capela da qual acabei por fugir a sete pés.

Para quem quer visitar este mosteiro, fica aqui a informação de que a entrada é gratuita. E sendo este um lugar de referência em Montenegro, este mosteiro é um dos locais mais populares no país para visitar e para quem quer rezar. Para mim valeu a pena a visita, não pelo lado religioso, mas sim pelo lado cultural. E para assim termos mais uma experiência sem igual para contar.

Para mais pormenores sobre este mosteiro vejam a seguinte página: https://www.visit-montenegro.com/monastery-ostrog/


Entre o mosteiro de Ostrog e a próxima paragem, o lago Vražje, ficavam 90km de distância o que nos levaria mais duas horas de caminho. Ao chegar à última meia hora de viagem a fome dava o seu parecer e decidimos fazer uma paragem rápida num supermercado quando passássemos por uma vila ou cidade. O que acabou por ser na pequena vila, Šavnik, onde havia dois supermercados das redes iDEA e Voli. Fomos ao iDEA na esperança de puder comer mais uns bureks, mas foi aqui que ficámos a saber que esse tipo de productos não é vendido em todos os supermercados do país. Como não encontrámos nada que nos chamasse à atenção fomos tentar o Voli. Mas também aqui não havia nada de especial e por isso decidimos comprar maçãs e comê-las ao pé do lago Vražje.

Uma das paisagens nas estradas de Montenegro

E até a compra das maçãs acabou por se tornar num episódio cómico, pelo menos nós levámos o que se passou para a comédia. Mas é preciso saber o contexto. Primeiro o supermercado Voli não era muito grande, mas nós demos muitas voltas antes de decidirmos o que comprar.  Segundo, havia dois empregados, um na caixa e outro num pequeno balcão com queijos ou enchidos já nem sei bem que nos seguiu sempre com o olhar. Para comprar as maçãs era preciso colocá-las num saco e pesá-las para ter o recibo com o peso e o preço. Tal como em Portugal, mas a máquina era daquelas antigas, ou seja, o recido não saia automaticamente tinha de se carregar em certos botões para o papel sair. Como os botões não estavam em inglês, estivemos para ali a pasmar até que o tal empregado nos veio ajudar. No entanto, enquanto o fazia falava para a colega que estava ao balcão e que até acho que não o estava a ouvir. E daquilo que ele disse só apanhámos uma palavra: ‘turisti’. Apesar de não percebermos montenegrino pela fala e pelo tom devia estar a dizer algo do género ‘estes turistas vêm para aqui e nem pesar maçãs sabem‘.

Como disse levamos isto para a brincadeira e ainda hoje usámos o ‘turisti’ como inside joke (piada privada). Outra coisa bem evidente de este ser um mercado local foi o tempo que levou para sermos atendidos na caixa. Só estávamos nós e uma senhora que já estava a ser atendida quando chegámos e sem exagero estiverem mais de 5 minutos à conversa depois das compras pagas e empacotadas. Certamente de que falavam da vida do quotidiano e também era certo que não tinham pressa nenhuma em terminar a conversa, o que é completamente o oposto do que se costuma ver nas grandes cidades ou áreas comerciais onde cada cliente é atendido o mais rápido possível.

No meio disto tudo o importante a dizer é que as maçãs eram muito doces e sumarentas para além de enormes e por isso foram uma boa compra.  


Lago Vražje ou Lago do Diabo

Perto das 4 da tarde chegámos à última paragem do dia antes de fazermos o check-in no nosso apartamento, o lago Vražje ou lago do Diabo. Este lago é conhecido pela sua cor – azul claro nas margens que escurece para quase preto no centro. É este contraste que lhe dá o nome.

Paisagem da estrada do lado oposto ao lago Vražje 

Este lago formado por águas glaciares cobre uma área de 3.5 hectares e tem uma profundidade máxima de 25 metros. Este lago está envolvido por paisagens cénicas a uma altitude de 1500 metros acima do nível do mar. E com um nome assim tinha de estar forçosamente associado a lendas e mitos. A lenda mais famosa é que o diabo construiu um palácio de cristal no fundo do lago e que a cor das águas é o reflexo do palácio na superfície. Outra lenda também associada ao diabo, afinal o lago chama-se lago do diabo, conta que esta entidade demoníaca vive no fundo do lago e que causa infortúnios a quem se chega perto. Outras lendas dizem que no fundo do lago há uma cidade perdida, ou que uma princesa se suicidou ao não puder casar com o homem que amava ou que as águas do lago têm poderes curativos.

Quanto a nós, parámos junto ao lago a comer as nossas maçãs e apesar de onde estávamos não se ver bem o efeito do contraste de cores ainda assim conseguimos perceber onde as águas escureciam. Para ver melhor o efeito é estar em maior altitude e até há um pequeno monte mesmo ali ao lado que não parece ser muito difícil de subir. Nós, depois de um dia exaustivo que começou em Perast, continuou pelo mosteiro de Ostrog e com quase 200km feitos, ficámos apenas ali na margem do lago. Por isso as nossas fotografias não mostram bem o efeito da mudança de cores, mas facilmente encontrarão nas redes sociais imagens bem mais sugestivas do que as nossas, como por exemplo aqui: Instagram Vražje jezero

Montes onde do topo se pode ver melhor o efeito contrastante das cores do lago Vražje 

O destino final para este longo dia ficava agora a cerca de 10km de distância na cidade de Žabljak.

Chegámos a Žabljak ao cair da tarde ainda com luz do dia suficiente para ficarmos com uma ideia da cidade. Žabljak é a cidade principal do parque nacional de Durmitor e com uma localização perfeita para os locais que queríamos visitar nos próximos dois dias. Do que vimos gostámos muito, uma cidade que é grande em tamanho, mas rural na sua essência.

Žabljak

A primeira coisa que reparámos foi no grande número de edifícios que estavam em construção principalmente agrupamentos de pequenos chalets de madeira. Devido ao aumento do interesse turístico que está a crescer a cada ano em Montenegro, Žabljak prepara-se para receber mais visitantes.

Apartamento Duke

A primeira paragem foi no apartamento que tínhamos alugado para duas noites, o apartamento Duke que ficava bastante perto da estrada principal, de restaurantes e supermercados. E também bastante perto do lago negro (Crno Jezero) que era o local que iríamos visitar no dia seguinte de manhã. Não foi muito difícil de descobrir o apartamento, o piso inferior de uma vivenda com parque de estacionamento mesmo à entrada. Fomos recebidos pela mãe da dona do apartamento que foi supersimpática, mas não falava inglês. Ainda tentámos comunicar-nos usando o google tradutor, mas a senhora acabou por ligar à filha quando perguntámos sobre o city tax que ainda tínhamos de pagar. Ao telefone foi-nos explicado o processo do check-in e check-out e disponibilizou-nos o número para a contactarmos para aquilo que fosse preciso. Quanto ao apartamento, foi sem dúvida o meu preferido. Bastante acolhedor e acima de tudo com lareira. Basta uma lareira para ficar perdida de amores. A mãe da dona do apartamento tinha-nos deixado a lareira acesa e explicou-nos por linguagem gestual (a linguagem internacional) onde podíamos ir buscar mais lenha. E este conselho tinha razão de ser porque a temperatura em Durmitor nada tinha a ver com a de Perast. Aqui sim estava frio com temperaturas negative durante a noite. Para além da lareira também ligamos o aquecedor de parede que havia no nosso quarto para estarmos mais confortáveis quando fôssemos mais tarde para a cama.

Aproveitámos que tínhamos o número da dona do apartamento que, entretanto, tinha enviado mais instruções para lhe pedir sugestões de onde jantar. Foi-nos dito que muitos dos restaurantes fechavam durante a época baixa, e isso incluía novembro, mas que aconselhava o restaurante O’ro que estava aberto. E foi aí mesmo que fomos jantar. E mais, acabámos por voltar na noite seguinte, não por falta de escolha, mas por termos gostado bastante da refeição da primeira noite.

Para reservar ou obter mais informações sobre o apartamento Duke vejam a seguinte página do booking.com: Apartament Duke

Restaurante O’ro

O restaurante O’ro ficava na estrada principal a mais ou menos 10 minutos a pé do apartamento Duke. Durante a pequena caminhada ainda tivemos direito a ficar a conhecer um gato muito meigo que nos seguiu por uns minutos. Deitava-se no chão, esfregava-se nas nossas pernas, e nós claro que lhe demos festas. Quem conseguiria resistir? Depois dos dois dias em Durmitor sabemos agora que o mais provável é que o gato fosse abandonado, um dos grandes desgostos com que se fica em visitar não só de Durmitor, mas Montenegro em geral.

Chegámos pouco depois ao restaurante e felizmente àquela hora, seis e meia, havia várias mesas livres. O restaurante tinha um aspecto bastante acolhedor, aquele rústico chique, e o menu era exactamente o que procurávamos, focado em pratos tradicionais de Montenegro. Para entrada pedimos uma sopa, mais um caldo, eu de carne de veado o meu marido de vegetais. A única diferença entre as sopas era a adição da carne, que fez toda a diferença, pois a minha era muito mais saborosa. E na verdade, a sopa foi um dos melhores, senão o melhor, prato que experimentei neste restaurante.

Sopa de carne do restaurante Or’o

Pedimos dois pratos principais para dividir, o meu marido pediu a truta, um dos pratos de peixe mais tradicionais de Montenegro, que veio acompanhada por vegetais grelhados e salada. Para ele este foi o melhor prato de toda a viagem. Eu pedi Kačamak que era algo que eu queria muito experimentar. Este prato é um dos mais tradicionais de Montenegro e eu descrevê-lo-ia como uma espécie de puré espesso feito de farinha de milho, batatas, queijo e manteiga. Ou seja, tudo para ser um prato bastante pesado, mas delicioso especialmente para pessoas como eu que adoram queijo. Neste restaurante, como em muitos outros, o Kačamak leva algum tempo a ser cozinhado, tendo o menu neste restaurante um aviso de que demora 40 minutos. Como pedimos as entradas estávamos à vontade para esperar. E o que chegou à mesa foi uma dose enorme que dava bem para duas pessoas, acho que até para três. É realmente um prato para aqueles que procuram uma refeição substancial pois eu com 2/3 da dose já estava cheia. E apesar de ser uma pessoa que adora queijo chegou uma altura que já estava o estava a achar enjoativo. Não me interpretei mal pois adorei o sabor, mas este é daqueles pratos que para se gostar tem de se comer em moderação. Mas contudo fiquei feliz por ter tido a oportunidade de experimentar mais um dos pratos que tinha em mente para esta viagem.

Prato de truta do restaurante Or’o
Kačamak do restaurante Or’o

Depois das entradas e dos pratos principais (ainda bem que o prato de truta era bastante mais leve), já não havia espaço para sobremesa, o que deixámos para o jantar do dia seguinte. Como devem ter pressuposto nós gostámos imenso do restaurante, do ambiente, da comida, do serviço, para voltarmos no dia seguinte.

Ainda antes de irmos para casa fizemos uma breve paragem no supermercado em frente ao restaurante onde comprámos uma ou duas cervejas artesanais que bebemos em frente à lareira aconchegados no nosso apartamento.

Página oficial do restaurante O’ro: https://restaurantoro.me/



Pequeno-almoço em Žabljak

O sexto dia da road trip em Montenegro foi dedicado ao parque nacional de Durmitor. E começámos este dia bem cedo. Primeiro iríamos ao lago mais conhecido de Durmitor, o lago negro (Crno Jezero) mas ainda antes precisávamos de tomar o pequeno-almoço. Tínhamos reparado no dia anterior numa Pekara (padaria) que abria às 7 da manhã perto do supermercado.

Burek da Pekara em Žabljak

Quando chegámos à padaria ainda pensámos em comer numa das mesas, mas como não vendiam café comprámos os burek que tinham a forma de uma roda cortados em 4 fatias (tipo pizza) e trouxemo-los para o apartamento onde fizemos o mandatário café. Acabou por ser um dos melhores burek de Montenegro com um recheio de carne que sabia a pizza de fiambre ou de carne picada. Ainda bem que os bureks eram bons, já que a rapariga que nos atendeu não era muita dada a sorrisos. Não que tivesse sido rude, apenas carrancuda.

Esta é a morada da tal Pekara:  Njegoševa, Žabljak 84220, Montenegro

O dia tinha acordado com um céu azul, mas o frio fazia-se sentir e apesar de pudermos ter ido a pé até ao Crzno Jezero num passeio de meia hora decidimos levar o carro. Pensávamos que estávamos a ser espertos em deixar o carro num parque de estacionamento afastado do lago, mas ao chegarmos vimos que também aqui havia uma pequena cabana onde o guarda já lá estava a cobrar a entrada para o parque nacional, a qual nos custou 5 euros por pessoa. Vendo o lado positivo tivemos assim oportunidade de entrar dentro da floresta durante o caminho até ao lago.

Crno Jezero no parque nacional de Durmitor

E o lago àquela hora matinal (9 e meia) era como um espelho reflectindo a montanha de Durmitor nas suas águas azuis brilhantes. Por aquela altura não havia muitas pessoas por ali, apenas mais uma pessoa, contudo havia imensos cães abandonados. E quando digo imensos estou a falar de cerca de 15 a 20 cães alguns de grande porte. E pouco depois de chegarmos ouvimos vários cães a ladrar à distância e um homem a correr e a mandar pedras aos cães. No momento pareceu-nos que ele estava a defender-se dos cães que corriam e saltavam para cima dele (impressão que temos até hoje).

Quanto a nós, a ideia era percorrer o trilho circular à volta dos dois lagos que fazem parte do Crno Jezero (lago negro), o Veliko Jezero (grande lago) e o Malo Jezero (pequeno lago). Descobrimos o trilho e logo no início os cães vieram ter connosco, altura em que reparámos que os cães pertenciam a duas matilhas que se fixavam numa atitude pouca amistosa. Felizmente não se atacaram e a certa altura dispersaram enquanto avançávamos pelo trilho bem marcado. Acabámos por ser quase sempre acompanhados por um ou dois cães de uma das matilhas. A certa altura encontrámos uma pequena tira de terra que separava os dois lagos.

Lago Malo (pequeno) no Crno Jezero

Ainda tentámos seguir pelo trilho continuando pela margem do Malo Jezero mas pouco depois encontrámos um sinal de aviso a indicar que o caminho em frente era escorregadio com grande perigo de queda. Até o cão que vinha connosco começava a ganir sempre que fazíamos algum movimento de intenção de seguir em frente. Interpretámos o ganir como sinal para não seguirmos em frente e voltámos à tira de terra que ligava ambos os lagos para fazer um corta-mato e voltar a apanhar o trilho que seguiria até ao ponto onde tínhamos começado. Fizemos várias tentativas, mas não conseguimos encontrar o trilho. Numa destas tentativas já estávamos a caminhar por rochas que desciam a pique para dentro de água. Acabámos por desistir e regressar pelo mesmo caminho de onde tínhamos vindo, mas com um certo sentimento de frustração porque tínhamos a certeza de que havia um trilho que seguia pelo outro lado da margem, já que este trilho era supostamente circular.

Um dos cães que nos acompanhou no trilho à volta de Crno Jezero

É preciso notar que ao contrário de outros países onde já fizemos vários trilhos como nos Dolomitas ou em Inglaterra, e mesmo em Portugal, aqui não havia qualquer sinalização sobre os trilhos disponíveis na área ou placas com direcções.  

Em relação ao Lago Negro, este é o maior e mais profundo dos 18 lagos glaciais em Durmitor. O lago é alimentado por águas de inúmeros poços que fluem por um riacho, Otoka, e por rios subterrâneos. A água do lago grande, Veliko, segue para o Rio Tara, enquanto o do lago pequeno, Malo, para o rio Komarnica através de uma bifurcação subterrânea. 

Quando voltámos ao ponto de partida tentámos visitar um outro lago, o lago Barno. Como disse não havia nenhuma placa com direcções, mas reparámos num trilho que subia a colina e que parecia ir na direcção deste lago. Embrenhámo-nos por dentro da floresta até que chegámos a uma vedação que nos proibia seguir para onde supostamente queríamos ir. Estávamos por esta altura ao pé de uma pequena aldeia, Ivan Do, da qual já avistávamos umas casas. Foi aqui que aceitámos a derrota e voltámos para trás. Aproveitámos o passeio para tirar fotografias porque mesmo sem lago o interior da floresta merecia ser admirado.

E foi assim a nossa experiência um pouco falhada no Crno Jezero. Alguns podem chamá-la de frustrante, eu mesmo assim digo que valeu a pena vir aqui.

O que mais no marcou em Durmitor

Apesar da beleza deslumbrante do Crno Jezero o que mais nos marcou não foi algo de belo, bem pelo contrário. O que ainda não contei foi que quando estávamos a ir do carro para o lago houve um cão abandonado que veio ter connosco. Um cão a pedir festas, meio maluco, a saltar para cima de nós e a tentar morder-nos na brincadeira. Depois durante o percurso o cão acabou por desaparecer, mas quando estávamos a regressar ao carro voltou a aparecer e continuou a acompanhar-nos. Pois quando estávamos a entrar para o carro o cão começa a ganir, a saltar para o colo e a agarrar-nos nos braços com as patas. O cão estava a pedir para vir connosco, estava a pedir para lhe darmos um lar. E quando acabámos por ir embora o cão ali ficou de cauda caída. Posso dizer que desiludir uma pessoa é mau, mas desiludir um cão é muito, mas muito pior. E nós adoramos animais e sempre quisemos ter um cão. Termos a dádiva de sermos escolhidos por um cão para sermos a sua família e não podermos retribuir despedaçou-nos o coração. Foi um dos episódios que me fez vir no avião de volta para casa com lágrimas a correr-me pela cara. E mesmo agora sei que sempre me arrependerei de ter virado as costas, por mais razões lógicas que possa dizer, eu sei que é algo que nunca me perdoarei. E sim, não foi só este não foi só este episódio que me traumatizou, mas foi aqui que começou.

Depois de deixarmos o lago negro (crno jezero) voltámos ao apartamento Duke para uma rápida paragem. O que nos esperava era uma tarde de paisagens fantásticas e experiências inesquecíveis. A rota cénica que fizemos teve uma distância de cerca de 100km com 8 paragens. Passámos por desfiladeiros, pequenas aldeias e incríveis picos montanhosos.

Em baixo podem encontrar o mapa da rota cénica com as paragens que fizemos.

O ponto A e o ponto J no mapa representam a saída e a chegada ao nosso alojamento, o apartamento Duke em Žabljak.

Ćurevac (ponto B)

Ćurevac, o primeiro ponto de paragem da rota cénica

Ćurevac foi a primeira paragem e o primeiro miradouro deste percurso. Deixámos o carro no pequeno parque de estacionamento e subimos por um estreito carreiro de terra durante 10-15 minutos até ao miradouro para uma paisagem espectacular do desfiladeiro Tara.

Vidikovac Kanjon Tare (Ponto C)

O ponto C foi o segundo miradouro do mesmo desfiladeiro. Para chegar a este miradouro tivemos de passar perto de uma pequena aldeia, Mala Crna Gora, onde os campos eram pontados por pequenas casas. Se puderem parem aqui para tirar algumas fotografias porque ao chegarmos ao ponto C descobrimos que a paisagem perto da aldeia e durante a subida pela estrada que vai de Mala Crna Gora até ao miradouro era bastante mais bonita do que a do ponto panorâmico.

Nedajno-Susica canyon (Ponto D)

Desfiladeiro Tara do ponto panorâmico ‘Nedajno-Susica canyon’

Este foi o terceiro miradouro para o desfiladeiro, no entanto já na outra margem. Para chegar do ponto C ao D tivemos de descer o desfiladeiro para depois o subir e digo-vos que a estrada não é das mais fáceis de conduzir. Para além de ser uma estrada com curvas e contracurvas e estreita, havia imensas pedras no meio da estrada algumas de tamanho razoável de tal forma que houve uma ou duas vezes que tive de sair do carro para as retirar e assim pudermos passar em segurança. Neste troço da viagem até chegarmos ao ponto D não encontrámos nem pessoas nem carros, sinal de que estávamos numa parte mais escondida e menos turísticas de Durmitor. Contudo, a paisagem do desfiladeiro deste ponto D, Nedajno-Susica canyon, foi a minha preferida.

Trsa (ponto E)

Igreja da aldeia de Trsa

Trsa foi a única aldeia onde parámos durante este percurso. Subimos o pequeno monte até à igreja a pé onde de cada lado pontuavam pequenos aglomerados de casas. Para quem procura sossego, Trsa é certamente o lugar ideal. Se de um lado da estrada tínhamos a pequena aldeia do outro lado tínhamos campos e mais campos a perder de vista.

Pišče (Ponto F)

Pouco depois de passarmos Trsa parámos perto de outra pequena aldeia, Pišče. Não parámos bem na aldeia, mas sim um pouco mais à frente para tirarmos a fotografia com a paisagem em redor. Tal como Trsa, também Pišče é uma aldeia constituída por um pequeno aglomerado de casas e uma igreja. O mais incrível é que não vimos ninguém em nenhuma destas aldeias, nem a passear, nem a fazer compras; ambas as aldeias pareciam paradas no tempo.

Vodeni Do (Ponto G)

Uma das paisagens entre Vodeni Do e Sedlo

De Pišče a Vodeni Do entrámos na parte montanhosa de Durmitor. A partir daqui a paisagem mudou e por incrível que pareça para melhor. Parámos várias vezes ou conduzimos mais devagar apenas para puder ver a paisagem com mais tempo. E como não havia mais ninguém a fazer o mesmo percurso pudemos fazê-lo com o todo à vontade. Em Vodeni Do até havia um banco de madeira de frente para as montanhas ideal para interiorizar toda aquela paisagem de cortar a respiração.

Sedlo (Ponto H)

No banco de madeira a ver o pôr-de-sol em Sedlo

Em Sedlo também havia um banco de madeira e não há preço que pague pela experiência de estar ali sentada a beber café do termo enquanto via o pôr-do-sol. E esta é outra sugestão que deixo aqui, a de fazerem esta parte da viagem ao final da tarde. Acreditem que a luz dourada a bater nas montanhas adiciona uma outra camada de surreal à experiência. Quase como se estivéssemos sozinhos num outro planeta.

Picturesque viewpoint (Ponto I)

Picturesque viewpoint ou ponto panorâmico pitoresco é o nome que aparece no Google Maps para a nossa última paragem desta rota cénica, até porque por esta altura o sol desaparecia no horizonte. E confirmo que o nome deste ponto é-lhe bem atribuído.

Última paragem da rota cénica

Nem todas as paragens que fizemos entre o ponto G e o ponto I estão aqui descritas pois foram muitas as paisagens que quisemos ter tempo de apreciar e reter na nossa memória. Certamente que esta parte da rota merece ser adicionada a qualquer viagem a Durmitor. Senão podem fazer os 100km pelos menos fazem o troço entre Vodeni Do e Sedlo.

De volta ao apartamento Duke

Quando estávamos a chegar a Žabljak comecei a sentir uma certa vontade de comer algo doce. Depois de uma pesquisa rápida no Google encontrei uma pastelaria bem avaliada em Žabljak que ainda por cima estava aberta, a Shambhala Bakery & Restaurant. E tentámos estacionar por perto mas para além de haver pouco estacionamento disponível o que havia era pago. Decidimos deixar a ideia do bolo e seguir para o nosso apartamento que o dia tinha sido longo e o cansaço ganhava.

Poucos minutos depois de chegarmos ao apartamento a mãe da senhoria veio bater-nos à porta com nem mais nem menos um prato na mão com 4 bolos. Era a sua forma de nos agradecer por termos limpo a lareira de manhã e a abastecido de lenha. Na verdade, quem o fez foi o meu marido enquanto eu me arranjava. Nem imaginam o quanto fiquei agradecida, afinal ia comer bolo e ainda para mais em frente à lareira que nesta altura já estava acesa. Acabou por ser bem melhor do que em qualquer pastelaria.

Os bolos oferecidos pela mãe da senhoria

E ao contrário do que tinha lido – que os montenegrinos não gostavam de turistas – a verdade é que tanto em Durmitor como em Prokletije fomos imensamente bem recebidos.

Segundo jantar no restaurante O’ro

Para jantar nem tentámos encontrar outro restaurante diferente do dia anterior (ver aqui), iríamos voltar ao restaurante O’ro. Afinal era perto e podíamos ir a pé, a comida era deliciosa, o atendimento simpático e os preços não muito caros. E sabíamos exactamente o que íamos pedir, o Borrego de Durmitor e o Veado de Durmitor – uma espécie de guisado com carne e batata típico da gastronomia de Montenegro. No entanto, achei que para o preço (quase 20 euros cada) não era nada de especial tendo gostado muito mais da refeição do dia anterior. E aliás esta acabou por ser a refeição mais cara de toda a viagem, tendo ficado a 55 euros pelos dois com bebidas e sobremesa incluídas.

Veado de Durmitor (Durmitor Veal)

Ao contrário da noite anterior não pedimos entradas para termos espaço para a sobremesa. Da lista pedimos as panquecas recheadas que apesar de saborosas estavam um pouco secas tornando-se um pouco pesadas para final de refeição. Também se pediu Rakija como digestivo. Apesar de nos termos apaparicado um pouco mais com doce e bebida, preferimos a refeição da primeira noite.

Outra coisa que também foi diferente nesta noite foi a quantidade de clientes; enquanto no dia anterior o restaurante estava vazio hoje estava a abarrotar. Não sei qual a razão disto, mas parece-me que em alturas mais turísticas é aconselhável fazer-se reserva. Para mais informações sobre o restaurante deixo aqui o link da página oficial: Restaurante O’ro.

Panquecas recheadas

A noite terminou como a anterior, sentados ao pé da lareira, a beber as cervejas artesanais que tínhamos comprado no dia anterior no supermercado. E foi uma das melhores maneiras de quase dizer adeus ao parque nacional de Durmitor.



Pequeno-almoço: mais díficil do que o esperado

No dia seguinte de manhã saímos cedo com a ideia de ir tomar o pequeno-almoço a qualquer lado antes de avançarmos com o nosso itinerário que mais uma vez incluía algumas horas a conduzir, agora até ao parque nacional de Prokletije. Havia ainda um prato tradicional que queria experimentar, Priganice, que são umas pequenas bolas de massa frita. Perguntámos à empregada de um café na rua principal de Žabljak que nos indicou o restaurante Ukus Durmitora. E eles realmente tinham Priganice no menu o que me deixou bastante contente. No entanto, depois de fazermos o pedido e de terem vindo as bebidas quentes esperámos mais de meia hora e nada. Já um bocado fartos de estar à espera o empregado veio pedir desculpa, mas infelizmente a massa tinha saído mal e não nos podiam servir os Priganice.

Como já estávamos atrasados de acordo com a nossa agenda dissemos que não podíamos esperar mais. O empregado foi impecável e as bebidas ficaram por conta do restaurante. Acabámos por ir à mesma Pekara do dia anterior comprar outro burek agora de queijo e espinafres já que não queríamos perder mais tempo. Não só não provámos os Priganice como este burek foi o pior de toda a viagem, bastante oleoso de tal forma que nos sentimos um pouco enjoados depois de comer. O dia não começava da melhor maneira. Mas também isso mudou rapidamente ao chegar à ponte Đurđevića.

A nossa última paragem em Durmitor era a ponte Đurđevića que passa por cima do desfiladeiro do rio Tara. E a experiência seria inesquecível.

O desfiladeiro do rio Tara faz parte do Património Mundial da UNESCO e é conhecido como a ‘lágrima da Europa’ pelas suas águas cristalinas. Este desfiladeiro é o mais profundo da Europa e o segundo do mundo, sendo apenas ultrapassado pelo Grand Canyon nos Estados Unidos da América. O desfiladeiro Tara tem uma profundidade máxima de 1300 metros e estende-se por 82km. Uma das principais atracções associada a este desfiladeiro é a ponte Đurđevića construída entre 1937 e 1940 com 365 metros de comprimento e 172 metros de altura. Mais impressionante ainda por ter sido construída essencialmente à base de trabalho manual com reduzido suporte de maquinaria. Esta ponte é sem dúvida um feito incrível de engenharia daquele tempo. Na altura em que visitámos a ponte ela estava a ser reforçada e portanto havia vários trabalhos a decorrer.

Ponte Đurđevića

Um facto curioso sobre esta ponte retrocede à Segunda Guerra Mundial quando os habitantes e tropas da região se viram obrigados a explodir com o arco central da ponte para impedir os avanços das tropas italianas, num gesto de bravura. A ponte foi reconstruída posteriormente e hoje em dia é uma importante via de passagem entre as duas margens do desfiladeiro.

Há várias actividades populares a fazer no rio Tara como o rafting (descer as águas do rio em botes de borracha) ou escalada. Eu decidi experimentar o zipline que atravessa o desfiladeiro de um lado ao outro. Já tínhamos discutido a possibilidade de fazer o zipline ainda antes de viajar, mas a decisão final só foi feita na hora. Se por um lado concordo que a experiência não é barata, já que custou 45 euros, por outro digo que vale a pena experimentar. Afinal o que é viajar se não experimentar coisas que não fazemos no nosso dia a dia? Não sei bem se havia apenas uma ou duas companhias abertas em novembro, mas nós fomos pela companhia Extreme Zipline que naquela altura do ano apenas tem um dos cabos a funcionar e claro era aquele que atinge uma maior velocidade.

Depois do pagamento feito e de ser levada de carro para o topo do zipline onde me foi colocado todo o equipamento vi-me numa viagem de cerca de 2 minutos a uma velocidade de 120km/hr a uma altura incrível sobre o desfiladeiro. A viagem de zipline começou depois de me serem explicadas todas as regras de segurança, como por exemplo como devia posicionar o corpo e do que fazer se não chegasse ao fim da linha. E também o que aconteceria quando chegasse ao final da viagem, o que seria muito simples já que haveria outro colega à minha espera para me ajudar a sair do zipline e a remover o equipamento. A viagem foi tão rápida, a experiência tão surreal que acho que o meu cérebro nem teve tempo de se ajustar ao momento. E aviso que a experiência é muito viciante.

Prestes a lançar-me no zipline

Deixo aqui um grande louvor ao empregado que me explicou todo o procedimento, foi super simpático, respondeu a todas as minhas questões (que não foram poucas) e me tranquilizou até me sentir confiante a experimentar o zipline. Porque posso confessar que estava um pouco receosa. Mas não havia razões para preocupações, se fosse para mudar alguma coisa era que pudesse repetir a mesma viagem logo a seguir. Se tiverem oportunidade de o fazer, nem pensem duas vezes.

Para mais informações sobre o Extreme Zipline Tara vejam o seguinte link: https://www.montenegroadventure.travel/tour/extreme-zipline-tara/

E como dissse acima, a decisão foi feita na hora, ou seja não foi preciso marcar o zipline com antecedência, mas mais uma vez esta viagem foi em novembro.


Depois de toda a adrenalina do zipline sobre o desfiladeiro Tara voltámos para o carro para mais uma viagem de 2 horas e meia agora até Gusinje no parque nacional Prokletije. Chegámos por volta das 2 e meia da tarde e decidimos fazer o check-in antes de irmos visitar os locais anotados no nosso itinerário. 

Gusinje no parque nacional de Prokletije

Apesar de ter gostado de ficar a conhecer o parque nacional de Prokletije, o quarto parque nacional desta viagem depois de lago Skadar, Lovćen e Durmitor, este foi aquele onde tivemos menos tempo disponível. E apesar de acreditar que vale a pena visitar qualquer novo lugar, não sei até que ponto este desvio fez sentido em termos logísticos quando comparando o tempo extra de viagem e aquilo que vimos do parque nacional.

Kula Nekovic em Gusinje

Para esta noite houve uma alteração inesperada de planos. Inicialmente tínhamos marcado o nosso alojamento no Ethno Katun ROSI Agrotourism que ficava na zona mais rural, contudo no segundo dia em Montenegro recebemos uma mensagem através do Booking.com deste alojamento a informar-nos que iam fechar mais cedo para férias e que a nossa reserva tinha sido cancelada. Claro que achei isto não só indelicado como pouco profissional, pelo menos que nos tivessem informado com mais antecedência. Portanto passámos uma parte da nossa segunda noite em Montenegro a procurar uma alternativa e a escolhida foi Kula Nekovic no centro de Gusinje.

Check-in

Kula Nekovic não tem parque de estacionamento privado, mas felizmente havia espaço para deixar o carro num terreno mesmo ao lado. O problema foi para fazer o check-in, não estava lá ninguém para nos receber. O que nos valeu foi um senhor, um amigo do senhorio, que estava sentado numa das mesas à entrada e ao ver-nos aflitos começou a ligar para o dono do estabelecimento, tal como nós através do WhatsApp. Eventualmente o senhorio acabou por nos atender e em menos de nada entrávamos no quarto de chave na mão.

Quarto

O quarto era bastante espaçoso com duas divisões e até tínhamos 4 camas, duas de solteiro e uma de casal para além da casa-de-banho. A decoração é que era parca, apenas uma mesa, duas cadeiras e uma mesa de cabeceira como mobília.

O nosso quarto no Kula Nekovic em Gusinje

O quarto era razoavelmente silencioso tendo em conta que estava virado para a estrada principal. O ruído mais alto que ouvimos foram das rezas vindas da mesquita em frente às 6 da tarde e às 6 da manhã. E sobre isso o senhorio não pode fazer nada.

Pequeno-almoço

Para deixar toda a informação sobre este alojamento na mesma secção vou já falar do pequeno-almoço do dia seguinte que foi servido pelo senhorio no edifício que ficava ao lado ao dos quartos. O pequeno-almoço não era em formato de buffet apesar de ter a sensação de que podíamos ter pedido mais se assim fosse preciso. E o pequeno-almoço foi o tradicional da região, com queijo, tomates, pickles, ovos cozidos, rodelas de um enchido parecido com pepperoni, pão e claro o café turco.

Pequeno-almoço no Kula Nekovic

Erámos os únicos a tomar o pequeno-almoço e tenho a sensação de que até erámos os únicos hóspedes de Kula Nekovic naquele dia. Depois de nos servir, o senhorio acabou por ficar à conversa connosco. É sempre interessante saber como é a vida no país que visitamos e ele acabou por confirmar várias coisas algumas das quais já nos tínhamos apercebido, e outras das quais apenas tínhamos suspeitas como por exemplo Montenegro ser ainda um país em desenvolvimento, muito pobre, onde muitas pessoas passam dificuldades, e onde se encontra um dos maiores cartéis de droga da Europa. Nenhuma destas informações nos surpreendeu pois vimos alguns encontros estranhos enquanto conduzíamos pelas estradas do país. Claro que a sua história política da qual já falei neste blog tem uma grande influência no estado actual de Montenegro.

O pequeno-almoço acabou por ser bem mais interessante do que esperava, e é sempre revelador falar com os locais mesmo que por vezes os locais não tenham interesse em falar com os turistas. O que não foi de todo o caso aqui. Pois é nestas conversas que se aprende as coisas positivas e negatives do dia a dia e normalmente aquilo que o país tenta esconder dos turistas. Mas são essas coisas que constroem a realidade das pessoas que lá vivem.

Para mais informações e reservas vejam a página do Booking.com: Kula Nekovic

Depois do check-in feito saímos na expectativa de visitar 3 locais da região. Contudo, começávamos esta parte do dia um pouco mais tarde do que aquilo que desejávamos o que influenciou a visita ao último lugar, o Oko Skakavice.

Nascentes de Ali-Pasha

A primeira paragem era em Ali-Pasha’s Springs, ou em português ‘nascentes de Ali Pasha’, a menos de 5 minutos de carro de Gusinje. Aliás foi por os locais ficarem tão perto uns dos outros que tínhamos feito a reserva no outro alojamento, com a intenção de fazermos o percurso desta tarde a pé. Mas pronto, não deu e também não foi o fim do mundo. Quanto a Ali-Pasha, este é um dos lugares mais conhecidos do parque nacional de Prokletije onde a água brota directamente do solo formando o rio que segue o seu curso pelo vale Ropojana.

Aqui encontrámos um pequeno placard com detalhes deste lugar tal como a sua história, do qual deixo aqui a tradução:

‘Diz-se que o famoso Ali-Pasha de Gusinje costumava vir aqui todas as manhãs para apreciar a beleza e a serenidade deste local, onde uma magnífica obra da natureza criou uma grande nascente cársica composta por 25 nascentes mais pequenas. Estendendo-se por 300 metros, estas nascentes, dependendo da estação do ano, libertam entre 3 a 9 metros cúbicos de água por segundo, e a sua temperatura nunca ultrapassa os 6ºC. As nascentes de Ali-Pasha situam-se a apenas um quilómetro e meio a sul de Gusinje.

Ali-Pasha foi um famoso comandante militar do século XIX membro da família Šabanagić, que governou esta região durante quase duzentos anos. Junto às nascentes, Ali-Pasha construiu uma grande casa onde as pessoas mais proeminentes da zona se reuniam, fechavam negócios e resolviam as suas diferenças entre clãs, enquanto os viajantes que por ali passavam podiam refrescar-se e pernoitar se assim quisessem. No meio destas nascentes, existe um antigo moinho de água de pedra, um dos raros que, até aos dias de hoje, preserva um antigo mecanismo para moer os grãos que eram trazidos de toda a região das montanhas Prokletije. Este moinho de água é também especial por ter alojamento no piso superior. As raparigas de Gusinje costumavam vir aqui por volta do Dia de São Jorge recolher água num pote especial, que depois adornavam com flores primaveris.

Nascentes de Ali-Pasha

As pessoas reuniam-se perto destas nascentes desde os tempos antigos, principalmente ao ar livre. Simplesmente porque as condições aqui eram as ideais para tal. A rota das caravanas entre o Mar Adriático e Constantinopla passava por aqui. Até há cem anos, apenas cavalos eram utilizados para o transporte de pessoas e mercadorias. E numa longa viagem, os cavalos precisavam de comer, beber e descansar. Para além das moedas de ouro ganhas com o comércio, tesouros da igreja e da realeza, também era transportado dinheiro, joias, ouro e outros objetos de valor. Circunstâncias inesperadas, ataques repentinos, desastres e outros infortúnios podiam levar a que estes objectos fossem escondidos, muitas vezes enterrados, de uma forma não planeada e com urgência. Segundo a lenda, antigamente existia uma grande nogueira nas margens destas nascentes onde se acredita que haja um tesouro enterrado. Quanto às nascentes, estas não falam do tesouro enterrado naquela terra, mas sim da coisa mais valiosa: o amor. É por isso que ainda se acredita que quem se casa nas nascentes de Ali-Pasha viverá em felicidade e prosperidade.

Todos os verões, no dia 2 de agosto, os habitantes de Gusinje e Plav, vindos de todas as partes do mundo, reúnem-se aqui nas fontes de Ali-Pasha. Provavelmente, este é o maior encontro tradicional de famílias em Montenegro, com a presença de mais de 15.000 pessoas. Cantam-se canções antigas de Gusinje, dançam-se danças folclóricas tradicionais, reencontram-se amigos e, à noite, a festa continua por Gusinje.’

A paragem seguinte era na cascata Grlja também conhecida por Gërla. Esta cascata fica ao pé de um pequeno parque de estacionamento gratuito a 10 minutos de carro das nascentes Ali-Pasha. A cascata é alimentada pela nascente Oko Skakavice (em português: olho de gafanhoto) e pelo degelo da neve que cobre as montanhas em redor. A cascata tem uma altura de 12 metros onde a água cai para o desfiladeiro de Grlja e acaba por se juntar à água vinda das nascentes de Ali-Pasha que vai depois desaguar no lago Plav.

Nós não passámos muito tempo ao pé da cascata, e por qualquer razão senti uma sensação estranha enquanto estive aqui. Eu não sou de presságios, pressentimentos ou sextos sentidos, mas senti o ambiente pesado. E era apenas uma cascata, algo que vemos practicamente em todas as viagens que fazemos, a menos que sejam viagens citadinas. É que nem conseguia olhar para onde a água caía sem ficar com pele de galinha. E podem pensar que foi devido ao pormenor que vou contar em seguida, mas já me sentia assim quando reparei na fotografia.

É que na rocha no ponto onde a água começava a cair estava a fotografia de um homem com duas datas por baixo, a data de nascimento e a da morte. Pelos vistos o homem tinha morrido em 2023. Agora o que não sei é se morreu de acidente ou se foi suicídio, mas apesar de esta fotografia ser um memorial a verdade é que adicionou uma camada de estranheza à visita à cascata. No entanto, esta cascata é com certeza um dos pontos onde parar neste parque nacional. E até pelo que li há vários trilhos que valem a pena ser feitos aqui à volta.

O último lugar que esperávamos visitar naquele dia era exactamente a nascente que alimenta a cascata Grlja, Oko Skakavice. No entanto as coisas não correram como o esperado. Já entre as nascentes de Ali-Pasha e a cascata Grlja reparámos que a estrada estava a ficar cada vez mais em pior estado com vários buracos cada vez mais pronunciados e isto piorou bastante quando tentámos chegar a esta nascente. De tal maneira que acabámos por estacionar o carro a meio caminho e seguir a pé.

Mas também a pé chegou a uma altura em que o caminho estava de tal forma enlameado e inundado pelas águas do riacho que acabámos por desistir e voltar para trás. E também por esta altura o sol já se estava a pôr e começava a escurecer. Infelizmente acabámos por não visitar esta nascente.

Apesar de Gusinje ser a cidade principal deste parque nacional, não deixa de ser uma cidade modesta. E fomos avisados pelo senhorio que não havia muitos restaurantes, contudo estivemos indecisos entre algumas opções. A churrascaria Alipašini izvori acabou por vencer, e ainda bem que assim foi.

Esta churrascaria tem um menu variado com kebabs, hambúrgueres e carnes grelhadas o que é esperado, mas também tem pizzas e sandes. Nós queríamos acabar a última noite em Montenegro a comer comida tradicional e claro que os ćevapi satisfazia esse requerimento. Já tínhamos experimentado em Bar no início da viagem (ver aqui) e tínhamos gostado bastante, por isso porque não repetir?

Ćevapi no Alipašini izvori

Havia dois menus de ćevapi cuja diferença era na quantidade de carne, um era de 125gr e outro de 250gr que foi o que escolhemos. Em 2025, o menu mais pequeno custava em 3 euros e o maior 6. Ainda não acredito o quanto barato era. E o preço do prato incluía os vários molhos, couve e cebola raladas e pão. Para beber pedimos sumos já que não vendiam álcool neste estabelecimento. Foi a refeição mais barata da viagem e como podem ver na fotografia acima a quantidade de comida era óptima especialmente considerando o preço. Se fosse a apontar algo era de que gostei mais da carne dos ćevapi em Bar. E fiquei bastante surpreendida pois apesar de estarmos numa parte rural do país, o empregado falava um inglês perfeito.

Outro lugar que também recomendo nesta cidade é a padaria Pekara-Furra VIZION Gusinje. Nós viemos aqui comer qualquer coisa depois do passeio pelas nascentes e cascatas do vale Ropojana, quando ainda era demasiado cedo para jantar. Experimentámos uma espécie de pizza e um cachorro, e eram ambos deliciosos. E a preços tão baratos que era quase um crime.

Um aperto no adeus a Gusinje

O que eu não contei logo no início foi que ficámos a conhecer um cão mal chegámos a Gusinje. Bem era mais um cachorrinho do que um cão. Ele veio ter connosco quando estacionámos o carro ao lado de Kula Nekovic a pedir festas todo contente. Acabou por nos seguir até Kula Nekovic e ficar sentado perto do homem que nos ajudou no check-in. Quando nos vínhamos embora no dia seguinte, o cão veio a correr ter connosco mal nos viu mas agora eu já vinha preparada que no dia anterior quando fomos à padaria tinha também comprado um pão recheado com salsicha para lhe dar. Até o resto do pão do jantar do dia anterior ensopado no molho da carne embrulhado num guardanapo lhe trouxemos.

Cachorrinho de Gusinje

E não é que o cão começa a correr atrás do carro quando nos estávamos a vir embora? Não sei quantas vezes nesta viagem o meu coração se despedaçou. Quando cheguei a casa não conseguia deixar de pensar no cão e por isso decidi mandar mensagem ao senhorio de Kula Nekovic a perguntar se podia ajudar-me a encontrar-lhe um dono. Foi então que o senhorio de Kula Nekovic me disse que ele próprio trata dele dando-lhe comida várias vezes ao dia e abrigo dentro de casa. E que se chegasse uma altura em que não pudesse tratar do cão não o deixaria ao abandono.

Só penso que ainda bem que mandei aquela mensagem ao dono de Kula Nekovic porque o cão não me saía da cabeça e muito me alegro por saber que pelo menos aquele está a ser bem tratado. Mas a realidade não é essa para a maioria dos animais em Montenegro e por isso continuo a enviar todos os meses dinheiro para a organização Stray aid Montenegro. Pode ser pouco e de certa forma este gesto é egoísta da minha parte, como se eu assim fosse perdoada por não ter feito mais pelos cães com os quais me cruzei em Montenegro, mas mesmo assim acredito que é melhor do que não fazer absolutamente nada. Espero que pelo menos uma pessoa que leia esta post também o faça. Deixo aqui o link da organização: https://strayaidmontenegro.be/



Antes de deixarmos o parque nacional de Prokletije fizemos uma última paragem em frente ao lago Plavsko (ou Plav), o lago onde vão desaguar as águas das nascentes Ali-Pasha e da cascata Grlja. Este lago glaciar tem cerca de 10.000 anos e cobre uma área de 1.99 km2.

Plavasko jezero

E com este lago dizíamos adeus ao parque nacional Prokletije.

De Gusinje, no parque nacional Prokletije, a Podgorica há três caminhos possíveis, mas para nós só havia as alternativas de longa duração. Passo a explicar. O caminho mais curto com uma distância de 75km e tempo estimado de 1 hora e meia atravessa a fronteira com a Albânia. Para o fazer de carro é preciso uma autorização conhecida por ‘Green Card’ que penso que é pedida quando se faz a reserva com a companhia de aluguer de carros. Como nós não tínhamos essa autorização porque não considerámos a possibilidade de sairmos de Montenegro tivemos de fazer outro percurso, este mais longo de 118km que demorou 2 horas e pouco.

Para quem visita Montenegro como parte de uma rota que inclui vários países como a Albânia ou a Croácia ou a Sérvia, terá essa autorização. Para quem não tem essa autorização tem de fazer como nós e escolher percursos que não cruzem a fronteira com outros países.

Autoestrada entre Gusinje e Podgorica

Quanto aos percursos dentro de Montenegro há duas possibilidades, ambas muito parecidas tanto em distância como em tempo de viagem, a única diferença é que numa paga-se portagens (autoestrada A1) e na outra não (estrada nacional E80). A nossa ideia era seguir a E80, mas enganámos em alguma parte do caminho e acabámos por apanhar a autoestrada o que a ver não foi terrível, a portagem custou-nos 3.50 euros e a viagem foi muito mais tranquila e sem paragens o que não aconteceria se fôssemos pela nacional.


Niagara Falls de Podgorica

A primeira paragem em Podgorica ficava fora do centro da cidade, nas Niagara Falls de Montenegro. (Não confundir com as mais famosas Niagara Falls dos Estados Unidos da América). Nós não tínhamos grandes expectativas para Podgorica pois tínhamos lido que esta é por vezes referida como a ‘capital mais aborrecida da Europa’. Contudo, apesar de no final do dia não dizer que é preciso passar mais do que umas horas a explorar Podgorica, a verdade é que a cidade nos surpreendeu pela positiva. E as Niagara Falls foi um desses locais.

Niagara Falls de Podgorica

O estacionamento é gratuito e até há um pequeno café com esplanada junto ao riacho e à cascata. Nós estacionámos o carro numa das bermas na estrada principal e chegámos à cascata descendo por umas escadas. E não só se pode visitar a grande cascata como passear junto às rochas que seguem o curso da água onde outras cascatas mais pequenas se juntam formando bonitas paisagens. No verão este deve ser um lugar perfeito para tomar banho já que há zonas em que as rochas formam pequenas piscinas naturais.

Passeio junto às Niagara Falls

Este foi sem dúvida um dos meus locais preferidos em Podgorica que recomendo a visitarem se estiverem na zona. Também é fácil de aqui chegar sem carro, basta apanhar o autocarro 30 no centro de Podgorica que para mesmo ao lado das Niagara Falls ou então apanhar um Uber. Se de autocarro a viagem demora cerca de 20 minutos, de Uber demora 10.

Parque da cidade, Gorica

Já no centro da cidade começámos pelo grande parque, Gorica. Este é o maior parque da cidade e foi construído para dar aos locais um lugar fresco onde possam passear principalmente no verão. Podgorica é muito quente no verão, e imagino que assim o é, pois mesmo sendo meio de novembro eu andava de manga curta. As temperaturas aqui foram muito diferentes daquelas que sentimos nas montanhas. O parque tem vários trilhos de diferentes dificuldades, tem um café e várias actividades para os miúdos, como um zipline (com um tamanho bem mais modesto do que o do desfiladeiro Tara).

Nós não percorremos nenhum trilho em específico. Passámos pelo mausoléu Partizanskim borcima (combatentes partidários) que é um memorial em honra aos que combateram na Segunda Guerra Mundial. Este monumento de 10 metros foi inaugurado em 1957, e nele se encontram os restos mortais de 68 combatentes que morreram durante a guerra. Depois seguimos o caminho que subia o parque e acabámos por chegar ao ponto mais alto de Gorica onde se tem uma vista alargada da cidade e das montanhas que a rodeiam.  

Vista panorâmica de Podgorica do topo do parque Gorica

Este parque é sem dúvida um lugar procurado pelos locais pois durante todo o tempo que aqui estivemos e em toda a parte do parque por onde passámos encontrámos várias pessoas, miúdos e graúdos, a aproveitarem este que é chamado o ‘pulmão de Podgorica’.

Ponte Millennium

Outro local que queríamos visitar antes de partir era o templo ortodoxo da Ressurreição de Cristo e para isso tínhamos de atravessar a ponte Millennium. Esta ponte foi construída em 2005 simbolizando a modernização de Podgorica e é hoje um importante ponto de passagem entre as duas margens do rio morača.

Ponte Millennium

A ponte Millennium tem 173 metros de comprimento e 57 de altura. Esta pomnte suspensa é suportada por 36 cabos e segue uma arquitectura modernista tendo-se tornado rapidamente um marco importante na cidade após a sua inauguração.

Templo ortodoxo da Ressurreição de Cristo

É impossível ignorar o majestoso edifício do templo ortodoxo da Ressurreição de Cristo, edifício esse que parece ter sido montado com peças de lego num encaixe perfeito. Visitar o templo é completamente gratuito e é um dos locais a não perder em Podgorica.

Templo ortodoxo da Ressurreição de Cristo

Este templo levou 20 anos a ser construído entre 1993 e 2013 quando foi inaugurado. O actual edifício foi construído onde ficava o antigo templo este construído em 1869, que foi destruído e reconstruído múltiplas vezes ao longo dos anos. No seu interior é impossível não ficar surpreendido com os bonitos e coloridos frescos que cobrem as paredes e os tectos do templo.

Parques Njegosev e Kraljev

Depois de visitarmos o templo e já fazendo o percurso de regresso ao carro passámos por estes dois parques, bem mais pequenos do que o parque Gorica, mas não menos bonitos. Tivemos a oportunidade de atravessar a ponte velha de Ribnica também conhecida por ponte Adži-paša, ponte essa construída no século II pelos romanos e reconstruída durante o império Otomano no século XVIII. Também como marco do império Otomano em Podgorica encontram-se os vestígios do forte de Depedogen ao pé da ponte, este construído no século XV.

Ponte Adži-paša

Ainda pensámos em visitar a parte histórica da cidade, afinal tinha sido um dos pontos altos quando estivemos em Budva e em Kotor, mas acabámos por não entrar muito nessa zona de Podgorica por já não termos muito tempo antes do nosso voo. No entanto, fica aqui a dica.

Última refeição da viagem no Doner x Gryos by Rumi

Antes de irmos para o aeroporto fomos jantar pois o nosso voo só descolaria às 9 da noite e os preços no aeroporto são escandalosos. Aliás eu fiz o erro de comprar um café e um croissant enquanto esperávamos no aeroporto e paguei 2.60 euros pelo café e quase 5 pelo croissant. Enquanto que o jantar em Podgorica ficou-nos por 4.5 euros.

E voltando a Podgorica, depois de várias indecisões acabámos por ir ao Donor x Gyros by Rumi, não muito longe do Gora parque e perto de onde tínhamos deixado o carro. Eu fui a que estive mais indecisa em vir aqui porque o restaurante estava naquela altura vazio o que normalmente não é bom sinal. Felizmente a minha suposição estava errada.

Gyros no Donor x Gyros by Rumi

Pedimos um gyros com molho tzatikizi e posso garantir que este local foi a escolha acertada. Era absolutamente delicioso e para mais barato. Sim é verdade que o restaurante estava às moscas, havia mais empregados do que clientes, mas se calhar também porque ainda era cedo para jantar. Ou se calhar porque é mais um lugar para take-away do que para comer no local. Não sei qual a razão, mas foi perfeito para acabar esta viagem em Montenegro (não vou contar com o café e o croissant do aeroporto, porque eu sinto sempre que os aeroportos são ‘terra de ninguém).

Página do Instagrama: Doner x Gyros by Rumi


Montenegro é sem dúvida um país que vale a pena visitar, um país cuja popularidade está a aumentar e com razão de ser. No entanto, é um país que ainda se está a habituar ao turismo e que ainda não está preparado para receber muitas pessoas ao mesmo tempo, razão pela qual se vê tantos vídeos de turistas frustrados nas épocas altas. Não sei se recomendo visitar Montenegro em novembro apenas porque algumas das atracções já estavam fechadas como o teleférico de Kotor, alguns restaurantes e museus. Por isso início de outubro é a minha recomendação, quando as temperaturas ainda são amenas e que provavelmente permitem aproveitar as praias da costa, os estabelecimentos estão abertos e há menos turistas.

Espero que a nossa viagem a Montenegro vos ajude a moldar a vossa.